Surdina

Fosca Decadência

Por Jorge Cruz

Mostra de São Paulo 2019

Rodrigo Eiras é um produtor português workaholic, visto que consta em quase cem produções em menos de vinte anos de carreira. É a quinta participação dele na Mostra São Paulo de Cinema, sendo a primeira em 2007. Em “Surdina” ele conta com um nome de peso na equipe, daqueles capaz de fazer um projeto alçar voos bem mais altos do que suas asas frágeis parece suportar. Trata-se de um dos melhores escritores da atualidade: Valter Hugo Mãe. Com estilo original de prestigiar as letras minúsculas em uma filosofia igualitária em relação às letras, o autor entrega romances enxutos, com tramas poderosas, reveladoras e de temáticas fortes.

Já o roteiro elaborado ao lado do próprio Eiras se finca em uma representação de Portugal consolidada no país porém pouco discutida em sua ex-colônia. A obra tenta chamar a atenção para a melancolia de lugares como a freguesia de São Cristóvão, vilarejo à beira da extinção. Decerto que lá nunca foi um local de grande densidade demográfica. Só que sua população, que beirou os dois mil habitantes em 1960, foi reduzida a pouco mais de 500 em 2010. Um fenômeno muito comum na Europa, principalmente em Portugal.

A abordagem a partir dessa premissa se revela promissora. Equilibra a tristeza do protagonista Isaque (António Durães, no elenco de “Caminhos Magnétykos”, exibido na Mostra São Paulo de 2018) com o bom-humor proveniente da acidez dos outros personagens. Parece que por ali todo mundo passa o dia falando mal uns dos outros. Não se identificam grandes problemas no texto de Mãe e Eiras. Todavia, “Surdina” não consegue encontrar nenhum outro aspecto de sua produção que seja executado de maneira eficiente. A direção até tenta transacionar com o espectador uma ligação baseada na maneira mais artística de contar sua história. Planos detalhes de objetos vão destrinchando a rotina de Isaque: um viúvo que opta por apenas levar cravos para a túmulo de sua esposa e embargar a aquisição de sua propriedade pelo poderoso local; evitando se envolver ao máximo com a decadente rotina de São Cristóvão. Com  isso ele passa ao largo da fofoca de que uma mulher igual à sua falecida companheira tem sido visto andando pelas ruas.

Próximos ao protagonista temos Armando (Jorge Mota) e Luis (Fernando Moreira), dois amigos que não querem ver Isaque remoendo a morte da esposa. Por isso, querem que ele invista em um relacionamento com Dona Micas (Ana Bustorff). Se não há a pungência da evolução da trama e a ambientação inebriante características de um romance de Valter Hugo Mãe, o roteiro de “Surdina” não deixa a desejar na construção de personagens. Só que Rodrigo Eiras transporta o texto de forma tão artificial para a tela que fica muito difícil se conectar ao longa-metragem. As marcações e movimentos dos atores são robóticas, comprometendo impiedosamente suas interpretações. Não há uma coerência entre a leveza da abordagem, uma proposta acertada já que nas entrelinhas há um desejo de lançar à obra um tom até jocoso, com a rigidez e a dureza como as cenas se desenvolvem.

A representação da decadência de locais como o vilarejo onde se passa o filme é um prato cheio para discutir o comportamento daquelas pessoas. São diversos personagens ali inseridos para reforçar a tese de como a crise persistente e o déficit populacional têm gerado consequências graves em Portugal. Um grupo de pessoas que parecem ter como único objeto se preocupar com a vida alheia e passam seus dias, senão ofendendo pelas costas, trocando conversas desinteressadas sobre amenidades. Nada acontece em São Cristóvão, até porque seu povo bastante envelhecido não dá conta de muita coisa. Talvez no momento mais inspirado da longa-metragem, o protagonista colocar para ouvir um long play com o envelope que o embala e o adesivo grudado no meio do disco do meio tão amarelados – mas ao mesmo tempo tão bem guardados – que quase dá para sentir o cheiro da naftalina. A única vez em que há textura, há transferência de fluidos naquela ambientação pouco trabalhada.

Mas essa tônica de exemplificar imageticamente o velho e o decadente não se mantém. Não avança do bom humor para a comédia, mas também abdica do melodrama, mesmo que identifiquemos o sofrimento de Isaque em alguns momentos. Traz uma alegoria (muito boa, por sinal) relacionada a um animal no quintal da casa de Isaque tão jogada no curto tempo de duração do filme (menos de 80 minutos), que talvez fique claro que mesmo um gênio da escrita tenha dificuldades com certas linguagens. Na cinematográfica, onde é mais difícil representar pensamentos e sentimentos sem incorrer em um voz off por vezes irritante, é fundamental que se trabalhe a imagem como aliada na mensagem a ser passada. É nesse ponto que a produção se enfraquece a ponto de não sustentar o bom texto usado como base. Além disso, aquela indecisão de determinar o tom da obra cinematográfica, faz com que “Surdina” deixe a sensação de um filme sem personalidade. 

Anuncie no Vertentes do Cinema

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *