Naza

Dano Colateral

Por João Lanari Bo

Festival de Veneza 2026

Naza

Durante quase um ano a iraniana Sepideh Farsi fez chamadas de vídeo, a despeito das dificuldades de conexão – e dos bombardeios e tiros – com Fatima Hassouna, palestina de 24 anos, residente em Gaza. A ideia era montar um documentário, afinal lançado em 2025 com o título “Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe”.

Fatima tira fotos: postadas no Instagram, conseguem a proeza de se diferenciar da massa de informação visual que (quase) banalizou a tragédia diária que se passa na Faixa de Gaza. Em abril de 2025, uma explosão matou Fatima e sua família, sem sobreviventes. Não há registro de qualquer atividade política dela. No filme, não esconde um certo desapreço por Yahya Sinwar, ex-Líder do Hamas e tido como o principal arquiteto dos ataques de 7 de outubro de 2023.

A jovem fotógrafa foi vítima do sistema de inteligência artificial e vigilância em massa do exército israelense voltado para a automação e seleção de alvos militares na Faixa de Gaza. O documentário “Naza”, dirigido pelos israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, revela, por meio de depoimentos anônimos de 24 operadores do sistema, como se dá a eleição dos alvos e cálculo dos danos colaterais. O termo em si vem do acrônimo hebraico para “Nezek Agavi”, que significa “danos colaterais”.

Trata-se, enfim de um algoritmo que cruza um volume imenso de informações coletadas de toda a população da Faixa de Gaza. Facilita a tarefa o controle israelense da rede de telecomunicação local, além de imagens de satélite em tempo real e, sobretudo, telefones celulares hackeados (incluindo o uso de programas espiões). Acompanhar ligações dos alvos designados até que retornem às suas casas para dormir é função da IA, que emite alertas a partir de falas do tipo “quando você vai voltar, papai?”.

A inteligência militar define previamente uma margem de civis eventualmente presentes no momento do ataque, dependendo da importância do alvo. No jargão do setor “20 NAZA” significa potenciais 20 vítimas que provavelmente morrerão, independente do sexo, idade e relação de proximidade com o suspeito. O número é elástico: Um dos denunciantes indicou uma operação de 500 NAZA – que provavelmente habitavam o entorno de um comandante sênior do Hamas.

O sistema dá o aval para bombardeios, mesmo com a confirmação de que dezenas ou até centenas de civis morreriam no mesmo ataque (o que eles chamavam internamente de “gerar NAZAs”).  O ataque é autorizado de forma fria e burocrática enquanto as famílias realizavam atividades rotineiras dentro de suas residências, resultando na destruição de edifícios ou até quarteirões inteiros.

Em “Naza”, o filme, os relatos são frios e objetivos, com baixo ou nenhum índice de remorso. Os operadores identificam-se como soldados, inseridos numa hierarquia militar. Para diluir o peso ético da operação e agilizar os ataques, o processo de tomada de decisão é quebrado em blocos isolados. Quem executa a ordem raramente tem a visão completa do alvo.

O oficial da inteligência apenas confirma os dados na tela que foram gerados pela inteligência artificial. A máquina estipula a margem de erro e o número previsto de vítimas civis no local. O comandante de alta patente valida juridicamente e militarmente o ataque com base nas regras de engajamento predefinidas para aquela categoria de alvo.

Uma taxa de erro foi estabelecida por meio de testes práticos conduzidos pela divisão de inteligência antes de colocar o sistema em operação automatizada em larga escala. O exército selecionou de forma amostral centenas de alvos gerados de forma 100% autônoma pela inteligência artificial. Analistas humanos revisaram cada uma dessas centenas de marcações para checar se o indivíduo escolhido pela IA era, de fato, combatente, ou se a máquina havia cometido um erro.

Erro, no caso, significa confundir civis que tinham hábitos, nomes ou rotinas parecidas com os de alvos reais. Ao cruzar os dados, constatou-se que em cada grupo testado o algoritmo operava com uma precisão média de 85% a 90%. O comando militar determinou que essa margem estatística de erro (de aproximadamente 10% a 15%) era aceitável em um contexto de guerra acelerada.

Uma vez que a IA revelou-se eficaz dentro dessa margem, considerada satisfatória, foi dado aval para que o sistema gerasse milhares de novos alvos de forma massiva, eliminando assim a checagem manual caso a caso. A morte de civis por falha de identificação seria reduzida ao máximo. Desde o início do conflito em outubro de 2023, o número total de palestinos mortos na Faixa de Gaza passa de 74.300, segundo os dados oficiais do Ministério da Saúde de Gaza. As estatísticas não separam combatentes de civis.

Relatórios da ONU apontam que aproximadamente 70% das vítimas identificadas em edifícios residenciais e abrigos são mulheres e crianças. Só o número de crianças mortas já supera a marca de 21 mil. Organizações humanitárias estimam que o número real de civis mortos seja consideravelmente maior, dado que mais de 10 mil pessoas continuam desaparecidas sob os destroços de prédios bombardeados, impossibilitadas de serem resgatadas pelas equipes de emergência. O número pode aumentar levando-se em conta as vítimas indiretas, devido à fome generalizada, alastramento de doenças e colapso total da infraestrutura de saúde.

Em “Naza“, as entrevistas realizadas nos terraços de um bairro classe média alta em Tel Aviv foram conduzidas de forma a criar um forte contraste visual e, ao mesmo tempo, garantir a segurança jurídica e física dos entrevistados. As gravações ocorreram inteiramente à noite. Os militares foram posicionados estrategicamente contra a luz, fazendo com que suas figuras aparecessem predominantemente como silhuetas escuras emolduradas pela linha do horizonte e pelas luzes brilhantes da cidade de Tel Aviv ao fundo.

Enquanto os 24 oficiais descrevem friamente as operações de vigilância e bombardeios, a câmera captura a vida urbana normal e vibrante de Tel Aviv acontecendo logo abaixo, alheia à destruição a 60 km dali – distância entre Gaza e Tel Aviv. Completam a narrativa cenas de interiores focando nas janelas iluminadas dos apartamentos vizinhos, registrando moradores jantando, assistindo à televisão, conversando ou realizando tarefas domésticas banais.

Como coprodutor e veículo responsável pela divulgação do documentário “Naza“, o jornal britânico The Guardian aplicou um processo rigoroso de checagem jornalística ao longo de três anos para validar as denúncias. Os relatos gravados foram exaustivamente confrontados com documentos militares confidenciais e vazados de dentro das divisões de inteligência de Israel. Esses arquivos serviram como provas que atestavam a existência e as regras matemáticas inseridas nas diretrizes dos softwares de inteligência artificial.

Além disso, jornal teve acesso completo às identidades reais, registros de serviço militar, patentes e históricos profissionais de cada um dos entrevistados. E entrevistou mais de 100 fontes adicionais nos bastidores, incluindo comandantes seniores e analistas de operações que não quiseram ser filmados. Eles atestaram que os procedimentos descritos na tela eram reais e sistemáticos. O The Guardian vai disponibilizar o documentário na internet em novembro próximo.

Em uma época em que os assaltos ao Direito Internacional são rotineiros, a extrapolação dos limites realçada em “Naza” se destaca. A implosão de premissas básicas, como a taxa de erro aceita de 15%, que transforma a presunção de inocência civil em um cálculo probabilístico, é um desses limites. O civil deixa de ser um indivíduo protegido por direito e passa a ser uma “margem de erro estatística admissível” pela máquina.

O sistema “Naza” opera sob uma lógica estritamente quantitativa. Através da fragmentação da cadeia de comando cria-se um vácuo de responsabilidade, uma impunidade sistêmica. Os depoimentos prestados, entretanto, têm forte potencial para influenciar e expandir os processos por crimes de guerra contra Netanyahu no Tribunal Penal Internacional (TPI). Perto de uma eleição, que ocorrerá em 27 de outubro, não é uma boa notícia. Perseguir e ameaçar os realizadores do filme parece ser a derradeira opção.

O TPI, aliás, incluiu Yahya Sinwar no pedido inicial de prisão, em maio de 2024, junto com Benjamin Netanyahu. O nome de Sinwar foi retirado do processo quando sua morte foi confirmada, alguns meses depois.

5Nota do Crítico51

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