Midway – Batalha em Alto Mar

A bandeira e o ego

Por Vitor Velloso

Determinados projetos nascem com desonestidade aparente e interesses políticos ufanistas e Roland Emmerich é uma das figuras centrais destas produções em Hollywood. Autor de “Independence Day” e “O Dia Depois de Amanhã”, o diretor provou sua inclinação para filmes que acentuam o espírito norte-americano e uma espetacularização da destruição e do desastre, nunca utilizando o desastre como um mero artifício estético, mas sim uma construção à catarse nacionalista. O caráter dessa atitude é tão mal intencionado, que torna todos os recursos formais do longa uma parte dessa campanha política. Negar que trata-se de uma propaganda, é recusar a estampa hiperbólica da carreira de um cineasta que realizou uma película cuja tradução é “Dia da Independência”, com o presidente dos EUA salvando o planeta.

Os simbolismos latentes de “Midway – Batalha em Alto Mar” refletem essa necessidade constante de reafirmação que o povo estadunidense necessita para lembrar de sua relevância histórica e se projetar como a chama viva que aponta aos céus em Manhattan. O desastre é ampliado a ponto de se tornar absurdo, para que possamos compreender a dimensão de feitos individuais de um exército tão proeminente. A “ameaça oriental” é uma problemática que é retratada pelo diretor de maneira a flertar com uma certa reconciliação do público.

Hipocrisia escancarada de um filme que diz compreender seu adversário, mas não teme em estraçalhar cada centímetro dele na tela. Enquanto Roland explora as explosões, o som se diverte em concatenar toda aquela destruição e morte, num verdadeiro espetáculo pictórico, mas claro, sem esquecer que “todas aquelas mortes, não podem ser em vão”. E por mais que reúna a força de um país em seu braço armado, jamais abandona a principal verve da nação, o individualismo. Realçando atos de heroísmo, através do sacrifício, da elevação da bandeira acima de qualquer caráter humano.

É de embrulhar o estômago.

Se não bastasse os apontamentos políticos que são óbvios aqui, nada chama atenção. A fotografia de “Midway – Batalha em Alto Mar” é a mesma padronagem de sempre, apelando para o pôr do sol, aquela luz que atravessa uma janela etc. O roteiro é uma bagunça generalizada que utiliza como desculpa determinados dramas de personagens para desenvolver seu caráter idealista, com diversas frases de efeito e diálogos expositivos. O som normalmente é um destaque pela veracidade que se apresenta na experiência, mas aqui consegue atravessar de maneira frágil. A mediocridade envolvida no filme, se espalha por cada setor de sua produção, provando a influência que Roland tem sobre as etapas.

Com atores irregulares (sendo eufemismo) a outros que já provaram sua qualidade, como Woody Harrelson, o longa acumula uma lista considerável de personagens, todos unidimensionais e movidos pela exaltação ufanista. Nick Jonas não faz a menor diferença no resultado final, mas como de costume Ed Skrein é um destaque relevante a ser debatido, sua presença no filme podem gerar diversos adjetivos, mas o único positivo é relativo a seu silêncio. E nesse jogo de patentes distintas, todas as interpretações se perdem nesse mar de mediocridade.

Conforme a projeção se aproxima do fim e a trilha sonora se torna cada vez mais presente, cada take adota uma pieguice brutal, sem medir a paciência do espectador, o filme cria a dificuldade em permanecer na sala até os créditos subirem. E a estrutura narrativa do acontecimento se converte na pura espetacularização padrão de Roland Emmerich, abandonando qualquer lógica de mise-en-scène, o diretor usa e abusa dos frágeis efeitos especiais, buscando algum tipo de empolgação por parte do público.

Julgando pela cabine de imprensa de “Midway – Batalha em Alto Mar”, acho que o resultado está longe de ser o esperado. Por mais que haja alguma defesa contra esse imperialismo cultural violento praticado aqui, acredito ser reflexo da colonização concretizada em diversos âmbitos sociais diferentes. Aliás, quanto maior a inclinação para questões de políticas públicas norte-americanas, em forma de apoio a essa “liberdade” proclamada por quem mais deturpa a própria palavra, mais transparece a defesa do filme.

A decadência da moral estadunidense é a síntese desses projetos, sempre buscando essa postura superior. Viril e fálico, o cinema Hollywoodiano prova mais uma vez que é capaz de entediar sem escrúpulos.

 

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