As palmas mais longas de Tiradentes

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2019


O incompreensível é o que… ao invés de perder tempo debatendo o significado da palavra um sinônimo é mais sucinto: Brasil. Um país onde conceber a estrutura social desafia o próprio senso intelectual. Se a literalidade era algo que permanecia em diversas ficções no cinema, por possuir uma força direta contra a política metafórica que tanto assombrou a arte por anos, no campo do documentário esta formalidade quase nunca esteve presente. Dentre os nomes já laureados de nossa história como: Eduardo Coutinho, João Moreira Salles, Kiko Goifman e outros, neste momento temos: Petra Costa, Maria Augusta Ramos, Susanna Lira e Fabiana Assis.

Este momento cinematográfico que vivemos é frutífero e vem se consolidando de maneira mais concreta que poderíamos imaginar, mas o documentário especificamente não apenas está transformando parte da “indústria” brasileira, como vêm sacudindo as ideologias com uma veemência ímpar. Todas as cineastas acima nos presentearam com obras que debatem a realidade por uma perspectiva que a tão respeitada, “História”, não nos mostra, seja por medo ou pela simples imposição fálica em um mundo onde não foram convidados a participar.

“Parque Oeste”, de Fabiana Assis, não é apenas um longa que conta a história de um povo sendo oprimido, agredido, expulso e assassinado pela polícia, é um retrato daquilo que há de pior na bandeira estraçalhada por uma nação maldita e fadada a decadência residencial com seu porte bélico enferrujado que busca um momento para realizar a própria “limpeza demográfica”. “Ordem e Progresso”. E mais grave, obrigar seres humanos a retirarem seres humanos de sua casa. E se não bastasse, uma mulher ter de prender outra mulher pelo fato da política brasileira ser hipócrita, genocida e mentirosa.

Ao ser projetada toda a violência que os moradores da região em Goiânia sofreram com os covardes de farda, entendemos que esse país que um dia proclamou democracia assinou, em letras miúdas, um decreto que inviabiliza a felicidade do povo brasileiro. Claro que não estou me referindo a supremacia branca hétero, Cis, que se esconde atrás de suas canetas (vulgo armas, na palavra dos mesmos) e de seus ternos engomados para expulsar mais de 3000 pessoas de suas residências.

A obra de Fabiana é construída a partir de imagens de arquivo e entrevistas, todas realizadas em uma montagem que sustenta um ritmo impressionante. Sendo hábil em familiarizar o público com a locação e principalmente com as pessoas daquele local. E… Eronilde. Falaremos dela mais à frente. Toda a estrutura do filme se fragmenta em estilos, não propositais, indo da câmera do celular de uma pessoa desesperada à planos lentos e melancólicos de resistentes que tiveram de provar sua força mais vezes do que a maioria suportaria. As chagas na pele e na memória são comumente abertas através da impunidade que o Estado oferece.

Eronilde. Escutei muitas pessoas comentarem como ela é forte, parece uma força da natureza, uma potência quase divina e tudo mais. Bonito, sem dúvida, mas antes de tudo, uma Mulher. A humanização desta Mulher na tela é dada com um respeito tão grande, que emociona. Não há pena, fetiche pela dor do próximo, como vemos em diversos outros projetos, não. Há respeito e admiração de Fabiana por Eronilde. Perdeu o marido para a polícia, assassinado, com um tiro nas costas. Foi presa por uma mulher (há um relato sobre essa história que, confesso, lágrimas escapuliram de meus olhos). Agredida. E é a maior liderança de todos os sobreviventes daquele fatídico dia. Organiza projetos sociais, lista os problemas que devem ser melhorados e trabalha nas construções de suas novas moradias, escolas etc. O Brasil não merece a Eronilde.

E se Fabiana é sagaz em conduzir a trajetória de seu filme, compondo bem aquilo que deseja filmar, tanto antes e depois daquele espaço, mas principalmente de todos aqueles seres humanos, a montagem cria uma cadencia ágil em ditar a atmosfera do que cada um passou e das memórias que ficam, mas são manchadas de sangue. A potência da diretora fica clara em reconhecer perfeitamente até onde pode ir com aquelas emoções e nitidamente se deixa afetar em situações específicas. O que uns veem como demérito, vejo trunfo. Já que no fim, Fabiana também é humana e Mulher. Filmando o inconcebível, montando o impensável e lançando a literalidade, ela entra no Hall das grandes cineastas de nossa geração com uma obra tão visceral quanto a realidade deste país. Onde vamos parar? Não sei, mas tenho certeza que se a caneta é arma, a câmera também é. Cuidado engravatados, elas tão chegando aí e o tempo de conversa já passou.

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