Elefantes Fantasmas

Elefante na sala!

Por João Lanari Bo

Festival de Veneza 2025

Elefantes Fantasmas

Acredito que o denominador comum do universo não é a harmonia, mas sim o caos, a hostilidade e o assassinato (Werner Herzog)

Elefantes Fantasmas”, de 2025, é o novo documentário de Werner Herzog, no estilo peculiar e instigante que o veterano realizador alemão forjou ao longo dos anos. Estilo que alia contemplação de belas e poéticas imagens com investigação sobre fatos ou personagens insólitos e extraordinários, obsessivos no limite da razão, fora da caixinha, como diz a verve popular.

No caso, o “obsessivo” é o naturalista sul-africano Dr. Steve Boyes, obcecado por anos a fio em descobrir se existe uma espécie de elefantes gigantes, ou “elefantes fantasmas”, ainda desconhecida, vivendo fora do alcance da observação humana no vasto platô central de Angola, o “Planalto do Bié”. Região situada no coração do território angolano, com altitudes variando entre 1.520 e 1.830 metros, é também conhecido como “Torre de Água” ou “Fonte de Vida”, já que se constitui em um imenso reservatório de água e nascente de inúmeros rios africanos.

A descrição geográfica consta no início de “Elefantes Fantasmas”, narrada com precisão pelo próprio Herzog, com inglês suave e sotaque levemente bávaro (segundo ele mesmo). A narração, a propósito, é um dos pontos altos deste e dos documentários anteriores do cineasta, como “Encontros no Fim do Mundo”, de 2007, rodado na Antártica – Herzog lê texto escrito por ele e adiciona sutis comentários, fornecendo uma narração “interpretada” que funciona como moldura do que se passa à frente das câmeras. Com 82 anos, Herzog não foi à África acompanhar a missão de Boyes, mas é como se estivesse lá, presente nas entrelinhas.

A missão revestiu-se, naturalmente, de fundamentação científica. Boyes queria verificar se esses elefantes fugitivos – caso existam – têm alguma relação genética com um elefante enorme em particular, o maior já registrado, que está em exibição no Museu Nacional de História Natural Smithsonian, em Washington D.C., chamado de elefante “Fénykövi”, em homenagem ao caçador que o abateu em 1955. Josef J. Fénykövi era um húngaro que passava férias em sua fazenda em Angola, e caçava por esporte para se vangloriar – mas pelo menos teve o cuidado de doar o “troféu” para a Smithsonian.

Um dos méritos de “Elefantes Fantasmas” é, obviamente, trazer o assunto para uma perspectiva ambientalista contemporânea, que condena a caça predatória e visa evitar a extinção das espécies. E o faz de modo não convencional, como são as produções do tipo “National Geographic” que estamos acostumados: faz com a intuição estética de Herzog, que mescla imagens sublimes – vales e rios, elefantes se banhando filmados com câmera debaixo d’água – com um roteiro antropológico sensível e acurado, detalhando minúcias dos povos originários que habitam a área e integraram a missão de Boyes.

O filme acompanha o naturalista com sua equipe de três mestres rastreadores do povo San/KhoiSan da Namíbia (também com auxílio de outros guias locais e da etnia Luchazi / Nkangala). Além deles, antropólogos e cientistas, inclusive um angolano, viajaram uma semana da Namíbia até o Bié, em condições difíceis, até chegarem à região onde vivem os elefantes supostamente descendentes de “Henry” (esta foi a alcunha que se popularizou para o elefante que está em Washington). Os rastreadores são outro ponto forte do documentário – eles encaram seu ofício como uma espécie de desígnio espiritual dos ancestrais.

Segundo um dos antropólogos, os rastreadores leem as pegadas e sinais na vegetação “como se estivessem lendo um jornal”. Para acessar a região, a equipe de Boyes teve uma audiência com Regedor Kaketche, Rei do povo Nkangala, que deu a benção para o projeto e disse:

Eles não são elefantes de verdade, mas seres humanos.

E ilustrou a afirmação contando a história de um caçador de elefantes, que foi até o rio Quembo e se deparou com uma manada:

Então, atrás daqueles elefantes, havia outro elefante solitário. Quando chegou ao rio, tirou sua roupa — pele de elefante — e começou a se banhar. Agora era um ser humano. Era uma linda mulher. O caçador desceu e destruiu a pele do elefante [para que a mulher não pudesse voltar à forma anterior]. ‘Não me mate’, ela implorou. ‘De agora em diante, serei sua esposa.’ O caçador levou a mulher para sua aldeia.

Elefantes Fantasmas”, em última análise, pode ser visto como uma atualização do mito narrado pelo Rei Kaketche.

5Nota do Crítico51

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