Quilombo Mata Cavalo

Reconhecimento Tardio

Por Jorge Cruz

Mostra Sesc de Cinema 2019

Ao negro no Brasil quase nunca é permitido ter. Quando tem, muitos acham certo que seja tomado. O curta-metragem “Quilombo Mata Cavalo” é apenas mais uma das maneiras de exemplificar esse entendimento. O diretor e roteirista Jurandir Amaral, mesmo presente apenas atrás das câmeras, é a prova de que a representatividade no Brasil precisa ser imposta, arrancada. Ele se tornou cineasta há pouco menos de dois anos. Em agosto de 2017 ele participou de um Oficina de Realização Audiovisual chamada Revelando os Brasis. Em novembro de 2019 ele apresenta uma produção sua em todo o Brasil através da 3ª Mostra Sesc de Cinema levando um pouco da história desse quilombo localizado em Nossa Senhora do Livramento, no Mato Grosso. Uma história que ninguém melhor do que ele parece ter a capacidade de contar.

A abordagem do documentário é bastante simples, construindo sua história através de testemunhos de pessoas da localidade. Traça um arco que mostra ao espectador os momentos distintos do “Quilombo Mata Cavalo” do título. Um dos entrevistados, por exemplo, nasceu em 1905, apenas vinte anos depois da aludida abolição. Chega a ser assustador o quão perto estamos de um período como esse. Terras onde os negros puderam se aproximar da autonomia, a partir de uma herança que condicionou a propriedade à prestação de serviços até a morte do antigo proprietário. Uma vez cumprido esse requisito, aquele pedaço de mundo de 15 mil hectares a apenas 50 quilômetros de Cuiabá era inquestionavelmente do grupo.

Todavia, nos anos 1940 e 1950 o ataque de grileiros, tentando tomar as terras, fez com que o local praticamente esvaziasse. A dura realidade de quem tem negado qualquer direito que possa trazer dignidade. Há apenas dez anos, mediate decisão do Governo à época, foi demarcada a área e declarada de preservação. Foi possível, então, aos descendentes de pessoas escravizadas, tão tolhidos em suas manifestações culturais, tentar um resgate, uma busca mais efetiva acerca de sua ancestralidade. Um alento representado pela territorialidade e um pedaço de terra que possa ser chamado de seu. Feliz do Cinema Brasileiro que pode contar com Jurandir Amaral para eternizar em “Quilombo Mata Cavalo” registro tão fundamental – ainda mais quando se vislumbra um futuro com tendência de acentuação do apagamento de todos os grupos que não aquele hegemônicos.

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