Nada a Perder – Parte INada a perder

A Sociedade é Um Organismo Vivo

Por Jorge Cruz

 

 

Passado um ano e meio do lançamento de “Nada a Perder – Contra Tudo, Por Todos”, aquele que no papel é a maior bilheteria de todos os tempos do cinema nacional com quase 11 milhões e 300 mil ingressos vendidos, é preciso deixar de lado qualquer juízo de valor a ser feito sobre o biografado, já que o debate precisa obrigatoriamente tratar certos aspectos de nossa sociedade como fatos. Permanecer na bolha que opta por propagar o quão abjeto é esse produto, apenas por confrontar diretamente com sua visão de mundo, não contribui para o entendimento maior: aquele que tenta explicar porque vivemos em um país em que uma obra dessa ocupa um espaço não utilizado tradicionalmente pelo seu público-alvo.

Até porque “Nada a Perder – Contra Tudo, Por Todos” se revelará um produto muito mais digno do que sua sequência. Disponível na Netflix quando da chegada da segunda parte aos cinemas em agosto de 2019, a maneira com a qual o filme é conduzido pelo diretor Alexandre Avancini (veterano de novelas e séries em seu primeiro trabalho na tela grande) diz muito sobre as intenções de seus realizadores. Não há como afastar o viés propagandista e chapa-branca de um filme produzido pela empresa do biografado e que utiliza como fonte primária um livro escrito com base em sua própria narrativa.

Se esse for um fator de incômodo, não é recomendável escolher “Nada a Perder – Contra Tudo, Por Todos” para um relaxante início de noite no sofá. Fica claro que o longa-metragem ganha vida como uma empreitada da Igreja Universal do Reino de Deus para promover seus valores. Aliás, uma empreitada modesta para os padrões da organização – e, como era de se esperar, bem sucedida. O filme não custou nem 20 milhões de reais e arrecadou, somente de bilheteria, seis vezes mais do que isso.

Essa predileção do Bispo Edir Macedo pelo aparelhamento de meios de comunicação é um dos pontos abordados pelo roteiro de Stephen P. Lindsey e Emílio Boechat. Em um certo momento, quando ele observa que sua pregação no meio da praça nunca teria o alcance que achava necessário, vê na compra de espaços nas rádios AM, em dificuldades financeiras, um ótimo trampolim para ficar mais conhecido. Essa é uma das passagens que apresenta não só os motivos pelos quais as igrejas neopentecostais se desenvolveram no país. Vai além de confirmar a fórmula do sucesso da IURD a partir da ocupação de ferramentas midiáticas de massa. Também é uma maneira de dizer o quão preocupado o biografado está com a eficácia na institucionalização do poder da igreja que fundou.

“Nada a Perder – Contra Tudo, Por Todos” é muito mais meio do que mensagem para quem o analisa de fora dos meandros da religião evangélica. Essa análise de meio, como não tem sido feita pela crítica, vem transformando a obra é um pária do audiovisual brasileiro. Para boa parte dos analistas de cinema entende que ele sequer merece ser visto. Ignoram o quanto ali se reflete a identidade da sociedade brasileira, a partir de uma de suas personalidades mais poderosas.

A organização criada por Edir Macedo opta por trazer nessa primeira parte a mais tradicional cinebiografia que o Brasil é capaz de produzir. Propondo um longo arco de história (da infância lá na década de 1950 até o ano de 1992, quando o pastor fica alguns dias preso), precisa de uma montagem ligeira e um ritmo intenso, com cenas representando momentos tidos como mais importantes, da maneira mais enxuta possível. O longa-metragem não cita em nenhum momento a Rede Globo, elegendo um trio de antagonistas não identificável: Monsenhor José Maria (Eduardo Galvão) representando a oposição da Igreja Católica, Ministro Bittencourt (Otávio Martins) como os políticos do governo Collor que brecaram o desenvolvimento da Igreja e Juiz Ramos (Dalton Vigh) como os magistrados e membros do Poder Judiciário que perseguiram Macedo.

Essa seleção de vilões têm suas representações caricatas, sempre antecedidas de uma trilha exagerada e iluminação tão destoante que soa mais grotesca do que a utilizada pela televisão. Tal como a representação de Lula no seriado “O Mecanismo” (2018) e no filme “Polícia Federal – A Lei é Para Todos” (2018). Não é escolha de ideologia, mas de representação a serviço de uma narrativa. No caso de “Nada a Perder – Parte I” isso serve ao propósito passivo-agressivo da produção, que condiz com os procedimentos utilizados pela Universal. A polêmica com o nome de Edir Macedo nunca é provocada pelo próprio. Por isso, até mesmo quando as outras religiões são abordadas a partir do contato do protagonista com elas em sua infância e adolescência, há uma preocupação em ser respeitoso – até a página 2. A IURD entende hoje seu lugar no mercado mais do que outras organizações do gênero e sabe que fazer um longa-metragem que se enquadre nos cânones é fundamental para essa empreitada.

Por isso, “Nada a Perder – Parte I” se apresenta bastante sincero em suas intenções. Ele é, sim, propagandista, mas não apela para uma idolatria tão diferente daquelas de outras cinebiografias. O volume de produções desse estilo no país é reflexo direto do amor e da necessidade de ídolos na sociedade brasileira. A representação de Edir Macedo como alguém que acredita em sua missão divina ao mesmo tempo que desenvolve uma inteligência mercadológica, é a própria aplicação da Teologia da Prosperidade.

O elenco é bastante limitado, até pela quantidade reduzida de profissionais dispostos a aceitar o convite. Edir Macedo é vivido por Petrônio Gontijo e sua esposa Ester é interpretada por Day Mesquita, dois atores que desenvolveram suas carreiras na Rede Record. O prestígio na empresa se converteu em um bom trabalho e o desafio foi concluído com eficiência. Beth Goulart como a mãe de Macedo e André Gonçalves no papel de R.R. Soares são reforços pontuais, experientes e talentosos, que ajudavam na credibilidade do produto.

Quem se permite ultrapassar a análise do que está sendo representado na tela, tentando buscar algo como uma “verdade real”, observará que o biografado tem duas características interessantes em sua persona. A primeira é que o Bispo, até a explosão de popularidade de sua igreja, nunca gozou de privilégios de classe. Não tem como negar que ele construiu sua própria história. A segunda é que o combustível de seu desenvolvimento pessoal parece ser um acervo de mágoas guardadas, algo que nem toda a filtragem de sua experiência, do livro e da adaptação para roteiro conseguiu disfarçar.

Junte isso a uma tendência a desrespeitar hierarquias e pavimentou-se a estrada do sucesso da IURD. O auge da sinceridade com os fatos, mesmo que suas origens sejam manipuladas, está no momento em que Macedo, com parcelas da compra da Record atrasadas, vê no Plano Collor (medidas do Governo que dificultaria ainda mais a vida dos mais pobres) uma excelente oportunidade para prosperar.

“Nada a Perder – Contra Tudo, Por Todos” é a materialização do uso do sistema, das regras do jogo institucional, para fazer essa personalidade chegar aonde ela nunca esteve. Uma obra que usa as convenções do cinema para desfilar diálogos carregados de sensatez que vendem uma figura coerente. É só mais uma partida que Edir Macedo joga no campo do adversário. Ali ele mostra que já fez isso várias vezes. A reação dos donos da caneta do passado se assemelhou muito àquela da crítica especializada de cinema e o resultado suplantou boa parte dos detratores. Foi assim em conflitos com outros líderes evangélicos, lideranças católicas, poderosos da política e da imprensa. Talvez a função da crítica não seja apenas passar correndo pela porta da Universal na calçada da Cinelândia para ver o novo do Almodóvar no Odeon. Talvez seja urgente entender o porquê de grupos tão diferentes ocuparem o mesmo espaço para que um deles não perca a voz de uma hora para outra.

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