Suspiros atmosféricos

Por Fabricio Duque


Há quem acredite que nunca se deve refazer um filme antigo já considerado clássico. Só que se analisarmos mais profundamente, então nós poderemos chegar à conclusão que, na verdade, remake puro e totalmente fidedigno não existe, visto que sempre haverá uma visão do novo diretor, que pode alterar o rumo da trama (em certos casos drasticamente), como é o caso da obra em questão aqui, “Suspiria”.

Dirigido inicialmente pelo mestre do visceral terror psicológico (mais especificamente no gênero horror giallo, uma mescla de suspense com policial), o italiano-americano Dario Argento, “Suspiria” (um de seus primeiros filmes, de “Inferno” e seu último “Drácula 3D”, de 2012) agora re-acontece pelas mãos de outro italiano também já americanizado, Luca Guadagnino, mundialmente famoso por “Me Chame Pelo Seu Nome”, que depois da exibição no Festival de Cannes 2017 chegou a ser indicado às categorias principais do Oscar.

Sim, o projeto, exibido no Festival de Veneza de 2018, precisou de muita responsabilidade, e inclusive com a produção associada de Dario Argento, que ajudou na realização. O roteiro daqui busca uma reconstrução narrativa. Digamos que é apenas livremente baseado (respeitando a premissa original e ou a presença da atriz Jessica Harper). A “adaptação” busca trazer um viés mais político em uma metáfora social do mal que cresce no mundo e que retroalimenta os seres humanos. Mais animalescos que racionais. E talvez por isso, explique-se que não seja propriamente uma refilmagem.

Este “Suspiria” (de duas horas e trinta e dois minutos de duração) transforma a fabular estética visual, com suas cores ultravivas de um neon burlesco (e barrocamente modernizado – de um gótico Art Nouveau), e de cenários mais teatrais (com suas escadas e um ouro quase purpurina) para uma experiência mais realista, de espontaneidade coloquial e de apatia colorada (mais soturno à moda de “Amantes Eternos”, de Jim Jarmusch). E com a inserção de músicas do melancólico-depressivo cantor Thom Yorke, do grupo Radiohead, como por exemplo, “Suspirius”.

Mas o tom sensorial-atmosférico-espectral é preservado, com mais instantes silenciosos e com menos ruídos gritantes e fantasmagóricos (incômodos audíveis que almejam potencializar a sensação de medo iminente). Assim, o público é aproximado e envolvido a uma presença de medo real, de muros separados em uma Berlim de 1977 (mesmo ano do filme anterior) e de protestos utópicos com o Baader-Meinhof, a Fração do Exército Vermelho, fundada em 1970.

Susie Bannion (Dakota Johnson), uma jovem bailarina americana, vai para a prestigiada Markos Tanz Company, em Berlim. Ela chega assim que Patricia (Chloë Grace Moretz) desaparece misteriosamente. Tendo um progresso extraordinário, com a orientação de Madame Blanc (Tilda Swinton), Susie acaba fazendo amizade com outra dançarina, Sara (Mia Goth), que compartilha com ela todas suas suspeitas obscuras e ameaçadoras.

Outro sim às perguntas imaginárias dos leitores vertenteiros: é inevitável a não comparação aos dois filmes, ainda que muitos prefiram a análise sem interferências. Só que chega a ser impossível não importar e referenciar o que foi usado e ou abordado no passado. Era também uma época de efervescência criativa. Cada um bebia nas ideias de cada um. Havia uma pululante liberdade de construir histórias.

“Suspiria”, que é o nome da estação de metrô em Berlim em que a Escola de Dança Tanz reside, traz também outro elemento definidor: ter sido realizado nos anos finais da década de setenta, em um mundo em mutação apática versus revolucionária, por um diretor de gênero, estético, excêntrico, estranho e infinitamente à frente de seu tempo. Nós estamos falando do mesmo ano da primeira parte da saga “Star Wars – Guerra nas Estrelas”, de George Lucas, ter estreado nos cinemas.

Sim, mais um sim (talvez esta seja uma análise crítica de interrupções do sim), inevitavelmente e sem questionamentos, o mundo mudou. Apesar desta obra escalar Tilda Swinton (a atriz mais flexível e independente do cinema – ela chegou a trabalhar com o diretor britânico Derek Jarman), o filme explica-se mesmo pela escolha da protagonista Dakota Johnson, de outra saga pornô-soft “50 Tons de Cinza”, que aqui tenta se entregar finalmente à nudez e à vingança. E pela multifacetada atriz Chloe Grace Moretz (de “Kick-ass”).

Se no anterior, a condução procurava transpassar uma insinuação metafísica e uma projeção de um mal que espreita e ronda (cuja sensação talvez tenha sido inspiração ao diretor David Lynch criar “Twin Peaks”), neste, a sutileza é substituída por recorrentes, óbvias, urgentes, afobadas e mastigáveis diretrizes narrativas, ainda que se tente uma viagem de instantes fragmentados em cortes rápidos e por uma epifania do “instinto que encontra a alma”. Do existencial ao sobrenatural.

“Suspiria” é dividido em seis atos e um epílogo. É um filme filosófico sobre o “renascimento” e o “reabrir” do ser humano pela dança contemporânea. A possessão das “bruxas” (que se confraternizam no Bar Paris da Rua Kant 152), que pode vir pela luz, pela sombra, pelos sonhos, pelas mãos, reverbera delírios, desilusões, escuridão, lágrimas e suspiros. De três mães-demônios. “Religião é assim: passar ilusões, elas acreditam que são bruxas”, diz-se com ceticismo, entre paralelos com o nazismo e seus códigos e energias vitais conectadas.

Mas para que todas as novas conduções possam ser resolvidas e muito bem explicadas, o diretor passa a conduzir seu público por uma apelativa, simplista e quase preguiçosa dança estética, que, perdida no próprio ninho que construiu, embarca nos múltiplos e esperados clichês, como a câmera lenta em uma caminhada na neve.

E ou na amadora cena final de adoração-transe em um simétrico ritual (que poderia ser comparada a um filme de Pasolini, mas que pela pressa afobada tudo é transbordado). E ou na tétrica maquiagem (tosca é a palavra certa), que lembra a de “Mad Max”. Cada vez o filme se afasta mais da sutileza, surtando no mais bobo sentido da palavra.

“Suspiria” é um filme de muitos (de abordagens sociais à diversidade de gênero e identidade sexual), talvez por causa da cinefilia apaixonada de Luca Guadagnino, que cega não consegue encontrar a razão. E ou pela declaração de Quentin Tarantino: “É um tributo à experiência emocional que o diretor teve ao assistir ao filme”. Pois é, alguns dirão ”Eu avisei”!

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