Testemunha Invisível

Remake ao Pé da Letra

Por Adriano Monteiro

Há uma tendência do cinema contemporâneo aos polêmicos remakes. Obras que nascem a partir da refilmagem de uma obra anterior, a depender dos objetivos e interesses de cada realizador. São casos recentes a infinita gama de live-action dos desenhos mais célebres da Disney dos anos 1990, como “Rei Leão” e “A Bela e A Fera”, assim como o retorno ao clássico do terror de Dario Argento, “Suspiria”, no ano passado, por Lucas Guadagnino. Ambos os casos se originam na intenção de revisitar clássicos do cinema e trazer outra abordagem a longas, considerados datados em técnica e ideologia aos dias hoje. Embora, respondam também a uma lógica mercadológica. O caso aqui em questão é explorar a real necessidade de certos longas serem refilmados. Filmes como o “Psicose”, de Gus Van Sant, deveriam ser proibidos pela heresia de rodar plano a plano um cânone do cinema mundial.

“Testemunha Invisível“, do cineasta italiano Stefano Mordini, é um ponto fora da curva. Ele não é só um remake, no sentido mais literário da palavra, mas uma cópia do longa espanhol, de Oriol Paulo, “Um Contratempo”, de 2017 (disponível na plataforma de streaming Netflix). Aqui temos uma célebre refilmagem, que não demorou nem dois anos para ser realizada. O diretor italiano não precisou viajar muito no tempo para escolher a sua base de apoio. O resultado é uma obra, que não propõe algo novo, nem ao seu antepassado, nem ao gênero do suspense. O que levanta a seguinte interrogação: por que levantar fundos, equipe e elenco estelar em nome de uma refilmagem, que não atualiza, não corrige e não oferece um diferencial ao espectador em contraponto ao outro?

Não cabe aqui debater a importância de um filme, afinal, todos as obras têm razão e direito de existirem. Resta elucidarmos o papel do cinema na formação de público e a ética da projeção de ideias para esse espectador. A primeira lição deixada por “Testemunha Invisível” é a honestidade e a responsabilidade que um longa deveria ter com quem assiste. No entanto, é papel da crítica analisar o filme como filme, em como ele funciona tecnicamente e emocionalmente. E como a obra de Stefano Mordini é a mesma de Oriol Paulo, resta escolhermos em que idioma gostaríamos de assistir, espanhol ou italiano, a história de um bem-sucedido empreendedor acusado de assassinato após encontrar sua amante morta no quarto de um hotel. Com a ajuda de uma renomada advogada, ambos vão entender o que de fato aconteceu aquela noite, para então inocentá-lo de todas as suspeitas.

O recurso utilizado pelo filme é o do suspense, com muitos pontos de virada durante a projeção, semelhante ao recente “Entre Facas e Segredos”, de Rian Johnson. A primeira vista temos uma narrativa contada pelo ponto de vista unilateral do acusado Adriano Dorea, daquilo que presenciou. Os planos são montados pela narração e a história flui pelos detalhes deixados por cada relato. A brilhante advogada, uma preparadora de testemunhas, disseca cada mínimo detalhe do que ouve e ganha a confiança de seu cliente para soltar todas as pontas deixadas para trás. O resultado de “Testemunha Invisível” é um delicioso jogo de manipulação com o público, com tudo que o gênero pode proporcionar. O mistério é muito bem traçado pelo roteiro capaz de responder todas as perguntas, ainda que não necessário.

Para amantes de Agatha Christie, “Testemunha Invisível” vai agradar, por ser fiel aos grandes thrillers, deixando o papel do detetive com quem assiste. O que incomoda é a psicologia mal elaborada, na tentativa de incutir uma moral cristã no protagonista, encenado por Ricardo Scarmacio da saga “John Wick”. O sentimento de culpa é rasteiro, artificial e não convence. O que resta é um personagem sem muita profundidade, de expressão única até o fim, que claramente entedia. Mais carismática é a amante Laura, interpretada por Mirian Leone, em uma típica femme fatale, do cinema noir norte-americano. Em clara alusão ao ideal datado do homem corrompido pela sedução feminina. Já a trilha sonora não muito original de Fabio Barovero sustenta o suspense carregado na montagem com muitos fades, flashbacks e alguns match cuts de gosto duvidável.

Em palavras finais, a proposta  de reconstruir um filme já feito é estranha por si só. Não coube ao longa italiano inovar ou acrescentar ao que já foi feito. É importante salientar a pouca contribuição feita a uma história até que interessante. A cinematografia criminal, de suspense e mistério é natural como o próprio cinema, pelo seu poder de manipulação e controle narrativo, que só o artifício do grande ecrã é capaz de proporcionar. O problema é entregar tal poder a realizadores de fraco armamento criativo, que se escoram em artimanhas alheias para vender algo já contado e, diga-se de passagem, muito melhor.

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