Direto pro Inferno

Você vai para o inferno!

Por João Lanari Bo

Direto pro Inferno

No início dos anos 2000, as aparições da vidente Kazuko Hosoki como jurada no popular programa de TV japonês Iron Chef levaram a sua consagração como “Dama do Inferno” – ela era implacável com quem aparecia para ouvir seus conselhos mostrando fraqueza, e repetia: você vai para o inferno. Esse tipo de bordão agressivo e cruel era similar ao que Donald Trump usava com os infelizes candidatos a emprego em seu programa: you’re fired! Uma época de sadomasoquismo midiático que atravessou oceanos, pelo visto.

Direto pro Inferno” é a série em 9 episódios que acaba de estrear na Netflix, contando a saga dessa personagem mitômona e determinada, audaz e frágil, alguém que viveu ciclos de opulência e pobreza, até descobrir-se em um ofício cujo objetivo era exatamente este – prever períodos de riqueza e adversidade para os pobres mortais desamparados. Para chegar a esse, digamos, ápice, Kazuko atravessou poucas e boas, altos e baixos – material sem dúvida suficiente para uma série de nove partes, com fatos verídicos e fantasiosos, embora a paciência do espectador por vezes possa ser testada, sobretudo para os mais afoitos.

A trajetória de vida de Hosoki é uma estrutura clássica de folhetim, ascensão e queda, seguida de nova ascensão e nova queda. Criada nos escombros da Tóquio do pós-guerra, ela desempenhou diversos papéis na vida — dançarina de cabaré, esposa-troféu, enganada e desenganada, dona de boate e de casa de shows, empresária de talentos — antes de finalmente encontrar sua verdadeira (ou pelo menos, mais lucrativa) vocação. A Kazuko interpretada por Erika Toda – ela é a única atriz, dos 17 aos 66 anos – combina vigor, malícia, compaixão e uma incrível resiliência, alguém com uma fome insaciável. De certa forma, a personagem pode ser vista com o pano de fundo que impulsionou a recuperação do Japão após a Segunda Guerra Mundial, e que levou à bolha econômica dos anos 1980.

Em vários momentos de “Direto pro Inferno” as circunstâncias momentâneas da economia modulam as ações e reações de Kazuko Hosoki. É como se a própria história do país estivesse sujeita aos desígnios dos astros e da ciência oculta da adivinha. Como se trata de uma série baseada em eventos reais, começando pela protagonista, podemos ter uma ideia de como os negócios políticos no Japão são reverberados pela mídia. Ao aparecer na televisão, Kazuko às vezes se referia a si mesma como pesquisadora de Shinshogaku (algo como “Estudos de Iluminação da Mente”): ela é também a fundadora do Rokusei Senjutsu (“Astrologia das Seis Estrelas”), método divinatório desenvolvido a partir do I Ching chinês. Era conhecida por sua crença de que o culto aos ancestrais é central para a identidade japonesa. Para divulgar suas ideias e conquistar adeptos, escreveu mais de 100 livros, alguns best-sellers.

Segundo o IMDB, a autora da séria para o streaming atende pelo nome da Monaka Manaka, cujo único trabalho até hoje é … “Direto pro Inferno”. Não se sabe se é um pseudônimo, ou alguém fazendo estreia em grande estilo. Mas funcionou: o recurso utilizado foi encaixar uma personagem que servisse, a um só tempo, como guia para esse labirinto e uma identificação para o espectador que aí trafega. Minori Uozumi (Sairi Ito), uma escritora em dificuldades, recebe a encomenda de escrever um romance biográfico sobre Kazuko Hosoki.

Pouco a pouco, Minori constata discrepâncias entre depoimentos da vidente e comprovação dos fatos. O irmão de Kazuko, Hisao Hosoki (Gaku Hosokawa), que a acompanhou por longos anos quando ela era empresária da noite, acabou rechaçado pela irmã e é um dos que desmentem a vidente. Acusações de práticas espirituais fraudulentas e ligações com a yakuza eram frequentes nos últimos anos de TV, mas tais contradições não abalavam a estrela, muito menos os produtores que a bancavam (e a audiência, por certo). Eventualmente o sadomasoquismo virava contra a própria apresentadora.

A série não se esquiva sobre a natureza implacável e astuta de Hosoki, tampouco se desculpa dos seus excessos. O que importou foi alinhavar, com a possível clareza, conexões entre as causas e os efeitos que levaram às decisões da vidente. Explorar e enganar outras pessoas foram respostas aprendidas no seu crescimento em um mundo que parecia recompensar a crueldade como estratégia de sobrevivência.

Em março de 2008, Kasuko Hosoki deixou a televisão, em meio a muita confusão e acusações. Mais tarde, lançou um aplicativo de leitura da sorte que a tornou ainda mais rica do que antes. Morreu em 2021, aos 83 anos de idade.

3Nota do Crítico51

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