O Estrangeiro

O Indolente

Por João Lanari Bo

Festival de Veneza 2025; Festival do Rio 2025

O Estrangeiro

Assistir “O Estrangeiro”, realizado por François Ozon em 2025, é uma experiência enigmática, perturbadora e, ainda assim, gélida e fascinante, como definiu crítica do Variety. E foi além: a virtude do diretor (e roteirista, junto com Philippe Piazzo) foi captar a estranha vibração do texto original, a novela homônima de Albert Camus, de 1942 – algo entre o sereno e neutro, sedutor e frágil – para a linguagem cinematográfica. As frases curtas e sucintas que Meursault (Benjamin Voisin) profere tornam-se fragmentos de tempo perdidos nos cortes entre cenas friamente coreografadas.

O livro de Camus, como se sabe, lançou o escritor franco-argelino no mundo literário, em plena Segunda Guerra Mundial. Embora tenha arrefecido seu impacto, ainda hoje é possível ouvir algum personagem contemporâneo mencionar Camus como referência cultural, alguém que enveredou por uma literatura permeada de intuições filosóficas sobre o árduo ofício diário da existência. Embora frequentemente associado ao existencialismo – corrente filosófica que defende que a “existência precede a essência”, segundo a IA – ele rejeitava esse rótulo. Enquanto Sartre dizia que o ser humano constrói seu próprio sentido, Camus via a tentativa de dar sentido como um “suicídio filosófico”. Um debate que galvanizou nos anos de 1950, pós-guerra, mas que hoje parece fora de moda.

Ou não – nesses tempos de pós-estruturalismo, pós-psicanálise, pós-moderno em geral, revisitar um romance pode ser um estímulo a mais para refletir sobre a contemporaneidade, como se diz, explosiva e implosiva, que assistimos diariamente na TV. O trauma da guerra, que contribuiu para a conformação do existencialismo, e que de alguma forma está presente também no livro, parece ter-se esvaído – guerras agora são transmitidas ao vivo, afirma Paul Virilio. “O Estrangeiro”, com sua decupagem clássica impecável de comportamentos e pensamentos muitas vezes inexplicáveis, ilustrados por uma mais impecável ainda fotografia em preto e branco, com tons, semitons e definições absolutamente límpidos, logra, ao fim e ao cabo, retomar algo da força do texto original.

O casting e a performance de Benjamin Voisin tem, naturalmente, importância clara nesse resultado. Meursault é o centro da trama, ou melhor, o ponto cego da trama: trata-se de um personagem que mata um homem na praia sem maiores razões, poucos dias depois de comparecer ao funeral de sua mãe, no qual não chorou. Sua essência parece uma ausência quase vazia, indiferente, indolente. Frases curtas, esquivas em relação a qualquer pergunta – até de proposta de casamento, feita por Marie (Rebecca Marder), com quem mantem um tórrido e sensual relacionamento – desorientam o leitor e, por tabela, o espectador. A interpretação deve passar rigidez e autocontenção, até o ponto de saturação. E, no filme de Ozon, uma erotização do personagem.

Não é fácil um equilíbrio desses, e “O Estrangeiro” sai-se bem da empreitada. Em entrevista sobre o filme, Ozon criticou a escolha de Marcello Mastroianni para o papel principal na versão de 1967 dirigida por Luchino Visconti – o diretor italiano queria Alain Delon, mas não foi possível. Mastroianni, excepcional ator, não funcionou como máscara indolente. Repetir “eu não sei” em sucessivas situações – vizinho que maltrata o cachorro, vizinho que espanca a prostituta (árabe) – pode transformar-se em recurso fácil e óbvio, sem significado além do efeito nauseante. Entretanto, no livro de Camus, assim como no filme, o recurso é um aspecto central, como intuiu Jean-Paul Sartre, o decano dos filósofos existencialistas:

Cada frase é um presente; mas não é um presente indeciso que mancha e se alastra um pouco no presente seguinte. A frase é nítida, sem rebarbas, fechada em si mesma; está separada da frase seguinte por um vazio, como o instante de Descartes está separado do instante seguinte. Entre cada frase e a seguinte, o mundo aniquila-se e renasce: a palavra, desde o momento em que se eleva, é uma criação ex nihilo; uma frase de “O Estrangeiro” é uma ilha. E nós caímos de frase em frase, de nada em nada.

Assim, entre indiferença e indolência, Meursault leva a vida, sem arrependimentos, até que um fato absolutamente gratuito – o sol abrasante que se abate sobre sua testa – desarticula sua, digamos, rotina. Talvez o maior mérito dessa adaptação sem excessos “literários” – há apenas dois trechos de narração retirados do texto original – tenha sido a fidelidade ao mistério do romance. O personagem de François Ozon manteve uma opacidade própria, alguém que vive uma situação absurda que é simplesmente dada.

Alguém, enfim, que atravessou a existência segundo as normas de Albert Camus.

4 Nota do Crítico 5 1

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