Cinderela

Os fragmentos do milênio

Por Vitor Velloso

Amazon Prime Video

A história de “Cinderela” já recebeu mais adaptações que o leitor pode lembrar, mas essa de 2021 tem algo de especial nela. Com a roteirista de “A Escolha Perfeita” na direção, Kay Cannon, e Camila Cabello protagonizando essa maravilha da Beezos Prime que mistura um sonho de startup com a modulação da monarquia como Banco de Desenvolvimento Privado, chega ao público como um musical que pega músicas contemporâneas para jogar no balaio da “clássica” história. Antes de conhecermos a narrativa enfadonha de superação, vale ressaltar que todos os nomes envolvidos estão justamente onde o figurino da indústria manda: Billy Porter, Pierce Brosnan e James Corden interpretam os personagens que Hollywood poderia separar para eles. É tudo tão óbvio que até as músicas, ou pelo menos seus autores, se tornam previsíveis. Ou será que imaginaram diferente de Ed Sheeran cantarolando no baile?

Mas quando o espectador acredita que tudo está ruim, não se preocupe, há como piorar. Os (d)efeitos especiais são de quinta categoria e não conseguem dar esse charme da magia sintética da indústria, travando nas distrações constantes de um rato deformado e mal otimizado que chama atenção toda vez que aparece em tela. As canções são tediosas e a coreografia é desengonçada, sendo incapaz de utilizar o palco cartão postal que, é a adaptação, para, pelo menos, encantar com alguma questão da direção de arte (como o filme de Kenneth Branagh, que não surpreendeu em nada, mas que comparado a este, se torna um monumento visual) ou quem sabe empolgar nas cores. Nada. A direção até procura alguma gracinha jogando a imagem de um lado para o outro com alta velocidade, tentando dinamizar o clichê, mas não foge do padrão e soa como um recorte de “In the Heights” em suas ideias mais “descoladas”.

“Cinderela” é um sintoma do senso comum, um reflexo das investidas do grande mercado em inclusões distintas na falsa noção de representatividade. Não diferente do que a Disney vem fazendo ao longo dos anos, utiliza-se de símbolos da cultura pop com cenas deslocadas que apenas amontoam as cifras para si. É uma retroalimentação que funciona pelo jogo dos “ícones”, com figuras expressivas da grande mídia sendo enquadradas com frequência, que transmite essa falsa sensação de que “as coisas estão mudando”. Billy Porter não será o suficiente para segurar a opinião, já que seu tempo de tela é ínfimo. Corden já se tornou figura carimbada de todo musical norte-americano, como em “A Festa de Formatura”. Pierce Brosnan está cada vez mais decadente e já faz quase uma década que não consegue aparecer em um projeto minimamente decente. E Camila Cabello estreia com pé esquerdo na ficção. Tudo está na perfeita ordem de Hollywood: delírios de startup, empreendedorismo, aristocracia em um bloco distinto da classe explorada (aliás com uma sequência de diálogos forçados vindo da princesa que, em tese, faz uma crítica ao modelo de exploração), os padrões de beleza sendo colocados acima de tudo e todos, e claro, a tentativa de representatividade que adiciona alguns personagens aqui e acolá.

Bom, a Camila Cabello protagoniza, o rei é o James Bond, o príncipe é o Nicholas Galitzine (realmente um aristocrata), mas… bom, no meio da sequência musical, nem todos seguem essa normatividade branca, não?

As críticas violentas não vão ser o suficiente para acabar com o sucesso marketeiro de “Cinderela” que vai continuar surgindo em cada canto da internet sempre que um anúncio puder ser introduzido, mas demonstra que além do discurso pronto, existe um filme tão problemático em si, que dificilmente será possível o entretenimento além de certas expectativas. O subproduto pré-fabricado por anos de experiência musical no século XXI, não é apenas um enlatado ruim, mas um dos piores lançados pela xerox de Los Angeles e os engravatados vão correr para lançar um novo projeto desses, procurando apagar isso da memória e seguir explorando imagem de certos atores e atrizes sem dor de cabeça.

Trailer

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