A Praga do Cinema Brasileiro

O Museu que não Envelhece

Por Jorge Cruz

Mostra Sesc de Cinema 2019

A Praga do Cinema Brasileiro” parte de uma maldição de Zé do Caixão (José Mojica Marins) que tira das profundezas do inferno as obras audiovisuais mais poderosas do cinema brasileiro do período entre o início da Ditadura Militar e a chamada Nova República.

Ao fazer uma abordagem parecida com a que Fernanda Pessoa fez em “Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava“, o curta-metragem é mais uma obra que usa imagens de arquivos ou produções pré-existentes com o objetivo de ressignificar entendimentos. Nesse caso, se serve de trechos de filmes fundamentais do cinema brasileiro para escancarar que toda e qualquer crise política aqui fabricada é fruto de luta de classes.

Há uma ironia quando os créditos iniciais mencionam um “Brasil de verdade” para imediatamento nos transportar para a chegada de Zé do Caixão em Brasília, uma província no Planalto Central fabricada, construída para que os rumos políticos de uma nação não sofressem influência direta da pressão popular. As obras que lhe seguem são uma mistura de aula de História, Cinema Brasileiro e Ciência Política. É possível que a popularização de “A Praga do Cinema Brasileiro” em mostras abertas como foi na 3ª Mostra Sesc de Cinema dê ao espectador o primeiro contato com cenas de “O Bandido da Luz Vermelha” (Rogério Sganzerla, 1968); “Eternamento Pagu” (Norma Bengell, 1988); “Cabra Marcado para Morrer” (Eduardo Coutinho, 1984); e “O Caso dos Irmãos Naves” (Luis Sérgio Person, 1967).

Até para entusiastas da produção nacional menos disciplinados, filmes como “Hitler do 3º Mundo” (José Agrippino de Paula, 1968) se tornam atrativos, apresentando textos que parecem formulado e extraídos da atualidade. O único que se mostra sendo o que sempre foi é Glauber Rocha, em trechos de “Terra em Transe” (1967) e “Idade da Terra” (1980). Um cineasta, a partir dos trechos selecionados, que foi da verborragia e do discurso direto no primeiro momento para um pessimismo desolador no segundo. Uma personalidade de nosso cinema que muitos imputaram a máscara da excentricidade e da dificuldade artística para que não se possa ouvir o que ele tinha a dizer.

A Praga do Cinema Brasileiro“, sem narração ou adição de qualquer elemento, se vale de um período muito criativo da produção audiovisual brasileira para levantar questões sobre o desmonte do país, o entreguismo de quem tem o poder da caneta e do capital especulativo que não permite ao povo adquirir sua autonomia. Um filme que nos mostra que a saída nunca estará no sofá de casa e sim nas ruas, nas salas de aula, na inserção direto na sociedade. Ao mesmo tempo, nos faz pensar sobre a praga que, na verdade, acomete essa forma de expressão artística tão reconhecida em todo o mundo, mas que até hoje é marginalizada em seu próprio país. Usa discursos escritos há décadas para fazer refletir o momento atual. Não porque eles estavam a frente de seu tempo – e sim porque a sociedade brasileira insiste em regredir.

 

Anuncie no Vertentes do Cinema

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *