Honesto, porém ruim

Por Pedro Guedes


Veja bem, que fique claro: “Superação – O Milagre da Fé” não é tão ruim quanto seu título, sua proposta e seu pôster sugerem. Não que o filme seja particularmente bom – aliás, está bem longe disso: a abordagem estética é medíocre; os diálogos são sempre artificiais; as atuações oscilam entre “frágeis” e “passáveis”; e o principal objetivo do projeto (celebrar e disseminar as crenças cristãs) é executado de maneira tremendamente melosa. Por outro lado, o longa não representa uma experiência tão dolorosa quanto o nojento “O Que de Verdade Importa”, que revelava uma intolerância profunda por qualquer outra filosofia de vida que não fosse o cristianismo.

Produzido pelo mesmo DeVon Franklin de “O Céu é de Verdade” e “Milagres do Paraíso” (sim, aquele com Jennifer Garner), o filme é dirigido por Roxann Dawson e se baseia no livro que Joyce Smith escreveu a partir do caso que ocorreu com seu filho, John, que, aos 14 anos de idade, se afogou num lago congelado por vários minutos e, depois de ser socorrido por um grupo de bombeiros, chegou ao hospital quase dado como morto. Com isso, John passou os próximos três dias internado e inconsciente, deixando seus pais, o pastor Jason e todos os habitantes daquela região preocupadíssimos com seu estado de saúde. Aí vem a dúvida: foi Deus quem protegeu a morte do menino?

Bom, ao menos o filme se assume como uma propaganda cristã, sem posar de “isento” ou “apolítico” (como se alguma obra o fosse) e – o mais importante – sem julgar o espectador caso este siga uma crença que não seja aquela abraçada pelos realizadores. No universo da obra, apenas não existem pessoas que não sejam evangélicas, com a exceção do ateu vivido por Mike Colter – e sua posição não muda graças necessariamente a um monte de catástrofes que rolaram em sua vida só por ele ser ateu (ao contrário do que ocorria com o protagonista de “O Que de Verdade Importa”, que percebia que sua vida estava indo de mal a pior justamente por não acreditar em Deus). Por outro lado, o fato de não promover a intolerância religiosa não é bem um elogio, afinal, isso é o que se espera de qualquer obra (ou ser humano) minimamente sensato.

E isso é o máximo que “Superação – O Milagre da Fé” consegue ser: uma propaganda cristã que, pelo menos, não chega a ofender. De resto, é uma obra narrativamente frágil, já que não tem praticamente nada o que contar (John passa o tempo todo numa cama de hospital, os remédios não funcionam e… bem, Deus pode ou não intervir a qualquer momento) e ainda é enfraquecida pelo fato de que todos sabemos como a história vai terminar – se não for pelo conhecimento prévio do que aconteceu na realidade, será pelo roteiro excessivamente previsível (ora, quando um personagem diz que não há mais solução, é porque obviamente há uma solução!). Como se não bastasse, o filme conta com toda aquela cafonice que se espera de uma produção deste tipo e atinge resultados hilários em seu terceiro ato, quando descobrimos que, ao que tudo indica, todas as pessoas do mundo são frequentadoras da Igreja protestante, já que o mundo inteiro parece parar para cantar e orar em nome de John e, claro, de Deus.

Pois entendam bem: o problema não está no cristianismo promovido pelo longa, mas no tratamento tolo e açucarado que o roteiro e a direção conferem à trama, aos personagens e aos diálogos. Aliás, o desempenho da estreante Roxann Dawson (que os trekkers talvez conheçam como B’Elanna Torres, de “Star Trek: Voyage”) se mostra irregular: por um lado, a diretora surpreende ocasionalmente com um ou outro plano razoável em sua composição (e as sequências mais tensas e instáveis, ambientadas no lago congelado e nos corredores do hospital, são devidamente registradas através de câmera na mão); por outro, os planos se mantém fechados, os diálogos são enfocados a partir de planos/contraplanos básicos e o drama presente em cada cena é retratado de forma óbvia. Mas o fundo do poço é atingido num dos momentos finais da projeção, quando o diretor de fotografia Zoran Popovic alterna entre lentes padrões e grandes angulares sem qualquer justificativa plausível, tornando a cena incomodamente disforme.

Contando com as presenças de Mike Colter (que já havia se provado limitado na série “Luke Cage”) e Topher Grace (que parece ter nascido para viver apenas personagens bem humorados, já que seus papeis mais “sérios” não costumam ser tão eficientes), “Superação – O Milagre da Fé” é ancorado pela performance de Chrissy Metz, que até consegue transmitir as dores sentidas por Joyce de maneira competente – e é uma pena, portanto, que o filme não ofereça nada à atriz além disso, transformando a protagonista em uma figura que só parece ter uma única dimensão.

Assim, o resultado é um filme que não chega a ser insuportável, mas é artificial, vazio e tolo demais para convencer o espectador. E embora seja honesto ao assumir sua natureza propagandística, isso não é o suficiente para salvar o projeto como um todo.

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    O filme é fantástico! Apenas uma história real contada. Quem tem a mente aberta absorveu o propósito do filme! Sensacional assisti duas vezes em menos de 24 horas.

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