Caso 137
Que verdade está lá fora?
Por Fabricio Duque
Assistido presencialmente durante o Festival de Cannes 2025
Exibido na mostra competitiva a Palma de Ouro aqui do Festival de Cannes 2025, “Caso 137”, do realizador alemão Dominik Moll, que já dirigiu os icônicos “Lemming”, “O Monge” e “Más Notícias para o Sr. Mars”, apresenta-se como um filme de gênero policial, no melhor estilo dos longas contemporâneos franceses sobre as questões sociais envolvendo as manifestações políticas e a ação direta da polícia em Paris, dezembro de 2018. Mas aqui Dominik escolheu a protocolar burocracia interna (com câmeras e verdades expostas) e a crítica vem pelo processo investigativo desses profissionais da segurança pública que deveriam ser imparciais e não tão envolvidos emocionalmente, extrapolando a raiva ao nível físico. Uma das características do diretor é sua forma de imprimir a reação mais naturalista num coloquialismo real do próprio dia-a-dia.
“Caso 137”, escrito pelo próprio diretor junto de Gilles Marchand, quer se desenvolver como um estudo de caso intimista do micro para assim cutucar a discussão do macro da principal pergunta: “O mundo detesta a polícia?”. Dossiê, fofocas, brechas, evidências e provas, inclusive vídeos do Instagram e das manifestações (ângulo subjetivo que confronta). Tudo é investigado. As cenas estendidas não querem pressa e sim estender a nossa percepção, num que de “Anatomia de uma Queda” só que bem mais Michael Haneke, em “Caché”. É um filme de situações, em que todas as ações são organicamente cotidianas, entre a falta de preparações, a unicidade da precipitação e a música The Final Countdown. .
Sim, tudo aqui em “Caso 137” é em construção in progress. Os detalhes são juntados como peças de um quebra-cabeças para desvendar não só o caso, como entender (e justificar) os porquês dessa violência irracional toda. E que por sinal, “só” por serem policiais, são considerados “heróis”. Todo esse imaginário popular de que os outros que estão errados, que são baderneiros e que vão aos protestos pacíficos para causar o caos na verdade apenas alimentam a própria violência usada e embasada pelos “donos da lei”, que não se importam com “sabonetes de hotel”, por exemplo. Há uma brutalidade internalizada, quase obsessão, que arrogantemente acredita mesmo na força como punição e reforma para “voltar” com os “cidadãos de bem”. Sim, o capitão Nascimento de “Tropa de Elite” repetia o mesmo discurso. Mas será que estamos melhor sem esses funcionários? Será que conseguíamos viver seguros como no livro “Ensaio Sobre a Lucidez”, de José Saramago? Pois é, hipóteses, pensamentos intrusivos e perguntas quase retóricas são e devem servir como questionamentos até para nos manter sãos neste mundo de hoje, que mais parece perdido e já apocalíptico.
“Caso 137” é um filme meticuloso que explora a intrusão do irracional ou do caos no cotidiano banal. A vida de cada personagem é subitamente invadida por forças externas ou internas, criticando as raízes da violência masculina e as falhas do sistema. Dominik usa o artifício de aprofundar a repetição da investigação. Nós somos convidados a participar e a assistir às imagens, até mesmo encontrar pistas (e/ou questionar as atuais). Isso de estender as cenas pode sim nos cansar e soar que o próprio filme se “soltou” demais. Mas quem nos conduz é o profissionalismo metódico da policial da Corregedoria (a IGPN, divisão de Assuntos Internos da polícia francesa, “a polícia da polícia”), interpretada pela atriz Léa Drucker, que se envolve demais e perde a própria razão.
Durante a coletiva pós-filme aqui em Cannes, Léa disse o que achou quando leu o roteiro pela primeira vez: “Trata-se de uma investigação cativante, muito precisa e técnica, que se transforma em uma obsessão para a policial”. Já Dominik questiona: “Como alguém lida com o fato de estar no meio de um fogo cruzado? E com a necessidade de investigar colegas que não fazem segredo de sua animosidade?”. “Caso 137” ainda que ficção mexe numa problematização social bem atual e presente em nosso dia-a-dia. Sim, a maestria do filme é não perder a mão. Tudo aqui age com empatia e humanismo, sem moralismos, sem redenções e tampouco tentar consertar essas falhas de sistema. “Essas tensões me interessaram e, intuitivamente, senti que havia caminhos interessantes para explorar em uma obra de ficção”, finaliza Dominik Moll. Sim, o melhor do filme é não finalizar a investigação, porque ao deixar em aberto, a discussão continua a ser travada na sociedade em busca de um mundo mais correto para todos.




