A Mulher Invisível

O ideal norte-americano

Por Vitor Velloso

Cinema Virtual

Saindo do forno no medida que o mercado internacional gosta, “A Mulher Invisível” tem tudo que um bom produto norte-americano feito para venda de sonhos e ideais deveria ter. Homem sarado sem camisa, uma história absurda, momentos românticos, a clássica relação dinheiro versus felicidade, neoliberalismo enfiado em cada diálogo e claro… a superação.

Claudia Myers não se esforça para transformar toda a parafernalha industrial em algo minimamente consumível, apenas reproduz todos os clichês e arquétipos possíveis dentro da estrutura manjada que vai se apoderando do filme. Enquanto vemos lutas assombrosamente mal coreografadas, o Alan Ritchson parece estar passando mal ao falar cada uma das linhas, não apenas pela sua já notória falta de habilidade interpretativa, mas por um roteiro que agride constantemente o espectador. Iniciando já com furos crassos de roteiro, como o primeiro retorno ao quarto, imediatamente após descobrir que foi esquecida e tudo está empacotado.

Nada aqui se encaixa. Nem precisa. A bagunça é uma manipulação recorrente industrial, que visa o óbvio atingir algum sentimento específico de algum espectador desavisado, em algum cinema do mundo. Enquanto acumula “Alguns”, o filme vai se perdendo, torna-se insuportável, tedioso e cada vez mais insiste em violentar os olhos de quem se pretende assistir. Não à toa, o projeto parece atirar para todos os lados, em determinado ponto parece estar se construindo um drama onde as questões da “A Mulher Invisível”, que dá título ao filme, forma o eixo da obra. Em outro momento, a coisa escoa pra comédia, tentando arrancar algum riso. Em seguida, segue-se uma trama adolescente onde no topo do telhado com uma lua amarela do tamanho de uma super-nova, enquanto um beijo romântico surge na tela. Inclusive, cabe ressaltar que amarelo é uma constante no filme, toda luz, em todo lugar, tem um tom amarelo.

Aí se não bastasse essa miscelânea. Um Frankenstein de clichês e infelizes convenções cinematográficas. Há um desenho de superação que se inicia por volta de 30 minutos de filme, é esquecido, retorna no fim, com a máxima do “você deve olhar para mim, para conseguir vencer alguma coisa”. E dá a derrapada final com um discurso semi religioso, beirando a auto-ajuda, onde ela enxerga a verdade, que devemos perdoar uns aos outros, por erros passados. Onde a questão de não ser enxergada, em parte, era culpa sua também. “O Mundo Não Cabe nos Seus Olhos” gravado em estúdio, com músculos, suadeira, lua amarela e gente invisível. Tão brega quanto, tão canhestro quanto. A comparação fica a cargo de mais uma convenção, agora a da crítica, que pode/deve se pautar de comparações para que se construa imaginário e dialética da escrita.

Enquanto o espectador se pergunta porque a tortura não tem fim, o longa caminha para seu desfecho que abraça tudo aquilo que Hollywood tem de mais tóxico em sua venda da padronagem da vida. Uma ideia de que individualmente, nossas ações são capazes de “mudar o mundo”. Ora, não é conveniente para grupos absolutamente detentores da elite do capital financeiro, intelectual etc. divagar acerca do quão é importante uma auto reflexão das próprias tomadas de atitudes e como podemos mudar nossas relações interpessoais? Isso é explícito na atitude da protagonista de se recusar a ir em locais de grande aglomeração (inteligente da parte dela, evitava a Covid-19 antes mesmo de conhecê-la), com explicação pífia no filme, mas a própria ideia da solitude enquanto movimento máximo do cinema, que utiliza essa união, como ponto que agrega à ideia de vida boa, é a venda compulsória de um estilo de vida.

Os norte-americanos gostam de comprar casa pronta, tudo pronto. Hollywood vende mais que isso, vende um sonho, um padrão a ser seguido e “A Mulher Invisível” é contaminado por tudo ao passo que não consegue nem estruturar a própria visão da narrativa enquanto filme em si. A montagem é uma bagunça. Nada faz sentido. Tudo é amarelo. Há violência implícita em cada atitude do Shawn. E enquanto isso, da quarentena, o pobre crítico que escreve, sente-se lisonjeado por estar podendo divagar sobre tantos filmes decadentes que possuem e/ou já possuíram espaço no mercado de exibição brasileiro. Obrigado. Nada melhor que um hino americano, músculo e uma história brega para encerrar um dia.

Trailer

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