Terremoto

Não Quero Saber do Lucro

Por Jorge Cruz

Terremoto” é uma tentativa do cinema norueguês de criar uma espécie de franquia de filmes-catástrofe, iniciado com “A Onda” (2015). Dessa vez, o protagonista Kristian Eikjord (Kristoffer Joner), após ajudar a salvar milhares de vidas em um terrível tsunami, precisa conviver novamente com a descrença sobre uma tragédia anunciada. Em paralelo, ele tenta manter uma relação saudável com a filha Julia (Edith Haagenrud-Sande), a despeito de sua separação de Idun (Ane Dahl Torp).

O longa-metragem tenta ao extremo se parecer com a forma norte-americana de abordagem do gênero. Uma camada bem fina de drama familiar, mantendo na trilha sonora e no clima de “vai dar problema” a tensão em alta. Todavia, entrega para o espectador a catarse visual de forma tão econômica, que nos questionamos os motivos pelos quais tantas oportunidades de desenvolver o drama da obra são escanteadas. Não se enganem, “Terremoto” é quase um folhetim do pai que se sente culpado por, aparentemente, destruir o modelo de família perfeita. Joner é um ator capaz de trazer peso na sua performance, mas a condução de John Andreas Andersen – em seu segundo longa-metragem na função – amarra essa possibilidade.

Terremoto” se desenvolve com a mesma lerdeza com a qual as autoridades brasileiras lidariam com um problema iminente como a base narrativa do filme. Com isso, trocamos o tal desenvolvimento do melodrama já citado por uma extensão dramática injustificável e modorrenta. A todo momento insistindo em criar a tensão para o ato final impactante. Não há na relação entre pai e filha (nem entre os antigos parceiros) sintonia ou harmonia, que pudesse transformar a jornada da obra tão prazerosa quanto os poucos minutos bem montados com efeitos visuais vistosos. Usa a cansada premissa de um desastre natural iminente, risco que gerava pânico na época de “O Dia Depois de Amanhã” (2004) e que em nossa semi-distopia do dia-a-dia já não enche mais os olhos. No caso, nos ambienta em uma zona da Noruega considerada a área sísmica mais ativa da parte norte da Europa.

Ao exagerar nessa criação emulativa do que Hollywood entende como filme-catástrofe, o longa-metragem não consegue desenvolver potencialidades latentes. É quase como se o sucesso de “A Onda” subisse a cabeça dos realizadores, que, com essa carta na manga, pudessem organizar um lançamento maior, internacionalizando a obra. Esqueceram que envernizar o produto com um excesso de universalismo tornaria o filme tão genérico que não faz muito sentido para o espectador-médio ignorar os novos de Dwayne “The Rock” Johnson e Mark Wahlberg. “Terremoto” é mais do mesmo, mudando apenas o idioma e sendo ainda mais econômico na ação por não conseguir chegar perto do orçamento daquele que quer copiar.

Vivemos um momento fundamental para o cinema europeu. Se na cobertura do Festival de Berlim foi lembrada da gentrificação da mostra, bem como do abandono estético tão comum às obras fora do eixo, “Terremoto” não se coloca muito atrás. Roar Uthaug, diretor de “A Onda”, foi levado para os Estados Unidos, ficando responsável pelo reboot de Lara Croft em “Tomb Raider: A Origem” (2018). Entender seu próprio cinema como trampolim, tentando adivinhar o que o público quer ver nas plataformas de streaming, poderá trazer consequências mais catastróficas para o audiovisual periférico do que o mote do longa-metragem a ser lançado no Brasil em março de 2020. Se há algo que emociona é o fato de, mesmo não sendo de um país de tradição no cinema de ação, não nos entregar um filme com o CGI constrangedor dos lançamentos com o selo “novela bíblica” de qualidade da Record TV. Menos mal, estamos diante de uma produção visualmente agradável, se limitando a ser incipiente tanto na proposta de drama familiar quanto na destruição em massa Osla, a capital norueguesa.

A forma como a obra vem sendo vendida no Brasil é um dos pontos positivos, uma vez que projeta o espectador a uma questão sob a qual não tem controle: um desastre natural de grandes proporções. Toda a visualidade tida como chamariz para o longa-metragem, decerto, não se concretiza. Ou seja, “Terremoto” é uma produção que tenta ser até mesmo um filme-evento, prometendo muito e entregando alguns minutos de quase nada. Com tanta emulação, fica a impressão de que há apenas dinheiro jogado fora – mas acreditamos que a Noruega tem o suficiente para se divertir de vez em quando.

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