Troco em Dobro

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Por Vitor Velloso

Netflix

Peter Berg dedicou parte de sua carreira ao retrato do nacionalismo norte-americano, por vezes um ufanismo disfarçado de monumento crítico às estruturas morais (“O Dia do Atentado”), mas sempre em favor de como os Estados Unidos da América é a argamassa do idealismo cristão e dessa marcha de bandeiras com glória e cristo na mesma posição. Contudo, se a trajetória possui filmes que detém o entretenimento como verve primitiva de primeira ordem, “Troco em Dobro” falha em cada etapa de sua projeção.

O longa exibido pela Netflix é um produto cauteloso em sua abordagem, abre com a Justiça tacanha feita nos próprios punhos, como uma revolta ao que rege o Sistema e nos introduz ao protagonista que nos guiará pelo antro do reacionarismo cinematográfico. De maneira calculada e visando cifras, Post Malone faz uma breve aparição, marcante como sua obra e some aos socos e pontapés de Mark Wahlberg. Pelo menos dá pra colocar o nome dele no “pôster”, até o rosto dele divulgaram. O filme não mira nada além de uma espetacularização da violência inerente à sociedade norte-americana através de suas representações no cinema dos dólares à rodo. Se ao menos pudéssemos nos divertir com “Troco em Dobro” o barato ia ser outro, mas Peter Berg parece vir em uma decrescente aguda, não que sua carreira possua grandes momentos, porém nem o entretenimento fajuto ele consegue alcançar ultimamente.

Seu projeto de aliciamento imediatista com a Netflix cai em um limbo dos “buddymovies” e dos mais baratos longas de bang-bang, não à toa, possui uma pretensão de franquia, aparentemente com data marcada. O negócio é montar pilhas de cliques para a “gigante do streaming”, umas cifras de quebra e ampliar a visão de uma Justiça que não pode ser compreendida pelas instituições, “contaminadas” com a burocracia do Sistema. O projeto neoliberal se vê bem representado pelo tramite reacionário com a ideia da violência em constante espetacularização por Peter Berg, um veemente porta-voz.

“Troco em Dobro” nos remete aos piores momentos de “22 Milhas” só que modificado por uma comédia embebida de reacionarismo. O barato fica por conta da “química” entre os dois protagonistas, ou melhor, os dois personagens, que também não funciona. Peter Berg assume seu caráter centrista na abordagem da linguagem e narrativa, não foge o dever de representar a obra de seu país, pelo contrário, tenta elevar parte dessa filmografia como um fardo. Seus filmes tentam transar diretamente junto a moral cristã que permeia todo o imaginário do ufanismo reativo. A Bidenland e seus furiosos democratas negacionistas criam com seu próprio imaginário, curiosas figuras para o cinema hollywoodiano. O policial anti-sistema, que luta em prol da moral e da honra do próprio sistema, os terroristas que devem ser caçados pelo cidadão de bem ou o cidadão com honra manchada, por ter feito aquilo que “ninguém tem coragem de fazer”. É um barato tão fajuto que une os filmes de Berg, que o espectador mais desatento se impressiona com as pataquadas da própria narrativa.

Um punhado de cenas que não constroem o drama de seus protagonista em nenhum direção, mas concebe uma risada. Um tiroteio previsível, enquadramentos grandiosos, diálogos expositivos, uma bagunça na montagem, um frenesi de imagens que vai sabotando a experiência etc. São tantas as falhas de Berg em conduzir seus longas para o encaminhamento dessa espécie de legado que acredita existir na cultura norte-americana, que os brevíssimos momentos que um dia divertiu em sua carreira acabam sendo abandonados para a pior memória dos recentes trabalhos.

Peter Berg está longe de ser um diretor marcante, mas vinha caminhando com os idealismos dos conservadores de câmera na mão. Em “Troco em Dobro” transforma parte desse esforço reacionário em tentativas fálicas de manter uma unidade de comédia, comércio e tiroteios. Toda essa equação se perde em seu próprio jogo, no constantemente tenebroso Wahlberg e no pior trabalho de Winston Duke. Por fim, o espectador que não se render à vergonha ou Morfeu, pode buscar a diversão aqui, mas seu esforço não renderá grandes frutos e a frustração toma conta.

Consigo imaginar Berg com seu cartaz, à frente da democracia norte-americana, em nome da moral. Berg Confidential é o sonho de Hollywood, será que Clint irá filmar?

Trailer

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