Mateus

No Embalo da Tradição

Por Jorge Cruz

Mostra Sesc de Cinema 2019

Mateus”, representante de Pernambuco na 3ª Mostra Sesc de Cinema, parte de uma introdução que vincula o espectador-médio às clássicas representações de um circo mambembe, definição mais generalista, para documentar uma importante tradição da cultura popular brasileira, a do Cavalo-Marinho. A cineasta Dea Ferraz, que no final de 2018 conseguiu colocar em circuito “Câmera de Espelhos, elogiada produção que debate o machismo, é uma das principais representantes da inebriante cena do cinema pernambucano, um pólo de resistência audiovisual que enche de esperanças os amantes da produção nacional.

O roteiro de Ferraz, feito em conjunto com Bia Baggio, assistente de produção dos dois últimos longas de Kleber Mendonça Filho, opta por limar qualquer possibilidade de didatismo. O folguedo do Cavalo-Marinho, tradicional nos Estados de Pernambuco e da Paraíba, se apresenta sem explicações ou formulações que condicionariam o olhar do público – ou até mesmo carregar de exotismo uma valiosa e importante manifestação cultural de um povo pouco representado no cinema brasileiro.

A linha mestra de “Mateus” é a dupla de palhaços Bandeira e Jurema, denominada Companhia de Teatro Trovão Azul. Eles fazem espetáculos itinerantes, montando uma pequena lona nas praças das pequenas cidades do interior pernambucano. Uma vida errante, com a função de levar um pouco de alegria a comunidades carentes de cultura. No documentário, eles aliarão essas residências temporárias em alguns distritos com a busca por notórios Mateus da localidade.

Dentro do contexto do folguedo Cavalo-Marinho, Mateus é o personagem que “divide” Catarina (Catita) com Bastião. Presente também nos reisados, tem como característica serem negros – o que faz com que todos que o representem passem carvão no rosto – e usar um chapéu cônico no estilo do maracatu. É fundamental que um bom Mateus saiba improvisar e tenha uma maneira bufônica de se comportar. Só que nada disso é verbalizado, exigindo do público leigo nessa vertente tão valiosa da cultura uma atenção ou até mesmo pesquisa à parte. Uma forma de transbordar inteligência na linguagem do longa-metragem, que ancora sua formulação estética no respeito e na representatividade.

A maneira como Cláudio Ferrario e Odília Nunes conduzem as ações é excepcional, quase como se fizessem este tipo de trabalho há anos. Dosando apresentações nas praças com depoimentos certeiros, a montagem do filme encontra o ritmo certo para não descambar para a teleaula e nem se repetir de maneira cansativa. Um equilíbrio que “Orin: Música para os Orixás”, exibido no mesmo festival, não atingiu no trato com as cantigas dos terreiros de candomblé.

Uma abordagem interessante, que se faz presente em dois momentos distintos, se dá na moral da personagem Catita. Odília Nunes questiona a possibilidade de mulheres a interpretarem, eis que a tradição diz que homens incorporarão Catirina, descrita como uma prostituta. O trabalho desenvolvido por ela ao lado de Cláudio Ferrario acaba chancelando, ao longo do filme, a possibilidade de ser aceita como intérprete. Todos os Mateus entrevistados, de certa maneira, debatem a moral dessa representação. Cada um com seu conhecimento de mundo, porém sem se esquivar desse revisionismo crítico fundamental para que a tradição não se mostre um obstáculo para a concessão de dignidade a um grupo. Esse assunto retorna na passagem mais emocionante do longa-metragem, como na última entrevista. Ali fica evidente que o carinho inicial dos realizadores do projeto gerou um envolvimento que carregou as tintas da sensibilidade, sem que situações fossem criadas com o intuito de provocar emoção.

Também se identifica certa preocupação dos artistas ali presentes, boa parte contando mais de setenta anos, de se encontrar pessoas jovens interessadas e capazes de manter viva a imagem do Mateus dentro do Cavalo-Marinho. Mesmo no inverno de sua existência e ainda que pese as confissões autoindulgentes de que seguem se pintando e entretendo seu povo muito mais por se sentirem bem com isso do que outra coisa, a necessidade de um legado parece afetar todos que se envolvem com criação, produção, preservação ou resgate cultural de alguma forma. Não é diferente com aqueles senhores, alguns deles lamentando a velhice miserável mesmo sendo uma das pessoas mais conhecidas daquela cidade.

Transitando e sendo aclamado em festivais pernambucanos desde 2018, “Mateus” é um exemplo de documentário que diverte, informa e – de certo modo – intriga parte do público. Um projeto que nos dá a dimensão da riqueza cultural do país, ao mesmo tempo que nos faz pensar o quanto de manifestações como esta não será comprometida se iniciativas de pesquisadores e cineastas como Dea Ferraz não encontrarem o mínimo de apoio para sair do papel. Apostar em projetos assim aumentará uma filmografia que dignifica a cultura nacional, tanto pela força de seu objeto, como pela maneira como se apresenta.

 

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