Melancolia

A sinestesia da metafísica

Por Fabricio Duque

Assim como o seu diretor Lars von Trier, o filme “Melancolia” já nasce envolto em polêmicas. Uma delas devido a um comentário “nazista” na apresentação do Festival de Cannes deste ano, que baniu o realizador das badaladas exibições no território francês. Muitos comentaristas estão levando isso a expor suas críticas. O que não é relativo à história. Mesmo não tolerando e ou suportando Lars (já que muitas atrizes disseram que nunca mais trabalharão com ele, como Nicole Kidman, de “Dogville” e outras que disseram que nunca mais serão atrizes novamente, como Bjork, em “Dançando no Escuro”), o seu talento é inquestionável. Ele foi um dos responsáveis pelo movimento dinamarquês Dogma 95, que segue regras pela naturalidade do cinema. O diretor possui visão de futuro e de espaço, e fugindo do comum e do óbvio, imprime em suas obras a genialidade da experimentação. Lars usa e abusa de metáforas, as personificando.

A transposição ao concreto cria a experiência sensorial (uma sinestesia), complementada pela excentricidade nata e intrínseca de quem não suaviza um tema importante e politicamente incorreto aos olhos da sociedade. Esta representa um papel extremamente valioso em suas histórias, fornecendo o material bruto da causa e da hipocrisia desconstruída – sem paradigmas, éticas e porquês. O diretor direciona o espectador à percepção destas falhas e rachaduras sociais. Mas a causa do comportamento é apresentada como natural. A maioria dos indivíduos já nasce com o mal. São cruéis e defensivos por natureza. Em seu novo longa-metragem, há exceções a regra. A protagonista não consegue vivenciar o mundo atual sem o sofrimento, que a aliena, apaticamente, e a envolve em um universo próprio, só dela. “A vida na terra é má”, expõe o pessimismo.

A fim de captar a essência contextual, há a necessidade de observância das referências que pululam na tela. O inicio de “Melancolia” apresenta o prólogo explicativo e epifânico (lembrando “Anticristo”, seu filme anterior). Com trilha sonora de “Tristão e Isolda”, de Wagner, as imagens traduzem o abstrato do que se sente na alma. Melancolia não é depressão. É um sentimento que parece em muito, mas há diferenças. A câmera apresenta-se com lentidão editada, como se alguém tivesse dificuldades de andar por estar presa. A textura da imagem apresenta uma pintura expressionista (quase animação – com fotografia saturada ao brilho excessivo). O realismo fantástico cria a magnitude da ação.

Pode-se inferir homenagem a Stanley Kubrick e “2001, uma odisséia no espaço”. A metafísica deixa a imagem acontecer, aprisionando a quem assiste. A próxima parte: Justine. Mostra a tomada área de uma limusine – que passa por ruas desertas e curtas, depois com câmera próxima, lembrando o estilo Dogma 95 revisitado. Vemos nubentes. Justine (Kirsten Dunst, de “Maria Antonieta”) e Michael (Alexander Skarsgård, de “True Blood”, que vive o vampiro Eric). Aparentemente felizes indo à festa de casamento. Atrasados. Infere a “Festa de Família”, de Thomas Vintenberg ao expor segredos familiares. O jantar pós casamento gera discursos agressivos e desabafados. “Aproveitem enquanto dure”, diz-se. A câmera participa como observadora, meio amadora, meio documental. A escolha pelo estilo Dogma é perceptível. O que o difere é a utilização de trilha sonora e diálogos um tanto pretensiosos querendo ser chocantes. Isso o faz clichê. Noivos dançam “La bamba”. Busca o artificialismo do teatro, querendo o convencimento pleno. A hipócrita é mostrada de forma óbvia. As ações e reações são exageradas e passionais dentro de convenções sociais comuns.

As relações humanas são perdidas. Cada vez, indivíduos prendem-se em seus mundos, vivenciando plenamente e sem flexibilidade o individualismo. “Ainda pode andar cambaleando. Pare de sonhar”, diz-se sem esperança. Aos poucos, o embate entre simplicidade e liberdade se mostra. A protagonista tenta ser parte da sociedade. Mas não consegue, porque não faz parte deste universo fútil e desgastante. Isso a angustia e a aprisiona na doença. A parte dois de “Melancolia” é Claire. A irmã. Neste ponto, a metáfora fica mais evidente. O fim do mundo está próximo. Um planeta chamado Melancolia atravessará a Terra. “A tristeza do Melancolia (planeta) matará a todos”, disse. “Parece amigável, mas sem esperança”, complementa. Os seres humanos convivem com esse novo cometa, que aos poucos, atravessa nossas vidas e inclui a apatia.

“Seja feliz se eu ouso”, obriga-se. O sol de Lars ilumina sem queimar. A proteção em algo, mesmo incompreensível, torna-se necessário à sobrevivência diária. A religião, o cinema, o amor pelo filho, tudo precisa ser a catarse de libertação. A magia existe sem entendimento. A própria humanidade se destruíra. A intolerância, poder, pretensão, submissão, incrivelmente, esses sentimentos tem dúbios significados e importâncias. É assim que a obra de Lars é espetacular. O espectador observa no final, totalmente envolto à melancolia, sem conseguir levantar da cadeira, de que todo artificialismo suavizou o que o diretor nos fez engolir goela abaixo. Concluindo, um filme fantástico, que cria a sinestesia da metafísica. Vale muito a pena assistir. Recomendo. Kirsten Dunst, que faz aniversário no mesmo dia dia de Lars (30 de abril) ganhou o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes 2011. As filmagens ocorreram entre 22 de julho e 6 de setembro de 2010. Seu orçamento foi de US$ 7,4 milhões.

Marise Carpenter traça linhas analíticas sobre “Melancolia”. “Aos mistérios que rondam a alma humana e que são insondáveis a nós mesmos só resta tratá-los com poesia e melancolia. É uma forma de complacência e de humildade diante da grandeza da incompetência do ser humano de se libertar de sua mais crua natureza: a barbárie. Não fomos feitos para o amor. Isso vem depois e agora, vem bem depois. Tentamos e tentamos mas no fim não dá certo. A aproximação entre humanos só exige ser (anti)social. Ser humano é estar só em seu próprio mundo e enfrentar o medo de que em algum momento a suposta harmonia do universo se rompa, os planetas se desalinhem, o sol se apague, a gravidade não se agrave mais e tudo se desequilibre e suba. E suma.

A poesia salva porque aplaca a feiúra mas a melancolia surge porque vê que não há solução. Não resolve ser grosseiro assim como também não resolve ser sorridente. Não resolve desagradar assim como também não resolve agradar. Enganamo-nos que seja suficiente raciocinar, inventar e produzir coisas. Nisso é que somos bons. Coisar, para a vida passar rápida e não percebermos o ruído crescentemente aterrador de nosso mundo interior. Um ruído que nos diz como somos pequenos, frágeis, fracos, impotentes e nos defendemos utilizando a única arma que temos: a imaginação.

Melancolia causa a falta de interesse do homem pelo mundo e por tudo que o cerca. Perde-se a capacidade de amar e de se amar. No filme de Lars Von Trier a melancolia é simbolizada por um Planeta. E muito mais… “Melancolia” vai muito além do que é “dito” na tela e na maioria das opiniões particulares aqui expostas, tanto por parte da crítica quanto por parte dos não críticos. Na primeira parte o filme pretende mostrar, através da personagem Justine, no que se transformou o ser humano, vivendo na contemporaneidade uma vida fútil e vazia e quem a isso observar estará sujeito a pagar um preço: o da melancolia (e não da depressão).

Na segunda parte vem mostrar através das personagens de Claire e seu marido o outro lado, o das pessoas que fogem dessa realidade e vivem da ilusão que ofusca. Com a aproximação de Melancolia, um planeta na rota da Terra, o filme liga as duas partes mostrando o significado da melancolia no ser humano: a sua destruição por falta de interesse pelas coisas do Mundo provocando uma ruptura com o mesmo. E muito significativamente o diretor dá nome ao planeta que se aproxima de Melancolia”.

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    Assisti metade e já achei melhor que 90% dos filmes em cartaz, tive que sair do cinema por uma emergência mas deixando as declarações babacas do diretor de lado , parece ser realmente um ótimo filme.

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