A Idade da TerraA Idade da terra

Cinema de rotação

por Vitor Velloso

 

 

Escolher um filme que, em tese, é o mais importante da minha vida é uma tarefa árdua e injusta, pois a pluralidade de obras que vamos vendo com o passar dos anos é tamanha, que sintetizar tudo em uma específica é desleal, na prática. Porém, afirmar que “A Idade da Terra” de Glauber Rocha, é a obra que mais me inspira, é plausível.

De 1980, o último filme do meteórico e vulcânico Glauber entra em uma espiral de imagens e conjunturas políticas de discurso fragmentado, um transe de cenas, cores e sons unidos na visceralidade de um “pêndulo louco, entre o desespero e a esperança”. Aquele que viria a ser o último grito do baiano, tornou-se o espelho, quase antagônico, de “Aquarela do Brasil” de João Gilberto. Não que fosse intencional, mas a melodia e a harmonia que Gil, João, Caetano e Bethânia evocam da mais autêntica brasilidade era sintetizada apenas nos últimos planos do longa, após a morte do Imperialista, pelo próprio filho. Mas é curioso escrever sobre isso, já que o diretor dava livre arbítrio ao projecionista, para que este escolhesse a ordem dos rolos a serem projetados.

Não há verve que caracterize a experiência que “A Idade da Terra” representa, contudo o transe e a rotação que Glauber transmite com sua câmera contrapõe a temática bíblica com o quatro cavaleiros do Apocalipse ressuscitando Cristo no terceiro mundo em frente às questões políticas do Brasil, além do anacronismo desmedido da narrativa. Em um dos momentos chaves da “história”, uma orgia visceral e potencialmente violenta entre pai (Maurício do Valle), filho (Geraldo Del Rey) e mãe (Danuza Leão), preenche a tela que projeta o frenesi da câmera, ao fundo escutamos Glauber dar indicações de como Geraldo Del Rey deve gritar, o improviso é notório em determinados movimentos, mas a fala é profética, barroca e dá voz ao grotesco pictórico.

À maneira como a imagem se assume transitória e antropofágica insere ao espectador a sensação de caos completo, pois vemos repetidas tomadas em sequência, com as mesmas falas, ou o zoom aleatório, seguido de um abrir e fechar da íris que injeta a inquietude ao plano.

Tarcísio Meira repetindo: “A independência, a proclamação da República, a abolição da escravatura, são conquistas de nosso povo e por isso, as defenderei até a morte, mesmo quando eu exerço a violência, eu estou consciente que estou defendendo os mais sagrados direitos humanos”, sentado no “Amarelinho” na Cinelândia, cercado de pessoas curiosas com a gravação, é um dos momentos onde se compreende a costura frenética que o filme representa. Muito se diz sobre a sanidade do diretor durante o processo de filmagem de “A Idade da Terra”, mas pouco se discute sobre o sucesso do projeto, massacrado no Festival de Veneza. Em entrevista Glauber diz: “Eu não faço um cinema convencional, meu tipo de filme é uma coisa que sai de outro espaço e não obedece muito as leis da dramaturgia convencional”.

As reações negativas apontavam que o longa era incompreensível, que Glauber tinha deixado de ser marxista para tornar-se cristão etc. Ora, o branco europeu, tomando seu vinho na esquina enquanto discute Foucault, não entendeu a visceralidade e o processo de degeneração da estrutura imagética da América Latina? Compreensível, mas deplorável. O brasileiro pode se curvar para entender Godard e Pasolini, mas o nariz em pé do norte não desce do pedestal para vibrar a intensidade da poética do caos e da carne de “Idade da Terra”? A postura hipócrita e irrelevante dos colonizadores demonstra o despreparo para questões do subdesenvolvimento. O que interessou aos mesmos, anteriormente, era a forma, apenas, o discurso era assimilado como parte do processo.

Enquanto Jece Valadão busca apoio espiritual para enfrentar seus demônios, Glauber tinha que enfrentar, no grito, a arrogância daqueles que diziam acolhê-lo no exílio. Assim como Antônio Pitanga, o diretor queria a liberdade que tanto sonhara, o desvencilhamento com a cultura do “progresso” liberal, da construção de Brasília e da centralização do poder.

E as últimas cenas do arauto brasileiro, se resume ao imperialista morrendo, assassinado por seu filho, no Maracanã enquanto narra uma partida de futebol e encerrando com o som do povo em festa e Jece Valadão a comemorar. Se em sua carreira ele falou pelo Brasil e por muitas vezes seccionou o discurso barroco à burguesia (e isto acontece em “Idade da Terra”), ainda que o dirigisse à massa, o último respiro em projeção foi dado ao som daquele que precisava ser escutado, o povo.   

Trailer

https://www.youtube.com/watch?v=9CPr76mk7v0

Anuncie no Vertentes do Cinema

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *