A Divina Sarah Bernhardt

A Divina transgressora

Por João Lanari Bo

Assistido no Festival de Cinema Europeu Imovision 2026

A Divina Sarah Bernhardt

A Divina Sarah Bernhardt”, realizado por Guillaume Nicloux em 2024, revisita um dos maiores mitos da sociedade de espetáculo moderna, a formidável Sarah Bernhardt. De tão potente, o mito faz com que a atriz pareça viva, mais de 100 anos após sua morte, ocorrida em 1923 – como entender um fenômeno como esse, que atravessou gerações, guerras, saltos tecnológicos, afetos e desafetos?

O filme, obviamente, seria incapaz de abarcar tudo isso – e a saída foi escolher um recorte, apoiado em um roteiro competente e uma interpretação à altura, da Sarah contemporânea – Sandrine Kiberlain. O recorte privilegia o romance da atriz com Lucien Guitry (Laurent Lafitte), igualmente ator de sucesso, pai do ator e diretor Sacha Guitry (Arthur Mazet), romance aberto, ou seja, com ambos parceiros mantendo relações paralelas sem o menor constrangimento. Constrangimento, aliás, não era uma atitude do vocabulário sentimental da atriz – durante toda sua vida alternou casos e paixões tórridas, com uma intensidade sem limites.

Ela era notoriamente transgressora: Bernhardt tinha muitos, muitos casos e, no entanto, ninguém se voltava contra ela. Eles nem sequer a julgaram por isso; eles a amavam por isso, afirma um de seus biógrafos. Filha de uma cortesã judia de origem holandesa – “cortesã” geralmente é um eufemismo para prostituta – e pai de identidade incerta, mas alguém abastado, um advogado em Le Havre, no norte da França. O pai pagou por sua educação e teria insistido para que ela fosse batizada na Igreja Católica, além de ter deixado uma grande soma de dinheiro a ser paga quando ela se tornasse maior de idade. A mãe, por seu turno, a teria “vendido” para um cliente – fato que “A Divina Sarah Bernhardt” revela em detalhes, num dos mais fortes momentos confessionais do filme.

Momentos que se alternam na narrativa com as conhecidas explosões da atriz, com a sua famigerada franqueza com que tratava a tudo e a todos. Não seria tarefa fácil recriar esse ambiente e, sobretudo, essa energia extraordinária. Sarah Bernhardt foi uma atriz global, no sentido geográfico da palavra: viajou incessantemente continentes afora, só no Brasil esteve quatro vezes, entre 1886 e 1905, causando furor, lotando teatros e influenciando a nossa elite, aquela que tinha (ou tem) as “ideias fora do lugar”, como sugeriu Roberto Schwarz. Pedro II a convidou duas vezes, quando era imperador: Machado de Assis, a referência literária de Schwarz, era fã de carteirinha da francesa e dizia que o público não deveria apenas julgar a “senhora Sarah Bernhardt”, ou seja, sua vida pessoal, mas sobretudo a “actriz Sarah Bernhardt”, reconhecendo seu colossal trabalho em Phèdre, de Racine.

Foi no Brasil que aconteceu o acidente que a afetaria, destaque na narrativa de “A Divina Sarah Bernhardt”: durante apresentação da peça La Tosca, de Victorien Sardou, em 1905, a personagem de Sarah, Tosca, deveria se jogar de um parapeito do Castelo de Santo Ângelo. O contrarregra, hélas, não colocou os colchões de segurança que deveriam amparar a queda no palco, e a atriz caiu direto no chão, machucando gravemente o joelho direito. Foram dez anos de sofrimento até a amputação da perna em 1915, em Paris.

O episódio é peça central do longa que a cineasta Ana Carolina rodou no ano 2000, “Amélia”, baseado em fatos reais e salpicado de ficção – em 1905, uma Sarah Bernhardt em crise pessoal e profissional é incentivada por sua camareira brasileira, Amélia (interpretada por Marília Pêra), a se apresentar no Rio de Janeiro.

A trajetória artística da atriz confunde-se com a expansão acelerada da indústria cultural a partir da segunda metade do século 19. A inteligência com que administrava sua carreira é fenomenal – como quando interpretou Hamlet em 1899, aos 55 anos, em uma adaptação francesa da peça de Shakespeare, marcando um dos primeiros e mais famosos casos de uma mulher no papel principal. Na época, com aquele ar de nonchalance, afirmou: não é que eu prefira papéis masculinos, é que prefiro mentes masculinas. Um fragmento da peça, com Sarah duelando, pode ser visto no Youtube.

O filme de Guillaume Nicloux, como não poderia deixar de ser, traz um vasto cabedal de menções a próceres da vida cultural, admiradores e eventuais amantes de Sarah, como Victor Hugo, ou simplesmente admiradores, como Oscar Wilde e Emile Zola.

No seu enterro, 600 mil pessoas compareceram para prestar as últimas homenagens – exagerada ou não, a cifra é mais uma componente do mito Sarah Bernhardt.

4Nota do Crítico51

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