Dentro do Meu Peito Mora um Cão

Sejamos som 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o Festival de Cinema de Vitória 2026

Dentro do Meu Peito Mora um Cão

A agonia de não entender compreender a própria angústia, o que nos aflige e tira o sono, o que está pedindo para não ser compreendido, o que não encontra saída fácil. Onde estamos, no momento onde estamos, que não vivendo uma geração calcada na urgência absoluta, onde não ter respostas, em paralelo a essa urgência, é não saber se auto compreender – e isso talvez seja um sintoma particular do nosso tempo. “Dentro do Meu Peito Mora um Cão” é uma obra que se aventura olhar para o interior de seu protagonista e não perceber, à primeira vista, o que estaria travando aquela existência; pra mim, isso se chama coragem. Muitas vezes o mesmo cinema que tentamos domar, não tem um registro de ideia pré-definido, e muitas vezes isso parte do DNA do projeto. Aceitar o não entendimento, e buscar uma cura para algo que nem se compreende é uma baita coragem.

“Dentro do Meu Peito Mora um Cão” é o meu segundo encontro com Gabriel Afonso em dois meses consecutivos, após a ida para a CineOP onde ele exibiu “Ouro de Tolo Remix”. Reencontrá-lo longe do registro experimental do seu outro filme para vê-lo aqui, além de diretor, ator, e trafegando com naturalidade dentro de um naturalismo tal próprio ao cinema brasileiro, é entender que o cinema precisa de mais Afonsos, que sua voz é reverberante para além do cinema tradicional, e de que a projeção de seu futuro é um daqueles chutes fáceis de acertar. Após essa dupla de filmes, e da versatilidade que esses dois projetos demonstram, criamos um adicional de curiosidade para o seu futuro.

Aqui, as emoções são experimentadas e divididas entre Afonso e o espectador. Sua angústia é real, seu corpo cansado é palpável; um jovem que não consegue relaxar. Sinal do nosso tempo, “Dentro do Meu Peito Mora um Cão”, desde o título, aponta para a crise que iremos assistir, e que não pode ser colocada somente na conta de um protagonista. Afonso não trata somente de Josué, somente de seu momento ou somente de sua cidade. Mas tudo está intrinsecamente ligado, e compõe esse quadro com as ferramentas possíveis; Josué vive um desacerto diante de um lugar com base exploratória, mas sua relação com essa realidade está nas entrelinhas do título.

Josué tenta avançar nas ideias que o circulam, tenta se envolver com os novos rumos de seus amigos; ele está ali, mas parece não estar. Enquanto realizador e roteirista, Afonso resolve isso povoando a narrativa de acontecimentos, maiores e menores. Ele tenta fazer parte dos lugares, dos eventos, se esforça para tal, vive aquelas realidades, mas não consegue estar onde deveria o tempo todo. Como no mundo real, Josué vive desconectado das coisas, e sua presença parece reafirmar um sintoma do mundo: a força das coisas tem sido maior do que os indivíduos. Nós somos menores do que nossas ações, somos assolados pelas cobranças sociais, estamos em busca de um lugar no mundo que nos oprime e ao mesmo tempo exige cada vez mais.

“Dentro do Meu Peito Mora um Cão” é um alerta para a hiperinformação, quase um pedido de socorro dentro de um mundo de excessos. Quando tudo ameaça cobrar ainda mais atenção, quando a exigência por resultados emocionais e profissionais nos sugam e quando as demandas nunca serão suficientes às entregas, o modelo de resultado será esse. Josué está cansado e, ao mesmo tempo, não consegue desconectar-se da pressão do mundo; os amigos demandam, a família demanda, o trabalho demanda. A saída é o desligamento, é o mergulho cada vez mais profundo na depressão progressiva, até sermos somente som e fúria. Os latidos, a falta de sono, o horror – o horror é tudo isso, e continuamente as coisas se alimentam. E aumentam, não cessam, não nos deixam desaparecer, embora seja esse o desejo.

Os sintomas estão expostos, e o indivíduo vai perdendo gradativamente sua ampla capacidade. Já não há mais sentido, já não restam muitos estímulos, e escapa também a compreensão dos propósitos. Afonso parece dizer que a única coisa a fazer é submergir ao que nos adoece; se os sons são maiores que nós, que então sejamos som. É quando paramos de brigar contra o inevitável e sentimos que isso é o que nos cabe; o anti-silêncio, a matéria transformada em sensação, o humano se reconectando aos animais e estando de volta á natureza, por mais primitiva que seja. A verdade de cada um.

4Nota do Crítico51

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