Pequena Palestina – Diário de um Cerco

Yarmouk: campo não-oficial de refugiados palestinos

Por João Lanari Bo

Durante a Mostra de SP 2021

Poucas vezes na história do cinema uma obra foi tão lancinante como “Pequena Palestina – Diário de um Cerco”, registro do cerco que o regime sírio de Assad impôs aos refugiados palestinos que viviam em Yarmouk, entre 2013 e 2015. Yarmouk fica a uns 8 quilômetros do centro da Damasco: são pouco mais de 2 quilômetros quadrados de área, uma espécie de distrito da capital. Antes da erupção da guerra civil na Síria em 2011, Yarmouk era o lar de aproximadamente 160 mil pessoas, o maior campo de refugiados palestinos, em um total de 12, naquele país. Em dezembro de 2012, confrontos violentos eclodiram no local, opondo o “Exército Livre da Síria” – facção de oficiais das forças armadas sírias que se rebelou contra Assad – e a “Frente Popular de Libertação da Palestina – Comando Geral”, uma das organizações de militantes palestinos com sede na Síria, fortemente apoiada pelas forças governamentais. O conflito é, tragicamente, um sub-conflito do maior desastre humanitário do século 21 – a guerra da Síria. Em julho de 2013, Assad decidiu impor um estado de sítio a Yarmouk, retendo os 18 mil civis restantes, impedindo a entrada de alimentos e medicamentos, e cortando luz e água. A intensidade dos combates e o uso generalizado de armas pesadas causaram numerosas vítimas civis, graves danos a propriedades e o deslocamento forçado de 140 mil palestinos e milhares de sírios. Fome e privações de toda ordem emergiram nos meses seguintes, enquanto os confrontos armados prosseguiam.

Foi nesse momento que Abdallah Al-Khatib e seus amigos resolveram pegar câmeras de vídeo e ir à luta. O objetivo era gravar pequenos instantes coletivos e individuais, como acompanhar a mãe de Abdallah, antiga “freedom fighter” e atual voluntária de assistência a idosos, em suas andanças pelas ruínas da cidade. Não há o que seria uma litania da miséria nessas imagens: em “Pequena Palestina – Diário de um Cerco”, o desespero humano está em toda parte, sem comiseração sentimental, talvez pelo fato de a perspectiva vivida estar tão arraigada no olhar dos cameramen.  Cidadãos furiosos protestam, carregando os corpos daqueles que morreram de fome: alguém grita; “queremos viver: nascemos para viver!”. Outros desafiam ataques de mísseis: crianças correm para a câmera e enunciam, rindo de alegria, seus sonhos: “queria que meu pai voltasse”; ou, “queria um sanduíche de frango”. Ao longo do filme, ao contrário do senso comum sobre o que aconteceria em um cenário apocalíptico, os habitantes do acampamento agiam com ar de dignidade e mantinham grande parte de sua alegria, apesar dos pesares. Ao espectador, imagens como essas forçam a considerar não apenas seu próprio conforto, mas talvez sua própria ignorância da situação. Não sobra ninguém: a primeira tomada do filme mostra Abdallah devolvendo sua carteira de staff da UNRWA – a “Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo”. A impotência desse braço da ONU em produzir ações efetivas de mitigação do drama é revelada (e descartada) logo de cara.

Desastre humanitário é quase um eufemismo, diante do que aconteceu (e acontece) na Síria: dez anos de crise política e guerra civil tiveram um impacto profundo na população. Estima-se em 6,7 milhões o número de pessoas deslocadas internamente no país, e 13,3 no mundo, a maioria vivendo nos países vizinhos, como Turquia e Líbano, mas também em outros continentes, como no Brasil. A ONU calcula em 400 mil a cifra de mortos nesses dez anos. Famílias fugindo da violência, laços familiares cortados e falta de acesso a serviços vitais causados por devastação física massiva são moeda corrente. A situação começou a deteriorar-se em março de 2011, quando o governo de Assad, talvez o mais opaco em uma região de governos opacos – ou seja, que primam pela (quase) total falta de transparência – resolveu usar força letal para esmagar protestos que exigiam a renúncia do Presidente em todo o país. Era a época da “primavera árabe” e persistia a ilusão de que os regimes cairiam por força da mobilização digital alavancada pelo Facebook. No caso da Síria, que seria um dos últimos da fila, faltou combinar com Assad:  a agitação se espalhou e a repressão se intensificou; e o Presidente prometeu esmagar o que chamou de “terrorismo apoiado por estrangeiros”. Rússia e EUA tomaram partidos distintos na querela e mandaram armas e aviões-bombardeiros: o caos se instalou quando organizações extremistas de objetivos próprios, como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda, se envolveram.

Cercos como o descrito em “Pequena Palestina – Diário de um Cerco” são um dos recursos estratégicos mais perversos da “arte” da guerra. Hitler o utilizou para tentar subjugar Leningrado (atual São Petersburgo) na 2ª Guerra Mundial: “Blokada”, que Serguei Loznitsa realizou em 2007, usou exclusivamente stock footage de cinejornais para contar a história. Abdallah Al-Khatib produziu uma linguagem pulsante, colada na realidade. Em tempo: a suspensão do cerco não impediu a continuação do conflito. Em 2015, o Exército Islâmico invadiu e tomou Yarmouk: em 2018, tropas pró-governo recapturaram o acampamento, permitindo que o Exército Sírio controlasse a capital após 6 anos. Porta-voz da UNRWA disse que apenas 100 a 200 civis permanecem em Yarmouk, quase todos idosos incapazes de se locomover. Abdallah e sua mãe vivem atualmente na Alemanha.

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