Humberto Mauro

Atemporalidades Fragmentadas

Por Jorge Cruz

Em qualquer proposta de materialização de uma dita História do Cinema Brasileiro, “Humberto Mauro” reivindica incontinenti uma parte, capítulo ou momento próprio. Um cineasta que se alia aos grandes amantes do cinema, que se valeram da paixão como caixa de ferramenta de ideias, propostas, maneiras. A lista de pioneiros nas linguagens cinematográficas que se sobrepõe ou convivem há mais de um século enchem páginas de um caderno, dado o alastro desta manifestação artística no tempo e no espaço. O que chancela esse cineasta a exigir um olhar atento foi a maneira como exalou em suas obras brasilidades escanteadas, representações fiéis e cruciais para que uma nação pudesse se olhar no espelho.

Há na obra de Humberto Mauro uma riqueza estética e temática perceptível em um país onde a produção cultural e de conhecimento são duas roldanas com a manivela emperrada, eis que a sociedade insiste em banhar com ondas de ferrugem um sistema sempre a ponto de entrar nos eixos. Em um momento onde o cinema não vende mais como experimentalismo documentários a partir de ressignificação de imagens, a filmografia desse expoente da produção nacional ganha um tributo em forma de atemporalidades fragmentadas por André di Mauro, sobrinho-neto do biografado. Casando trechos de entrevistas com material criado pelo próprio Humberto Mauro, o longa-metragem apresenta as camadas do protagonista de forma tão naturalista quanto serie um produto se fosse criado por ele.

Esse procedimento de contar histórias a partir de materiais pré-existentes tem campo para se ampliar e oxigenar a produção nacional, com tendência ao combalimento pelas políticas de desfomento. Em “Histórias que Nosso Cinema (não) Contava” e no curta “A Praga do Cinema Brasileiro” é possível identificar essa tendência. Subs-subsgêneros dessa criação documentarial já se impõe. Petra Costa surge no cenário com o elemento da pessoalidade em “Elena” e alcança um público que mesmo não contabilizado sabemos que muito maior do que seria se seu “Democracia em Vertigem” seguisse o caminho da comercialização nas telonas.

Como obra cinematográfica “Humberto Mauro” se faz valer do poder hipnotizante do material original, aliado a um personagem tão espirituoso quanto ciente do peso de sua produção. O prólogo a partir do contato de indígenas em dia de chuva, com o uso do rio corrente, é uma das poucas inserções contextualizadoras do documentário. Cavi Borges em seu curta-metragem “Cinema é Cachoeira” também dialoga com essa percepção mauriana de que o cinema é momento, de que o que foi captado não se repete. No longa-metragem consolidamos a origem desse conceito no primeiro grande amor do biografado, a Fotografia. Caminho semelhante ao de Andrey Tarkovsky que também trabalhava a água como elemento múltiplo em significados.

Ou seja, o coração da obra cinematográfica aqui analisada é o conceito de cinema como fluidez, como condução. Por isso, soa como uma abordagem quase acadêmica nas vinculações entre falas de Humberto Mauro e materialização dessas opiniões a partir dos trechos – quando ele diz, por exemplo, que o “progresso é anti-fotogênico”. É possível, nesse jogo entre duas montagens, entender o processo autodidata de Mauro, sua dificuldade em exibir seus filmes, dentre outras pontuações acertadamente sem cronologia ou aparente conexão temática. De obras clássicas como “Descobrimento do Brasil” (que completou oitenta anos quando do lançamento do documentário no Festival de Veneza) e o popular curta-metragem, para alguns a gênese do videoclipe, “A Velha a Fiar“, a outros menos óbvias. Sua guerrilha na produção geraram excepcionais frutos e os debates sobre questões regionalistas do Brasil até hoje podem se valer do patrimônio cultural que compõe sua filmografia.

Di Mauro não mantém essa proposta de divagação até o fim e é certo que para muitos “Humberto Mauro” perde um pouco de vigor quando o ato final tenta dar um sentido de união dos inúmeros pontos traçados em sua trajetória. A poesia imagética se encontra verbalizada pelo próprio cineasta, justificando a tática de desconexão – mesmo que a amarração final entregue uma obra mais universalista – a ponto do longa-metragem constar na pré-seleção ao Oscar de 2020 em sua categoria. Pensando por esse lado, é uma forma consistente de aliar a homenagem construída com certo apreço estilístico com um produto que traduz de maneira direta e eficiente a grandeza de Humberto Mauro na cinematografia brasileira. Se 2019 se propôs a ser o primeiro ano do fim do mundo no país, a Cinema veio para provar que não adianta só cortar cabeça de cobra e que o passado ainda nos reserva muitas surpresas.

 

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