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Por Fabricio Duque

Festival de Cannes 2016

Um dos princípios intrínsecos do gênero documental é, obviamente, seu resgate a uma tema que necessita ser lembrado e perpetuado. A época revisitada é condensada por informações em um arquivo resumido que conta muito com a estética narrativa de seu diretor-organizador. E quando o assunto escolhido é o movimento fetiche revolucionário do “Cinema Novo” pela visão peculiar e inventiva (de sair do senso comum e da “caixa” padronizada cinematográfica) de Eryk Rocha (de “Transeunte”, “Jards”, “Campo de Jogo” e filho de Glauber Rocha, pai que foi um dos criadores do “Dogma Brasileiro”), os olhos cinéfilos “gritam” de emoção e lágrimas na plateia, quando foi exibido na Sessão Classics do Festival de Cannes 2016. O documentário é apresentado por imagens de arquivo, basicamente dos anos sessenta, em uma montagem selecionada, nostálgica, saudosista e principalmente cinéfila, de entrevistas de personalidades daquela época, tudo para ambientar o universo deste movimento cinematográfico brasileiro (“revolucionário, mais resistente”) que foi influenciado pelo neorrealismo italiano e pela Nouvelle Vague francesa. “O assunto é cinema”, diz-se explicando características técnicas com colagens, ”estilos de enquadrar”, “a aproximação”, a luz natural externa na rua com o real (“soltar as câmeras e não maquiar a realidade brasileira. Era sair para uma discussão aberta, criando à medida que era feito”) o discurso inflamado de Glauber Rocha (“Deus e o Diabo na Terra no Sol”), a calma verbal de Leon Hirszman (“São Bernardo”), a edição 64 do Festival de Cannes, o ano de 1962 (Marco Bellocchio, “O Pagador de Promessas”), cinemas da Cinelândia, cenas icônicas e livres da história do nosso cinema, Carlos Diegues, Nelson Pereira dos Santos, e o “medo silencioso”. “Um farol. Um cinema integrado na própria realidade brasileira. Vomitávamos cinema. Era suficiente para ser a placenta que nos unia sempre com um bar no meio. Era amigo, porque um gostava do filme do outro. Cinema: uma gravura sobre o filme”, explica-se com didática passional, citando Joaquim Pedro, Saraceni, Ruy Guerra, David Neves, Arnaldo Jabor, Walter Lima Jr, Eduardo Coutinho, Edgar Moura, Gustavo Dahl, Orlando Senna, Roberto Farias, Luiz Carlos Barreto (entrevista em francês – “órfãos de uma ilha perdida do Brasil”). Era uma geração (“uma comunidade fímica” que discutia o cinema e “transcendia o aspecto regionalista” em uma “unidade estilística”) que consumia e sentia plenamente uma vontade de criar ideias em movimento, e “enquadramentos presos de O Padre e A Moça” de “quebrar o sagrado e o profano”. “Cinema Novo era uma síntese do cinema internacional. Um discurso catártico, alterado, enérgico. Quase monólogos.Talvez seja muito específica e destinado aos brasileiros. São sempre críticas”, diz-se entre paralelos a personagens retratados “condenados do diabo”. “Cinema Novo” usa a narrativa dos filmes para explicar por só o movimento em questão aqui. Uma imagem diz mais que mil palavras, o ditado popular é certo, certeiro e preciso. Questiona sobre o próprio brasileiro “que não gosta de filmes brasileiros” e que contradiz dizendo que o “cinema é popular, mas o povo não vai ver as obras”. E os entrevistados “livres” em seus discursos continuam: “Transformações. Quebrar o cinema padrão cotidiano. Uma época representada. Provocações gratuitas. Se fronteiras entre o público e o privado. Cinema político com a melhor poesia e democrático. A ideia do cinema é eterna”. A maestria deste documentário está em seu contexto. Em respeitar a própria essência e dar voz novamente às opiniões livres-utópicas-passionais-viscerais que se concretizaram em documentos cinematográficos. É um filme destinado à críticos, cinéfilos, público, historiadores, de novos espectadores (os jovens), um ensaio poético, um olhar aprofundado e um retrato íntimo sobre o Cinema Novo, movimento cinematográfico brasileiro que colocou o Brasil no mapa do cinema mundial. Recebeu prêmio Olho de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Cannes, encantou o público e levou às lágrimas o mais brutos críticos, que também assumiram amar esta viagem obrigatória (uma aula da história do cinema) pelo dogmatismo deste movimento inventivo. Concluindo, muito pode ser dito, páginas e páginas ainda serão escritas, elucubrações permanecerão sem limites nas mentes de quem assistiu, e por tudo isso, o espectador não deve, em hipótese alguma, perder, de forma alguma, este exemplar de representação fílmica. Foi um dos integrantes do 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2016.

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