Caminhos Magnétykos

A existência pelo neon

Por Fabricio Duque

Há filmes que deslocam tanto a vírgula que conseguem a proeza de transcender o surto intrínseco de sua criação. “Caminhos Magnétykos” é um desses exemplos, por se comportar como um xamã-hipster de imposição vanguardista quando viaja na metafísica das sensações enlouquecidas, conduzindo o espectador por uma experimental instalação de imagens, bem à moda de “Twin Peaks” e seu “quarto vermelho”. Sonhos, delírios, desesperos, lembranças e dramas, tudo acontece por um teatro de fusões. A narrativa sai completamente da curva e inova na linguagem.

Exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2018, “Caminhos Magnétykos” constrói um tempo etéreo de questões existencialistas, angústias e utopias democráticas. É crítico e performático de “rock parado” e vazio total no ridículo. Sim, não é tarefa fácil traçar linhas analíticas, tampouco descrever o filme com ares protocolares e conservadores. O que assistimos é um espectáculo de transgressão à própria imagem, principalmente por sua narração francesa de ficção portuguesa.

O longa-metragem faz inferir referências, como a da estrutura atmosférica do diretor Nicolas Winding Refn, devido aos participação afetada e ativa do público. E ou ao Professor Xavier, de “X-Men”. É físico com seus flashes e fragmentos mentais. Uma ficção científica neon, de cores artificiais, com modernos drones. A festa de casamento aristocrática (com direito a Primeiro Ministro), estranha e desalinhada, tem conselhos como presentes. “Só um homem egoísta é capaz de amar”, discursa-se com “altruísmo erradicado”.

É um filme fascista? Donald Trump? Celular que toca o hino dos Estados Unidos? Premonitório com o momento atual do Brasil? “Caminhos Magnétykos” é sobre a conexão magnética. Na física, magnetismo é a propriedade de atração e repulsão de determinados metais e ímãs, que apresentam um polo positivo e outro negativo, caracterizados pelas “forças dipolo”. Aqui, o termo serve como metáfora para entender a “alma do homem” e a de Ney Matogrosso (um dos atores do filme).

Uma das consequências inevitáveis de toda e qualquer pessoa que assiste o filme é tentar paralelos cinéfilos. Ora com a cinematografia do realizador francês Leos Carax e seu “Holy Motors”; ora com a surf music que remete imediatamente a Quentin Tarantino (de “Pulp Fiction: Tempo de Violência”). É obra-videoclipe. Uma distopia revolucionária de viés esquizofrênico e propositadamente surtado.

É também uma crítica às classes. O “negro transa com a branca”, elemento agressivo para chocar e potencializar a luta catártica contra a alienação de uma “parcela rica” da sociedade. O conceito é estendido e levado ao limite do suportável. E para descansar de tudo, Ney canta números musicais. Pois é, chega um ponto que o tema se esgota e o discurso fica repetitivo (dando murro em ponto de faca). As crises mentais, sacrifícios e forças abrigam-se no satírico de Terry Gilliam e seu “Medo e Delírio” e em Jean-Luc Godard. “Doença é a lucidez e recolher é obrigatório”, grita-se.

“Caminhos Magnétykos” investe tanto na loucura que se perde no próprio processo, ganhando assim contornos forçados, desengonçados e “despirocados”. Até porque suavizar e ou surtar ainda mais não surte mais efeito. A premissa já foi desenvolvida e esgotada. Torna-se improvisado demais. Sim, o mais é o que demasiado, gerando ações gratuitas e reações ingênuas. Entre cataclismos, sonambulismos e drones vigilantes, a mensagem nos passa que os seres humanos acordam destroçados do transe. É uma fábula de análise comportamental do indivíduo enquanto ser social. “Viva Portugal Integral!”.

Dirigido pelo português Edgar Pêra, que dividiu episódio em “3x3D” e de “O Espectador Espantado”, o filme já fornece pistas desde seus créditos iniciais de abertura quando lista suas produtoras: Bando à Parte (referência a “Band a Part”, dirigido por Godard) e Persona Non Grata Pictures (referente ao que aconteceu com Lars von Trier no Festival de Cannes – que foi banido por comentários considerados xenófobos e não debochados). “O dinheiro não é tudo”, finaliza-se.

“Caminhos Magnétykos” objetiva o amadorismo estético com seus constantes ataques histéricos de gritos libertários. Um filme que ganha no olhar (um prazer à moda Gaspar Noé e sua junção “Clímax” e “Enter the Void”), mas não sustenta a incrível jornada por dentro dos pesadelos; que flutua na epifania, mas que esquece de regressar. Que vai e não sabe mais voltar. Que perde e recalcula a rota de suas marionetes-personagens.

 

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