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Trem-Bala

Tapas e beijos: um pré-molde contemporâneo

Por Ciro Araujo

Trem-Bala

Entre as vertentes contemporâneas do cinema de ação, o nome de David Leitch surge como sugestão de uma sequência norte-americana. “Trem-Bala” é exatamente o expoente que explica a posição conquistada pelo cineasta. Claro, não é necessariamente um simulacro de qualidade, mas serve como face da tendência moderna de linguagem que mistura um potencial de cinema de atração e toda a velocidade necessária em filmes atuais. E óbvio, a produção globalizada, que enfrenta o crescimento constante de uma multifaceta culturalmente cada vez mais sensível – não esquecendo dos prováveis abatimentos de impostos e taxas.

David Leitch é um caso curioso no universo não tão meritocrático de Hollywood: de dublê, virou codiretor não creditado em “John Wick” com Chad Stahelski (outro ex-dublê) e logo depois partiu para fazer seus filmes-solos. Fez anos depois “Atômica” e foi capturado pelos estúdios de super-heróis na sequência de “Deadpool”. Todos reportam um grafismo da imagem de forma explícita, tanto na violência quanto na ironia deixada a partir dos personagens. A luta, uma representação de extravasamento físico, é tratada com tamanha seriedade e peso, enquanto seus momentos de paz na realidade possuem o caótico tom e velocidade com piadas e ironias. Essa estrutura toda pré-montada, como parte sintomática da indústria é escrachada cada vez mais na nova obra de Leitch.

“Trem-Bala” é assim, uma obra feita sob um pré-molde, aproveitando-se de pontualidades, como personagens carismáticos. Elogios a Aaron Taylor-Johnson e Brian Tyree Henry serão comuns, claro, pois ambos interpretam duas fáceis atuações: gêmeos que se completam e alfinetam um ao outro. O termo “fácil” se dá como uma reação de neutralidade para como ambos são apenas peças dentro do quebra-cabeças que o texto do longa de ação promete ser, marionetes engraçadas e cheios de carisma. Entre vai e vens descarados, que expõem a bagunça proposital muito à lá Agatha Christie, o filme recria o cosmo de complexidade para reconectar todos os agentes – neste caso, personagens, mercenários. Esse trabalho completo performa uma fraqueza na ligação que os roteiristas parecem encontrar em um projeto apenas natimorto. As reviravoltas fazem parte do cerne, da engrenagem, que por consequência fazem os próprios atores realmente se comunicarem um com o outro. Como ainda composição dentro da realidade criada, o arquétipo do gênero “filme sobre trem” é aplicado. São incontáveis as produções com o transporte como espécie de dispositivo para a trama, ainda mais nesse universo asiático exótico que Hollywood cria. A escritora britânica mencionada que o diga.

Dentro da teoria de “pré-molde” – que essa fique realmente como objeto central dentro do estudo do filme de Leitch –Brad Pitt assimila também seu papel humorista. Talvez seja sua crise de meia idade se expondo, mas cada vez mais sua raiz cômica se solta. Desde antes, desde sua participação em obras dos irmãos Coen, as origens são anteriores; mas é agora, justamente em uma década que está mais maduro e paralelamente essa linguagem cinematográfica tornou-se rápida, veiculada à seleções de clipes no YouTube engraçadas, que Pitt se solta totalmente à imagem de um brutamontes que pode parecer fraco e um excelente senso de humor. Em suas produções anteriores, um homem machão, que por mais engraçado que fosse, estava ali para levar poucas. Aqui, talvez seja apenas um delírio, mas o toque inspira Jackie Chan, onde a violência também o atinge, mesmo que esteja desferindo alguns pares de socos. Entre esses tapas e beijos dirigidos, parece que Hollywood gostou do homem que chora e que nem sempre pode tudo, desde que consiga em seu final. É carismático. E veja, se fosse (é claro que é, mas para seguir o tom irônico no texto) permitido chamar o universo Marvel de cinema, a comparação mais precisa seria a de Peter Quill, interpretado por Chris Pratt.

O trabalho de imagem de reformulação de Chris foi excepcional e ideal para a popularidade do personagem montado pela Disney. O corpo é forte, mas os músculos não pulam na tela; As pancadas são duras, o personagem até sangra; Mas ele está ali, sempre ganhando as lutas (sérias), enquanto realiza suas gags, tanto visuais como sonoras. Aplica-se também para Brad Pitt. E que querendo ou não, todas voltam exatamente para o ponto de partida: Hong Kong.

Durante essa espécie de devaneio generalizado sobre a indústria da porrada contemporânea, é possível enxergar o avanço de personagens, que move essa obra de David Leitch. As coreografias das lutas realmente fazem parte do procedimento padrão dos poucos que ainda dão valor de mostrar um pouco além do mais do mesmo na terra do Tio Sam. Cortes, por mais que rápidos, ainda são capazes de mostrar esse poder físico eminente dentro de um filme de ação, que afinal, é o que “Trem-Bala” é. A sugestão que fica para Leitch seria a de seguir o seu conterrâneo Chad, do vizinho estrelado por Keanu Reeves. Neste, cada vez mais a estilização o persegue, de forma que toda a velocidade é acompanhada pelo absurdo físico cinematográfico, aproveitando-se de qualquer que seja essa plasticidade encontrada para movimentar a violência mais gráfica possível. Talvez assim saia dessa teoria de pré-molde que a indústria alcançou após ver resultados positivos em alguns outros exemplos.

1 Nota do Crítico 5 1

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