Balanço Geral e Vencedores do Festival É Tudo Verdade 2026

Sagrado

Balanço Geral e Vencedores do Festival É Tudo Verdade 2026

“Sagrado”, novo filme de Alice Riff, vence melhor documentário nacional e “Um Filme de Medo”, do diretor português Sergio Oksman, ganha o prêmio da mostra internacional

Por Francisco Carbone

Foi uma maratona de mais de 100 filmes em 10 dias, divididos entre Rio de Janeiro e São Paulo. Findada mais um É Tudo Verdade, o balanço é positivo para todos os envolvidos; sessões cheias, debates acalorados, muita emoção dentro e fora da tela, e a certeza de que mais um ano de documentários acima da média chegarão ao nosso circuito exibidor dentro dos próximos meses. O resultado das premiações consagra um cinema de entendimento entre adultos e crianças, onde a juventude é porta de entrada para os conflitos mas também para o medo. Em comum, além dos personagens infantis, existe também a coincidência de ambos serem falados em portugês.

A mostra nacional é vencida por “Sagrado”, o novo filme da diretora Alice Riff (de “Meu Corpo é Político“), uma cineasta que tem se mostrado muito interessada na investigação acerca do ensino público no Brasil, como em “Eleições”. Aqui, ela vira sua lente para o corpo docente de uma escola em Diadema, na Grande São Paulo. Já na mostra internacional, o filme encaminhou-se para “Um Filme de Medo”, do diretor português Sergio Oksman. Aqui, um pai documentarista leva o filho pequeno para um fim de semana nos moldes de “O Iluminado”, em um hotel abandonado. O filme é um estudo de metalinguagem curioso e diferenciado. Ainda que não tenha conseguido assistir a ambos, a aparência de favoritismo para os títulos correu durante o festival.

Já entre os curta-metragens, a disputa brasileira pode ser chamada de uma lavada: Os Arcos Dourados de Olinda levaram tudo que era possível na disputa. Melhor filme segundo o júri oficial, melhor filme segundo o júri formado pelo Canal Brasil, melhor filme para o Prêmio Mistika, melhor filme para a APACI (Associação Paulista de Cineastas) e o prêmio de melhor montagem em curta-metragem. O rolo compressor de Douglas Henrique foi real, sobrando apenas menções honrosas do júri para  “Filme-Copacabana”, de Sofia Leão, e “Divino: Sua Alma, Sua Lente”, de Clea Torres e Gilson Costa. Tendo assistido toda a competição de curtas, posso dizer que as qualidades do filme de Henrique são evidentes, mas penso se uma produção delicada como Talvez Meu Pai Seja Negro não merecia também alguma distinção, tendo seu quadro temático amplificado em uma discussão quase inédita dentro do cinema brasileiro.

É tudo Verdade 2026

O segundo longa mais premiado foi Apopcalipse Segundo Baby, filme de Rafael Saar sobre uma das cantoras mais populares do Brasil, que além de receber a menção honrosa do júri oficial, também ganhou os prêmios de melhor montagem  de melhor material de pesquisa. A sessão da produção de Saar foi concorrida e contou com aplausos mesmo durante, o que talvez tenha identificado uma certa preferência entre os espectadores.

Já entre os curtas internacionais, vitória para o ítalo-cubano “Sonhos de Apagão”, sobre os constantes cortes de energia elétrica na ilha de Cuba, e em como os boicotes a uma região do mundo também se fazem políticos. A menção honrosa foi para uma das produções mais bonitas do ano, “Se Não Gosta, Não Olhe”, que já tinha vencido sua categoria no César deste ano. Dirigido por Margaux Fornier, o filme mostra um grupo de mulheres acima dos 60 anos frequentadoras de uma praia local na França, onde podem conversar sobre vida, amor, sexo, além de muitos outros temas, com a sinceridade e a franqueza que a idade permite.

O É Tudo Verdade deste ano parece ter a vontade de comunicação com o presente bem mais do que observar o passado. Ainda que os ecos de outros tempos sejam a base de muitas narrativas, o atual estado das coisas é a mola propulsora dos cineastas que foram selecionados, mostrando que documentar não tem a obrigação de um recorte histórico. Seja olhando para artistas consagrados, ou para nomes injustamente esquecidos, seja observando a violência contra a mulher ou elevando a grandeza de outras, estando na pureza da resposta das crianças ou vivendo para ser uma adulta cada vez mais telúrica, o festival promoveu o encontro do hoje com o hoje, para resgatar memórias que precisam ser ressignificadas para que o sentido seja enfim encontrado.

O júri dessa edição, os talentosos Carol Benjamin (de “Fico te Devendo uma Carta sobre o Brasil”), Eryk Rocha (de “Cinema Novo”) e Helena Tassara (de “Bode Rei, Cabra Rainha”) escolheu olhar para essa contemporaneidade e pensar sobre ela, sobre a arte que construímos no cotidiano, sendo professores ou cantores. Somos todos objeto de documentação diários, cuja beleza está nos olhos de quem vê.

LISTA COMPLETA DOS VENCEDORES DO FESTIVAL É TUDO VERDADE 2026

JÚRI OFICIAL

Melhor Documentário da Competição Brasileira: Longas ou Médias-Metragens

R$ 20.000 e Troféu É Tudo Verdade

SAGRADO 

Dir. Alice Riff / Brasil, 2026, 90‘

JUSTIFICATIVA DO JÚRI

Por afirmar, com rara precisão, um cinema em que a política se inscreve na forma, no gesto e nas relações do cotidiano. Sem recorrer a artifícios, o filme sustenta, do título ao último plano, uma direção segura, rigorosa e profundamente consciente de seus meios. Ao escolher uma estratégia narrativa fundada na escuta, na observação e no respeito radical aos seus personagens, constrói uma experiência em que o invisível se torna presença sensível. A partir de um material de arquivo que prescinde de explicação, o filme se organiza em espiral até alcançar um plano-sequência final de grande potência, conduzido pelas vozes das crianças. Nesse gesto, simples apenas na aparência, o filme se afirma como uma obra de rara integridade, em que elaboração estética e potência política são indissociáveis. E afirma, com delicadeza e rigor, um cinema onde invenção, poesia e luta se tornam indissociáveis.

Menção Honrosa da Competição Brasileira: Longas ou Médias-Metragens

APOPCALIPSE SEGUNDO BABY

 Dir. Rafael Saar | Brasil, 2026, 110‘

JUSTIFICATIVA DO JÚRI

Por articular, de forma visceral e autêntica, a personalidade da protagonista e sua persona performática, incorporando à própria forma do filme sua força, energia e pulsação. Ao evocar a memória da música popular brasileira, o filme constrói um retrato fiel e vibrante, que preserva a originalidade da personagem e revela um trabalho rigoroso de pesquisa e elaboração. No uso dos materiais de arquivo, evidencia-se o rigor, o cuidado e o profundo respeito do realizador.


Melhor Documentário da Competição Internacional: Longas ou Médias-Metragens

R$ 12.000 e Troféu É Tudo Verdade

UM FILME DE MEDO

Dir. Sergio Oksman / Espanha, Portugal, 2025, 72‘

JUSTIFICATIVA DO JÚRI

Em um filme de terror, não há monstros, apenas a distância entre dois mundos, pai e filho. O pai tem medo de herdar os fantasmas do passado, e o filho caminha leve, quase sem sombra.

Menção Honrosa da Competição Internacional de Longa ou Médias-Metragens

MEU PAI E GADDAFI
Dir. Jihan / EUA, Líbia; 2025; 88‘

JUSTIFICATIVA DO JÚRI

A partir da busca da filha por seu pai, somos conduzidos a conhecer as tramas de poder em um país atravessado pelo conflito.


Melhor Documentário da Competição Brasileira: Curtas-Metragens

R$ 6.000 e Troféu É Tudo Verdade

OS ARCOS DOURADOS DE OLINDA

Dir. Douglas Henrique | Brasil, 2025, 24‘

JUSTIFICATIVA DO JÚRI

Pela irreverência e pelo humor na construção de uma narrativa lúdica que surpreende ao reinventar o uso do material de arquivo. Ao transfigurá-lo com liberdade e invenção, o filme constrói uma crítica ao imperialismo ao mesmo tempo afiada e desarmada, que assume sem receio o popular, o clichê e as contradições da própria identidade.

Menções Honrosas da Competição Brasileira de Curtas-Metragens

FILME-COPACABANA

Dir. Sofia Leão / Brasil, 2025, 13‘

JUSTIFICATIVA DO JÚRI

Pela ousadia da proposta e pelo uso inventivo do som como eixo de montagem, articulando afetos e corpos na construção de um retrato sensível de um território múltiplo.

DIVINO: SUA ALMA, SUA LENTE

Dir. Clea Torres e Gilson Costa | Brasil, 2025, 29‘

JUSTIFICATIVA DO JÚRI

Pela força singular de Divino em cena e pela maneira como transforma o gesto de filmar em um ato de memória e permanência. Ao incorporar o próprio processo à narrativa, o filme revela uma reflexão viva sobre imagem, tempo e continuidade.


Melhor Documentário da Competição Internacional: Curtas-Metragens

R$ 6.000 e Troféu É Tudo Verdade

SONHOS DE APAGÃO

Dir. Gabriele Licchelli, Francesco Lorusso e Andrea Settembrini | Cuba, Itália; 2025; 20‘

JUSTIFICATIVA DO JÚRI

Uma sociedade agredida através do tempo e como viver com infindáveis boicotes. A ausência de energia elétrica na ilha se transforma em um recurso expressivo e cinematográfico.

Menção Honrosa da Competição Internacional: Curtas-Metragens

SE NÃO GOSTA, NÃO OLHE

Dir. Margaux Fournier | França, 2025, 29‘

JUSTIFICATIVA DO JÚRI

Na areia, sob o céu aberto, mulheres aposentadas e irreverentes se encontram com frequência, transbordando amor pela vida. Falam sem filtro — sinceras, diretas, vivas. Um cinema da intimidade onde o corpo é político.


– PREMIAÇÃO PARALELA –

Prêmio Canal Brasil de Curtas para Curtas-Metragens da Competição Brasileira

R$ 15.000 e Troféu Canal Brasil

OS ARCOS DOURADOS DE OLINDA
Dir. Douglas Henrique | Brasil, 2025, 24‘

Prêmio Mistika – Melhor Documentário da Competição Brasileira de Curta-Metragens

R$ 15.000 em serviços de pós-produção digital

OS ARCOS DOURADOS DE OLINDA

Dir. Douglas Henrique | Brasil, 2025, 24‘

Prêmios EDT. (Associação de Profissionais de Edição Audiovisual) – Melhor Montagem (Curta e Longa-Metragem)

Curta-Metragem:

OS ARCOS DOURADOS DE OLINDA
Dir. Douglas Henrique | Brasil, 2025, 24‘

Montagem: Douglas Henrique

Longa ou Média-Metragem

APOPCALIPSE SEGUNDO BABY

 Dir. Rafael Saar | Brasil, 2026, 110‘

Montagem: Claudio Tammela, Rafael Saar

Prêmio APACI (Associação Paulista de Cineastas) para melhores direções da Competição Brasileira: Curtas Metragens e da Competição Brasileira: Longas ou Médias-Metragens

Curta-Metragem:

OS ARCOS DOURADOS DE OLINDA
Dir. Douglas Henrique | Brasil, 2025, 24‘

Longa-Metragem:

SAGRADO 

Dir. Alice Riff / Brasil, 2026, 90‘