Starfish – Uma História de Amor Incondicional

A cortina da verdade

Por Vitor Velloso

Cinema Virtual

A máquina de produção de filmes religiosos, da superação humana etc, nunca para. Lançado em 2016, “Starfish – Uma História de Amor Incondicional” já nos mostra seu conteúdo de introdução de um imaginário estrangeiro, em sua tradução. A ideia da estrela do mar, diretamente ligada ao título e à narrativa, compreende em si uma estrutura bastante religiosa dada a construção da direção de Bill Clark. Que já em seu primeiro momento faz questão de dizer “É tudo verdade”, para ressaltar que não é “baseado” em uma história real, muito menos inspirado, é “tudo verdade”.  

Não que a superação seja propriamente ligada à uma ideia de religiosidade, mas aqui, ela está moralmente e institucionalmente em casamento com a mesma. Isso porque o filme cria um esforço para que haja um dúvida da humanidade de determinadas instituições, privadas e do Estado, acaba vilanizando o papel do médico durante esse processo e busca recompor uma ideia lúdica de cicatrização, física e familiar, a partir da doença que acomete Tom (Tom Riley). Essa constante tentativa de tornar vil o papel do médico, que surge como uma espécie de Cassandra desumanizada, sempre trazendo a pior das notícias e tratando com desdém seu paciente, acaba por tornar mais fácil o caminho cristão-familiar do drama. E é onde surge a forma clássica de se tratar uma história que já vimos algumas muitas vezes. 

Para uma precipitada retratação com algum leitor radical nas bases mais radicais (“Ser radical é tomar as coisas pela raiz. Mas, para o homem a raiz é o próprio homem”, Marx), a partir das críticas feitas ao cinema cristão-familiar, é necessário reconhecer que inicio o texto com “máquina de produção”. Logo, não me refiro à uma totalidade acerca da religião no cinema, podemos tomar de empréstimo três exemplos cinematográficos que compreendem a religião, em específico o cristianismo (por tratarmos aqui de “Starfish – Uma História de Amor Incondicional”): “Francisco, Arauto de Deus” (1950) de Rosselini, “O Evangelho Segundo São Mateus” (1964) de Pasolini e o contemporâneo “Silêncio” (2016) de Scorsese. Assim, a referência industrial da produção, se refere exclusivamente aos filmes de efeito prático imediato, que buscam de fato traduzir um sentimento conciso, por vezes inócuo, onde situações isoladas são elevadas à “moral do filme”. 

E a partir disso, podemos citar outros exemplos como: “Superação: O Milagre da Fé” (2019) de Roxann Dawson ou “Deus não está morto” (2014) de Harold Cronk (que dedica sua carreira à propaganda cristã e norte-americana, na busca de uma infiltração ideológica e política). Assim, fica claro que ao debatermos este tipo de produto, estamos diante de uma indústria de produção em massa, com fácil acessibilidade e grande sucesso de público, agora, note que os exemplos dados são propriamente estrangeiros, pois essa evangelização através do cinema, seja pela ortodoxia do método religioso ou pela moral cristã que está inerente aos projetos, está diretamente ligada ao capitalismo, por seu financiamento e distribuição direta. 

Aqui no Brasil essa proposta está se iniciando, através das novelas de propaganda evangélica ou dos filmes, ambas com o mesmo financiador. “Os Dez Mandamentos” novela/filme, “Nada a Perder” e todo o escândalo envolvendo a compra massiva de ingressos para que fosse divulgado na mídia uma lotação, inexistente, nas salas de cinema. E é a partir dessa ideologia que estes filmes são produzidos, distribuídos, consumidos. Uma lógica de capital que circula entre todos os meios, onde o único que lucra é o produtor e sua infiltração ideológica. 

Pixar os projetos de reacionários, pode soar brevemente violento, mas não se trata de uma digressão absoluta, já que não se propõe nada além do óbvio e da indústria cinematográfica, filma-se o sofrimento, uma redenção, divina ou familiar, e um abraço caloroso dos irmãos de fé. Essa retroalimentação dos projetos vai muito além do óbvio, sem atingir somente o público-alvo, pois é possível escutar em outros centros religiosos, que não católicos e evangélicos, indicações dos filmes citados acima, ou mesmo “A Culpa é das Estrelas” (2014) de Josh Boone. 

É necessário estar atento à infiltração ideológica e da moral norte-americana, pois essa ideia universal, da família e de uma superação através de uma ação positiva, vêm acompanhada de um retrato bastante direto de um imaginário estrangeiro, de costumes e da própria moral. E ainda que “Starfish – Uma História de Amor Incondicional” não seja um longa produzido nos EUA, mas no Reino Unido, ele transpõe para si, todo o consenso da Trumpland, sendo aliado direto do berço do imperialismo. Para além do discutido, esses filmes trabalham sempre na mesma seara, plano-geral que vai transitando entre os cortes em primeiro-plano. Uma linguagem que consumiu o imaginário brasileiro à muito tempo e vem ganhando de forma ainda mais incisiva, um tom perigoso do consumo capitalista e de costumes que já não nos são tão estranhos. A equidade é o alvo desses projetos. 

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