Democracia em Vertigem | Crítica

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Forma e Conteúdo em Vertigem

Por Vitor Velloso

O impeachment de Dilma Rousseff é um momento político que afetou as bases democráticas brasileiras e fez ressurgir grupos, até então, que esperavam o momento, e o apoio, certo para seu retorno. Não à toa desde então o Brasil vive um momento de trevas, pois às perspectivas são nulas, a economia despenca e a solução encontrada é fazer com que o povo trabalhe até os últimos dias de vida.

Por conta destas derrocadas, diversos filmes vieram comentar sobre a situação do país de 2013 para cá, passando pelo Impeachment em 2016 e fazendo lenta caminhada até Bolsonaro. Construindo vagarosamente a noção estrutural que se tem de uma história política que é capaz de se projetar em qualquer momento da breve Democracia.

Petra realiza o terceiro filme a abordar o tema em um espaço curto de tempo, sucedendo “O processo” de Maria Augusta Ramos e “Excelentíssimos” de Douglas Duarte. “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa (de “Elena“, “Olmo e a Gaivota“) acompanha uma longa espera de seu lançamento, sendo citado como um dos filmes mais esperados do ano. Agora lançado, abrimos o questionamento: O que ainda não foi falado no assunto, que valha um longa? Bom, algumas perspectivas foram pouco trabalhadas, os três projetos são diferentes em produção, abordagem e fim, eles se complementam, mas em nenhum deles o povo é escutado, apenas mostrado. Douglas e Guta não necessitavam dessa mostra, já que a proposta que ambos tinham não cabia tal posicionamento, mas Petra…sim.

O longa irá abordar o sentimento da nação em virtude dos acontecimentos políticos, mas Petra decide assumir a frente da discussão, se projeta na tela, mais uma vez, para expor seus dramas burgueses em frente à ruína nacional. Tenta caracterizar seu sentimento de derrota diante de uma burocracia fálica com um choro de desespero na falta de potência de ação. Resmunga os sonhos e esperanças que alimentou ao longo dos anos e viu escapar da realidade. O exercício de ego imposto aqui, é nocivo à estrutura dramática (hiperbólica e decadente) que vamos observando, já que não acrescenta nada a discussão. Soa uma tentativa de conseguir aval para chorar diante da realidade, ainda que seja uma burguesa filha de pessoas que enriqueceram na ditadura. O exercício de aplicar uma melancolia à um rebote da divisão do Estado que estamos vivendo é um retrocesso gravíssimo. Não se derruba lágrimas invés da luta.

E a postura derrotada não coincide com o pensamento crítico que ela busca transmitir que a acometeu recentemente. Ora, se há algum tipo de olhar, ainda que externo, que seja capaz de analisar o que estamos vivendo, desde o século XIX, não é possível deixar-se iludir por uma natimorta e moribunda democracia, é muita ingenuidade. A utopia só é vivida por quem decide não enxergar.

Ainda que suas problemáticas políticas abafem os méritos, devemos comentá-los. Primeiramente, a manipulação de imagens da Petra sempre foi uma verve particular da diretora, sendo referência neste aspecto no cinema nacional. E aqui não é diferente somos presenteados com algumas imagens de Dilma e Lula com uma força inusitada. A maneira como buscar a contemporaneidade em sua abordagem, rende uns momentos formalmente interessantes, em sua apresentação de dados, informações etc.

Porém, tudo isso é construído em uma base que vai flertar com a nostalgia para desaguar na miséria desiludida burguesa, mas o que importa não são os dramas pessoais de uma classe moralmente falida, mas sim compreender a base ideológica que se fundou para chegarmos no momento atual. Ela chega a ensaiar a reflexão, apontando o primeiro rompimento que iria gerar tudo isso, mas não se aprofunda nas questões centrais, as pessoas. Tratando de cada momento como um bloco heterogêneo de um movimento específico (neste sentido, sua culpabilidade burguesa soa ainda mais tóxica), o que poderia ser compreensível em uma base de estudo mais pragmática diante dos poderes em si, mas que se contradiz ao apontar a individualidade da própria diretora diante da obra, e principalmente, daquela história, com o perdão da palavra, mas a forma aqui é capitalista por excelência. A perspectiva formal abordada aqui, invalida o discurso parcialmente, transformando o que à priori era o manifesto de um povo, em um post de Facebook de “burgueses chateados”.

Nada disso tira os méritos anteriores de Petra, o que a mantém no pódio do Cinema Brasileiro, mas “Democracia em Vertigem” é um tropeço tenebroso. 

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