Dora e Gabriel
Conflitos sociais em um porta-malas
Por Vitor Velloso
Se levarmos em consideração a filmografia de Ugo Giorgetti que assinou a direção de filmes como: “Boleiros 1 e 2”, “Paul Singer, Uma Utopia Militante”, entre muitos outros, seu novo projeto “Dora e Gabriel” é particularmente ambicioso e distinto das demais obras, o que desperta alguma curiosidade imediata no espectador que acompanha os trabalhos do diretor. Porém, a construção claustrofóbica funciona muito mal na dinâmica entre Ary França e Natalia Gonsales, em especial pela sequência de diálogos que está presente na maior parte do tempo de projeção.
A trama que acompanha os dois personagens do título, se inicia no momento em que eles se encontram em um porta-malas de um carro roubado, esse sequestro duplo gera uma série de debates políticos e culturais que vão costurando a narrativa, que se sobrepõe à necessidade de sobrevivência da própria situação. Há uma imposição dos diálogos para expor o racismo e esses conflitos de uma maneira que não é nenhum pouco natural. Fica claro que a intenção de Giorgetti é impedir que haja qualquer desvio dessa temática, porém os diálogos são realmente difíceis de engolir e poucas coisas fazem sentido no fim, pois cada um diz uma coisa, as informações são jogadas a esmo e tudo é muito confuso. Com o problema explícito do roteiro, a representação desse espaço confinado se torna o maior motivo de um profundo tédio que impera após os primeiros minutos de interesse pela situação.
Por mais que as intenções sejam claras e a utilização das poucas informações que temos do mundo “exterior” até procura situar o espectador de uma certa geografia para além do confinamento, as coisas acabam retornando aos diálogos sem sentido que são engatilhados em sequência. “Dora e Gabriel” encontra uma solução curiosa na iniciativa da resolução sem escapes, mas esquece que a própria situação se constrói a partir de necessidades que o longa jamais explora. Em nenhum momento sentimentos o temor pela vida de nossos personagens, pelo contrário, existem dois universos paralelos na película: seu confinamento que se torna, em parte, a própria proteção das repetidas violências do exterior, e o espaço não filmado que mantém a imaginação do público trabalhando nesse meio tempo. O problema é que esse exercício só funciona quando o espectador realmente está interessado na dicotomia, do contrário, tudo perde o propósito e se torna inócuo. E infelizmente é o caso aqui.
Não existe uma construção que gere curiosidade em quem é o “cheiroso”, ou “a criança”, ou qualquer personagem que é meramente citado pelos dois protagonistas, pois no fundo, a obra sempre irá retornar à islamofobia e aos diálogos que resultam em mais discussões políticas sem sentido em meio ao sequestro. É como se a necessidade de “legitimação” não pudesse ser o exercício formal encontrando um conflito social, como é o caso de “Sequestro Relâmpago” (com outros diversos outros problemas), mas sim o inverso, na perspectiva de Dora. E por mais que a ideia não seja totalmente desinteressante, as coisas vão se perdendo em ciclos que abraçam os traumas de seus personagens como verdadeiras muletas, que sustentam uma série de questões dramáticas posteriormente expostas. O próprio final é uma espécie de catarse generalizada dessa fórmula, que acaba entregando uma possível transgressão narrativa como mero dispositivo.
Por fim, “Dora e Gabriel” é mais ambicioso que parece, mas a falta de uma estrutura mais concisa, que compreenda as razões desses conflitos na estrutura social, que não pode ser sintetizada em uma série de diálogos pavorosos, em especial na situação limítrofe que os protagonistas se encontram, ultrapassa o limite da fé no cinema e apenas vai para um certo racionalismo idealizador. Como concepção, possui um grande potencial, como realização, faltou muita coisa, em especial uma falta de dinamismo que joga qualquer tensão lá pra baixo.