Vivo 76

O voo do pássaro brasileiro

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o É Tudo Verdade 2026

Vivo 76

O Alceu Valença que conhecemos há muitos anos é uma figura pública em constante desconstrução da alegria, da efervescência anárquica, o homem que, ano após anos, reafirma “Anunciação” como um dos grandes hinos da MPB. Corta para o surgimento do artista, a partir de 1971, quando o jovem advogado larga tudo para dedicar-se à sua grande paixão, a música. “Vivo 76” não é um documentário tradicional, a começar pelo recorte em duas decisões: resgatar o jovem Alceu, aquele surgido em disco a partir de 1972 e que encerrou sua fase inicial quatro anos depois, e ouvir o Alceu de hoje. De maneira entusiasmada dentro da tela, que nos convida a uma espécie de procissão psicodélica, o filme transforma quem está assistindo em fã imediato.

Sem necessitar, “Vivo 76” nos apresenta uma nova face não apenas de seu biografado, como também do “biógrafo”; Lírio Ferreira, que vive uma fase prolífica e especial, entrega esse lado psicodélico que não esperávamos em sua forma. E a leitura que ele faz do período, não é apenas condizente com o mesmo, como absolutamente respeitosa e não-caricata. Digo do tom adquirido para a produção, que explora elementos de sua época sem ridicularizar a experiência. Em algum ponto da jornada, cineasta e personagem encontram-se em sinergia de feições, nos reconfigurando os artistas para um momento mais repletos de camadas e coloridos.

A montagem de Mair Tavares e Luisa Dowsley fornecem parte desse brilho, porque encaram “Vivo 76” com a energia que Rafael Saar dirige suas obras – e que não está tão evidente em “Apopcalipse Segundo Baby“. O que exala aqui vai além da energia e de um estado de espírito, mas o ritmo que a edição imprime, o formato de recorte das imagens, a modelagem dos cortes, muitas vezes secos, que enfileiram a produção. Mair é um dos mais clássicos profissionais de sua área, responsável por trabalhos em “A Lira do Delírio”, “Bye Bye Brasil”, “Copacabana Mon Amour”, “Xica da Silva” e muitos outros, e aos 80 anos, ainda mostra o vigor que contagia seus trabalhos.

Juntos, esse quarteto elabora um jogo visual que não é tradicional do documentário e da qual Alceu contribui graças a experiência adquirida em suas incursões pelo cinema, ainda que bissextas. Através dessas inserções (em “A Luneta do Tempo”, por exemplo), o cantor angariou já algum traquejo cinematográfico, o que possibilita essa postura frente às câmeras que carregam um corpo para o audiovisual. Ao encontrar com esse material de vídeo do passado, percebemos que o performer não nasceu há pouco tempo. E durante “Vivo 76”, o espectador acaba se imbuindo da movimentação de seu protagonista, e vestindo junto com toda a produção da mesma vibração, emocional, estética e até política.

Político porque a micro revolução arquitetada quase sem querer por Alceu é uma afirmação pública do fascínio. Pelo corpo, próprio e alheio, pela poesia, pelo caráter de liderança espiritual, o homem prestes a completar oito décadas reinventa-se desde o surgimento. O que “Vivo 76” mostra é que o artista que conhecemos ainda guarda uma inquietude própria dos grandes, ao espelhar o sujeito de 50 anos atrás com o que ainda reflete sobre o mundo de hoje. Suas ideias são fruto dessa fina autoconsciência diante de tudo o que já foi vivido, e o que ainda aguarda por um futuro palpável. Tanto sua voz e o que reverbera dela, como a maneira como seu corpo é filmado, de maneira liberta, é fruto desse entendimento dele e do filme sobre ele.

No mesmo ano em que chegará aos cinemas “Para Vigo me Voy!”, passeio pela obra e a história de Carlos Diegues, Lírio Ferreira, um dos nossos mais premiados diretores da contemporaneidade, recalcula a rota e cria um desvio para si olhando para a Arte. E faz isso exaltando o que faz de seus biografados especiais, ao se ater mais à uma investigação formal sobre a alma e as possibilidades formais de seu tempo, que às idiossincrasias dos personagens. O que torna o Alceu Valença de “Vivo 76” especial, é o que Ferreira extrai dele: apenas a essência, o sumo da construção de um artista pouco explorado, que escreveu mais do que uma parte da música popular brasileira; deixou o Tempo imprimir na sua alma um retrato de Brasil.

4Nota do Crítico51