Maxita
Ato de resistir
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante o Festival Olhar de Cinema 2026
Quando adentramos “Maxita”, Davi Kopenawa nos informa que tem um sonho recorrente onde sobrevoa as terras de sua aldeia Yanomami, e que vez por outra esses sonhos se transformam em pesadelo. Quando então o drone avança pelo alto das filmagens, é que Mariana Machado e Ana Maria Machado nos informam que esse é o meio do transe onírico de Kopenawa, e a partir daí o filme pode libertar-se. O ciclo se encerra próximo ao fim da curta produção (pouco mais de 1 h de duração), mas o que fica com o espectador são os muitos momentos de desconforto que suas diretoras convoca-nos a presenciar, através de uma espécie de silenciamento particular que estamos além de testemunhas oculares.
Em sua melhor fala, Kopenawa registra um dos grandes momentos do filme. Ele diz que a situação da mineração nas terras indígenas é um caso que vem sendo denunciado há décadas, mas que somente quando imagens são capturadas desses crimes, é que o poder público pode agir, e mais que isso, quando a sociedade enfim se aproxima da empatia. Porque precisamos assistir o que é óbvio, e que nos é informado há tantos anos? Parte dessa descrença advém do preconceito que os povos indígenas seguem sofrendo no país, que diminui não apenas sua voz, mas que os tenta invisibilizar. Nos aproximando da rotina daquelas pessoas em seu universo, e acompanhando as ações de Kopenawa, tudo ganha força.
A agilidade de “Maxita” está na maneira prática em como o filme apresenta suas armas e não demora para defini-las. Com montagem de Affonso Uchôa, o filme não se prende em muitas teorias; elas estão em cena, através do discurso acertado do seu protagonista. Mas existe maior proximidade com o que Kopenawa está em curso de realizar em sua rotina, para nos guiar no mergulho de uma sociedade com seus códigos e motivações, constantemente ameaçados pelo horror. Com seu tempo acertado – e as experiências de Uchôa como média-metragista devem servir para um diálogo acertado aqui – o filme é um passeio até etnográfico, mas ainda mais preocupado em denunciar o corpo das exploradoras da terra.
A partir do encontro entre Kopenawa e Ailton Krenak, depois da sua metade, o que estamos vendo em “Maxita” é reconfigurado, porque está nessa sequência, que o roteiro entremeia com outras, que concentram-se as melhores sequências do filme. É uma passagem até ligeira, mas que arruma o que vimos até ali para além de um mais tradicional “pedido de socorro” das cineastas; estão ali a cumplicidade entre as duas personalidades e a interlocução facilitada. Eles estão no solo que lhes é caro, dividindo com quem quiser vê-los em ação, com suas ideias e seu percurso.
Apesar da inteligência emocional do protagonista (já conferida em/e por causa de “A Queda do Céu“), o filme não apresenta algo que nos distancie de outras versões de cinema com esse cunho. Esteticamente, seu alcance não propõe algo ainda mais elaborado do que já é oferecido por outras produções em situações já vistas antes. É a voz de Kopenawa que sugere o diferencial de “Maxita”, mas quando o filme prescinde dela para sua construção imagética, o que fica não acrescenta muito ao que já é constantemente apresentado em massa pelo cinema. Ainda que não exista uma visão exotificante daqueles personagens e seus ritos, em seu lugar é adicionado não muito além do que já foi visto por outras lentes.
Essa leitura, que pode ou não representar um choque para subjetividades já vistas no cinema brasileiro dependendo da bagagem do observador, coloca “Maxita” em lugar perigoso. Ao mesmo tempo que sua narrativa fascina pelo que representa e pela visão sempre desconcertante com que seu protagonista interage com a própria reflexão, o filme – enquanto projeto cinematográfico – é um título a mais a respeito dessa vivência e suas intensas lutas. Aí, no clímax, Kopenawa é carregado como o grande líder que é, e a fotografia finalmente encontra daqueles momentos maiores que o todo. São em planos como esse que se encontram a justificativa para que essas obras não parem de serem feitas, apenas precisam ser lidas por lentes não viciadas.




