Uma Noite Sem Lua

Tradição e transgressão

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Tiradentes 2021

Figurando na mostra Vertentes da Criação, “Uma noite sem lua” de castiel vitorino brasileiro (que carrega os créditos em quase tudo) é um curta-metragem que se encaixa na proposta temática da atual edição da Mostra e surge como uma produção que busca vigor na linguagem diante de seu manifesto.

Existe aqui um prognóstico dessa forma cinematográfica (cinema-manifesto), algo que se tornou uma prática do cinema factualmente independente brasileiro, a necessidade de debater os corpos enquanto força poética e política, sempre caminhando em oposição ao conservadorismo. Neste sentido, o filme investe esforços para criar uma narrativa em torno da voz em off e de suas imagens que são a suspensão desse manifesto, ora de maneira mimética, ora como provocação de uma possível dialética entre texto x imagem. O projeto acaba funcionando como uma cisão formal, entre uma frente que une o pictórico em comunhão com a discussão política dos corpos, em especial, travestis, sem desviar à gêneros e raças. Levando consigo a ancestralidade e o poder ritualístico que dissolve a tacanhice dos reacionários.

Contudo, existe uma questão quase programática das obras de manifesto nos últimos anos do cinema brasileiro contemporâneo, em termos de forma, que seguem uma linha similar criando uma base consensual de discurso político através da linguagem, o que reforça a proposição de findar uma progressão dessa luta a partir da forma em si. E por mais que “Uma noite sem lua” possua uma construção cirúrgica em bases ancestrais e um discurso potente que extrapola a tela, acaba formalizando essa unidade estilística que assimila pouco e parece dar continuidade, apenas.

castiel vitorino brasileiro realiza uma projeto quase de guerrilha, possui méritos visíveis e mantém um aguardo para produções futuras. Mas aqui parece estar tentando encontrar a própria linguagem e acaba projetando um modelo que vêm saturando as produções nacionais.

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