Pedras, Amigos e Cinefilia Geográfica

Por Fabricio Duque

As pedras de Paraty representam o simbolismo mais que perfeito aos filmes. O andar vagaroso, preocupado e não afoito cria a metáfora do processo cinematográfico. Aqui, esta cidade colonial já abrigou a realização de filmes com narrativas tão diversos, porém complementares em seu cenário: “Gabriela” (1983), de Bruno Barreto, baseado no livro Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado (tanto que Gabriela – com cravo e canela, e Jorge Amado – Gabriela mais maracujá e limão – viraram cachaças típicas); “Tiradentes”(1999), de Oswaldo Caldeira, com Humberto Martins; “Como Era Gostoso o Meu Francês” (1971), de Nelson Pereira dos Santos, que foi indicado ao Urso de Ouro do Festival de Berlim de mesmo ano; “Chico Rei” (1985), de Walter Lima Jr.; “O Princípio do Prazer” (1979), de Luiz Carlos Lacerda, o Bigode; “Anchieta, José do Brasil” (1977), de Paulo Cesar Saraceni. e recentemente a saga “Crepúsculo”, no capítulo “Amanhecer” viajou a Saco de Mamanguá, próximo a Paraty Mirim, em uma mansão que não é aberta à visitação, mas que se pode embrenhar uma câmera entre as cercas para registrar apenas a atmosfera.

É com isso em mente que a terceira Mostra Sesc de Cinema estruturou-se para acontecer em Paraty. A energia emanada atingiu níveis espirituosos com profissionalismo. Toda a produção fez de tudo para criar a melhor experiência. Sim, nós nos sentimos em casa. A lista é grande, mas eu faço questão de listar todos e todas: Marco Fialho, Fábio Belotte, Marcos Rego, Paloma de Mattos, Fernando, Orlando, Silvio, Ricardo (Cacá), Thiago, Marcos, Anderson, Nickolas, Cauli (som), Gilvan (projeção), Eber (Projeção) , Vítor (iluminação), Bruno (produtor de cópias), Erick (projecionista), David, Conrado, Mônica Merola, Daniele Ornelas, Morgana Cortes, Celso Mendonça; os recepcionistas Juliana, Paula, Luara, Daniela, Pedro, Neto; Natália, Rodrigo; Cinema da Praça: Paula, Cristina, Leandro; Priscilla, Raphael; Milena, Luís Henrique, Silvia Maria, e muito mais gente que eu provavelmente esqueci.

O último dia sempre causa um sentimento estranho: o término, possibilidade de descansar e a sensação de ter que esperar o ano que vem para repetir a dose. A Mostra Sesc de Cinema 2019 investiu no imaterial. Reencontros, novos amigos, noites conversando de forma passional sobre os filmes, descobrir o Café Caiçara (com caldo de cana), descobrir comidas e bebidas típicas, e lugares achados ao se perder pelas ruelas históricas. Eu só tenho o que agradecer a Mostra Sesc, principalmente por essencialmente nos imergir literalmente nas veias pulsantes de um coração de mãe. Fui maquiado por Rodrigo Aragão e tive uma das melhores experiências da minha vida com o Cine Concerto de “Limite”, com trilha ao vivo de Daniel Nunes, que ressignificou o olhar, pela escolha do Indie sensorial, catártico, de epifania viva que encontra a organicidade cósmica, etérea e transcendental, como filtros plásticos da imagem. Foi tanta vivência, que muitas ficarão apenas no campo da memória, ativadas quando precisarmos reavivar. “Com o melhor remo do Brasil (maestria de Paraty)”, disse Cristina Maseda. 

Os Discursos dos Curadores

Os Premiados

O Júri teve trabalho. Composto por Wertem Nunes (GO), Ivonete Pinto (RS), Frederico Machado (MA), Lorena Montenegro (PA) e Julia Katharine (SP), as escolhas aconteceram de forma conciliadora. Seus integrantes olharam com atenção todas as premiações, destacando fragmentos e ou o conjunto, tudo justificado e embasado. Eles criarão as categorias, não existindo hierarquia entre os prêmios.

Mateus(crítica aqui), de Dea Ferraz;

Almofada de Penas(crítica aqui), de  Joseph Specker Nys;

A Praga do Cinema Brasileiro(crítica aqui), de William Alves e Zefel Coff;

Parque Oeste(crítica aqui), de Fabiana Assis e

Ilha(crítica aqui), de Ary Rosa e Glenda Nicácio.

No Voto popular, “Orin – Música para os Orixás(crítica aqui) (BA), de Henrique Duarte.

E para Jurandir Amaral, diretor de “Quilombo Mata Cavalo(crítica aqui), escolhido como personalidade da Mostra Sesc, mantendo a energia sempre em alta e o sorriso sempre presente. 

Discurso do Júri

Por apresentar um apreço pela linguagem cinematográfica, reiterando com originalidade a crença na mise-en-scene e por trazer uma disposição cênica elaborada na duração dos planos, evidenciando assim a performance dos atores, o DESTAQUE ENCENAÇÃO vai para
“Ilha”, de Ary Rosa e Glenda Nicácio.

Por orquestrar imagens documentais poderosas, imprimindo uma montagem arrojada através do registro de uma câmera-personagem urgente o destaque para MELHOR SEQUÊNCIA vai para o momento da violenta desocupação do bairro em “Parque Oeste”, da diretora Fabiana Assis.

0 júri destaca o trabalho de artistas que promovem uma arte de rua na qual mulheres não faziam parte. O registro documental se dá com sensibilidade e imersão na cultura popular dos Mateus.
Odilia Nunes, uma artista circense e atriz, performa sua Catirina apaixonadamente, conquistando o afeto dos palhaços com os quais interage: Claudio Barrilio, Zé de Bibi, Martelo, Mocó e Seu Luís. O DESTAQUE ELENCO vai para “Mateus”, de Dea Ferraz.

A partir de imagens inéditas de um mítico diretor do cinema de género, a pesquisa deste filme busca um resgate de produções essenciais para entender, através das imagens, como historicamente o Brasil está condenado aos mesmos males. O DESTAQUE PARA CINEMA de ARQUIVO vai para “A praga do cinema brasileiro”, de Willian Alves e Zefel Coff

O júri decidiu conceder uma Menção Honrosa pela excelência técnica do curta-metragem que parte da adaptação de um conto aterrorizante de Horácio Quiroga. Utilizando com criatividade a técnica do stop motion, o filme narra a história de uma mulher adoecida em um relacionamento abusivo. E a menção honrosa vai para “Almofada de Penas”, de Joseph Specker Nys

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