Retiro: A Casa dos Artistas

Um cenário como qualquer outro 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o É Tudo Verdade 2026

Retiro: A Casa dos Artistas

Roberto Berliner e Pedro Bronz já realizaram dois filmes antes em dupla, “A Farra do Circo” e “Herbert de Perto”, mas suas melhores obras foram concebidas sozinhos – respectivamente “A Pessoa é Para o que Nasce” e “Andança: Os Encontros e as Memórias de Beth Carvalho“. Mais uma vez unidos, dessa vez em “Retiro: A Casa dos Artistas”, Berliner e Bronz parecem confortáveis no que estão construindo aqui. A responsabilidade com seus personagens é grande; estamos falando de um grupo de indivíduos que são julgados de todas as formas, e o filme não pede comiseração. O que existe é simplesmente essa existência, repleta de lembranças e vontade de viver acima de tudo.

Se o registro é válido, e o intuito de explorar esse lugar narrativo é real, o que não surge em cena é a proposta de se filmar isso, que passe ao largo da necessidade. Ok, é preciso estar lá, ter contato com aquele lugar, conhecer seus moradores, e eventualmente perceber o que salta daquelas histórias. O que está em cena nesse “Retiro: A Casa dos Artistas”, no entanto, é a vontade de fazê-lo; seu relevo para cinema, no entanto, nunca é motivado. A ideia nem chega a ter uma estrutura mais tradicional, o que inexiste mesmo são as motivações de seus personagens, que provavelmente não dão ao filme o que o filme não consegue extrair deles. Essas pessoas moram nesse lugar. Porque?

Vez por outra, o filme vislumbra tal relevo, como quando flagra um relacionamento nascido na casa. No conjunto de regras do Retiro, não é permitido o envolvimento entre seus moradores; o porquê dessa diretriz, o filme nem se preocupa em trazer contexto. Apenas existe um casal que se ama, e que não deveria ou poderia fazê-lo ali dentro, mesmo sem qualquer ideia que justifique a proibição. Em outro momento que o filme não carrega, é a presença de artistas consagrados dentro do espaço, como Iris Bruzzi e Jaime Leibovitch. Se seria válido que o filme desse o mesmo peso para todos em cena, é confuso entender que outros tipos, menos conhecidos e com menor reverberação, apareçam tanto mais.

No entanto, a falta de diferenciação entre os mais proeminentes e os moradores mais anônimos, não é traduzido de forma alguma. Ou seja, não temos um dilema em cena, um ponto de análise, uma proximidade; o excesso de distanciamento, para que tudo esteja em igual pé, tira do filme sua proposição. O que é aquele lugar, quando surgiu, como é mantido, são algumas das perguntas que poderiam estar em cena, mas “Retiro: A Casa dos Artistas” só parece propagandístico. Quase como se fosse um institucional, e tenho pra mim que se assim o fosse, teríamos algo que se configurasse para algum lado que fosse. Menos vazio.

Esteticamente então, “Retiro: A Casa dos Artistas” soa anódino. Sem artigo de representação, seja narrativa ou cinematograficamente, resta ao filme nos envolver com seus personagens. Pois bem, porque será que nenhum de seus artistas têm sua história evidenciada? A fala de Leibovitch se perde, apesar de representativa, assim como a apresentação teatral, porque nenhuma das duas consegue ir além da formalidade que a realização está impregnada. Um trabalho precisa ser feito, seu registro será garantido e essas entrevistas terão a perenidade que um filme faz. Se encerra nessa colocação que o filme tenha validade posterior, e não apenas a de monitorar um grupo de personagens de maneira aleatória.

2 Nota do Crítico 5 1

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