Talvez Meu Pai Seja Negro
Reescrevendo a História
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante o É Tudo Verdade 2026
A diretora Flávia Santana olhava seu pai, Antônio, e tentava extrair a partir desse olhar, as origens que ambos poderiam ter, etnicamente. Antônio não foi criado pela mãe, mas pelos avós, e teve pouco contato com a mulher que o pariu. Portanto, ele não tem de maneira muito clara o papel social de sua pele, muito menos sabe como se autodeclarar. “Talvez Meu Pai Seja Negro” parte de uma ideia que não deve ser muito extraterrestre, em se tratando de contexto social brasileiro, para escavar uma provocação que vai do histórico ao particular em questão de minutos, e volta e vai.
Como já digo em alguns textos, o “filme de churrasco” é uma construção narrativa cada vez mais brasileira, e o documentário em curta metragem é uma opção cada vez mais utilizada no gênero, permitindo que estejamos conectados ao que está no cerne da discussão por um tempo mais rápido e econômico, exatamente como deveria ser. Debates familiares costumam interessar a quem os filma, mas também a quem os assiste, criando universalidade ao que se vê. “Talvez Meu Pai Seja Negro” parte de uma premissa de interesse nichado para a família Santana, e expande essa utilização ao espectador.
O filme se utiliza de uma mecânica de apagamento estrutural que é eficaz quando muda as denominações particulares, apaga arestas que precisam ser evidenciadas e replica no indivíduo questões que oprimem e invisibilizam, ao invés de dar voz. A história de Antônio e Flávia é apenas uma das milhares que existem com a função de descredibilizar a História, e funciona como o óbvio apagamento que parece ser.“Talvez Meu Pai Seja Negro” parte de uma dúvida comum, para que a investigação seja conduzida também no âmbito próprio, para que outros entornos que não os foque, igualmente consigam representatividade e reflexão.
A maneira como Flávia incorre nessa discussão na parte imagética cria a ilusão de um documentário mais tradicionalista, com sua estrutura demarcada para os pontos de encontros e desencontros entre os personagens que acompanhamos, e suas eventuais decepções. Mas o que está em cima da mesa é a ideia de confrontar a História para reconfigurar a própria História, e não mais incorrer em julgamentos errados a cada um que se coloque em dúvida. Mesmo quando essa dúvida teima em não existir, travestindo-se de verdade inquestionável. Não à toa o título do filme é tão importante, e sua colocação em cena tem um impacto que parece silencioso, mas desmonta tudo com o que vimos com delicadeza.
Incluindo os diálogos entre pai e filha, com sua singela mistura entre simplicidade verbal e complexidade emocional, revelam muito do que pode estar escondido entre condições de marginalizados, que tem suas histórias apagadas constantemente. Os encontros entre pai e filha na frente das câmeras mostram, entre muitas coisas, a necessidade das novas gerações de se entender e procurar suas origens. “Talvez Meu Pai Seja Negro” é uma proposta de mergulho radical na motivação que faz mais sentido hoje: encontrar a si mesmo é uma das formas de diminuir as sombras de um passado que não devemos apagar.




