La Vénus Électrique

A ironia ingênua no meio de beijos eletrificados

Por Fabricio Duque

Assistido presencialmente durante o Festival de Cannes 2026

La Vénus Électrique

Parece mesmo ser um padrão formal a escolha de filmes de abertura de festivais de cinema. Essas obras talvez precisam estar no meio dos extremos, com mais apelo popular e de fácil digestão. Pelo histórico, a maioria desses longas-metragens se apresentam mais como filmes-novela, nivelados na repetição de características mais universalmente clichés. Mas a obra, que abriu oficialmente a 79a edição do Festival de Cannes, em 2026, pode ter quebrado essa “maldição”, ainda que não totalmente, convenhamos. Vamos entender! “La Vénus électrique”, de Pierre Salvadori, que co-roteirizou junto de Benjamin Charbit e Benoît Graffin, baseado em uma ideia original de Rebecca Zlotowski e Robin Campillo, vem na metade, porque tenta misturar o humor francês (a maestria de todo o filme), de ironia ingênua e de cumplicidade convidativa, com a estrutura narrativa mais palatável do cinema norteamericano (isso que gera toda essa incompatibilidade contextual de manter o ritmo fluído).

No site oficial, o próprio Festival de Cannes define “La Vénus électrique”, décimo primeiro filme que Pierre Salvadori realiza em 34 anos, como um filme de audiência e “uma comédia romântica burlesca”, especialmente neste caso por objetivar o atravessamento de épocas, juntando toques do contemporâneo na mise-en-scène fabular (mais de estética propositalmente amadora, num que de “Pele de Asno”, por exemplo) do período abordado da belle époque. Sim, o que incomoda é não manter a coerência-essência (à moda de um “O Fabuloso Destino de Amélie – Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain”), tendo muito mais encenação que a naturalização de uma cotidiano mais ficcionalmente realista. Quando o filme começa e somos imersos na fotografia, saturada à uma névoa nostálgica, que evoca esse passado, e consequentemente a história se desenvolve no meio de um circo a céu aberto, povoado por artistas e por expressões culturais, potencializada pelos típicos e  comportamentos dos franceses, que vivenciam de forma urgente, improvisada, espontânea (ao limite de seus quereres), passional e imediatista seus desejos, sensações, obsessões, amores, vontades, emoções e dramas, e na interpretação entregue de seus atores Pio Marmaï, Anaïs Demoustier e Gilles Lellouche, então embarcamos no melhor do cinema francês de ser de cenas do cotidiano-esquetes-crônicas: os diálogos, os corpos mais orgânicos, os acasos, a metafísica mais concreta e até mesmo o jeitinho próprio de sobreviver, o de se aproveitar da fragilidade dos outros.

Como disse, “La Vénus électrique” acontece todo entre tempos narrativos. Se de um lado vem a sagacidade espirituosa, nonsense, vital e curiosa de uma inocência mascarada (e recebida com praticidade no propósito inicial (o sarcasmo da consciência versus o dinheiro), entre a ambiguidade e o fingimento, que beira o constrangimento permissivo (de aceitar a mentira por conveniência do resultado final), podendo ser melhor entendido nesta conversa:

-Estou sóbrio!

-Desculpa!

-Obrigado!

E/ou pelos detalhes de se demonstrar amor de forma incomum, quase surreal: a madeira para esquentar a lareira. Do outro então o filme é pautado pelos cortes rápidos da edição, pelo preenchimento de música nos silêncios, pelas reviravoltas resolvidas mais facilmente, pela pressa do final, pelos olhares a espera de uma ação, pela sucessão de clichês óbvios e pelo tom mais sentimental que rasga o timing do filme, o deixando muito açucarado e bem “eletrificado”. Sim, “La Vénus électrique” está entre dois mundos. Um traz a imaginação dos Loucos dos anos vinte, numa efervescência criativa e de transmutação criativa. O segundo imprime a paixão sem filtros do diretor pelo cinema de Ernst Lubitsch, Billy Wilder e Blake Edwards. O site do festival continua sua “defesa” pela filme, que “cria mundos únicos, quase novelescos, enraizados em uma realidade social que explora as relações humanas e as vulnerabilidades de personagens atormentados em sua difícil busca pela felicidade”.

Pois é, sei também desse fervor incondicional do gostar dos franceses, e sei mais ainda após ler o livro “Judoca”, escrito por Thierry Frémaux, o diretor artístico do Festival de Cannes, mas como sou defensor ferrenho de obras que buscam a autoralidade acima de todas as coisas, vejo então, numa conclusão, que faltou em “La Vénus électrique” acreditar mais na “eletricidade”. Faltou tirar o pé no freio e se desgovernar mais à moda de um François Ozon. Sim, também sei que diretores são diferentes e que cada um pensa de uma forma, ainda assim, mantenho a minha opinião que apelar mais ao popular é sim um beijo sem emoção. Filmes para mim são marcantes pela força de suas inovações. Logicamente também concordo que nem todos conseguem (e desejam) ser obras-primas. Mas que este bem que poderia focar mais na estrutura francesa que na hollywoodiana, ah isso podia sim!

3Nota do Crítico51

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