Um sacrilégio para o apreciador do bom Cinema

Por Pedro Guedes


Existem filmes que são apenas ruins. Claro que o sentimento de assistir a uma obra malsucedida nunca é positivo, mas o destino da maioria dos longas fracassados é o esquecimento – e por piores que sejam obras como “A Múmia”, “Han Solo”, “Slender Man”, “A Freira” ou “O Predador”, elas pelo menos não incomodam a ponto de se tornarem um trauma longevo na vida do cinéfilo. Na maior parte dos casos, os filmes ruins vêm, são mal recebidos e imediatamente depois são confinados a um limbo. Em compensação, existem também algumas obras que transcendem a pura e simples ruindade, transformando-se em verdadeiros pesadelos que fazem o espectador lembrar-se do que é, de fato, um filme ruim.

“O Que de Verdade Importa” é mais do que uma péssima obra; é uma coisa horrorosa que desperta no cinéfilo a vontade de insultá-la deliberadamente. Concebido com o intuito de apoiar a fundação espanhola “Lo que de verdad importa”, que combate ativamente o câncer infantil, o longa dirigido por Paco Arango (que dedicou boa parte da sua vida à causa, ajudando mais de 10 mil crianças debilitadas) utilizará cada centavo que arrecadar nas bilheterias para apoiar à instituição e, com isso, ajudar várias vítimas da doença. Ora, como criticar um projeto que se dispõe a uma ação tão admirável? Simples: reconhecendo que o filme em si faz “As Aventuras de Agamenon” parecer “O Sétimo Selo” – e recomendando que os espectadores façam, sim, doações para instituições de caridade.

O roteiro, escrito também por Arango, é uma coleção interminável de clichês recheados com situações absurdas e falhas que qualquer um que compreenda o básico de estrutura narrativa deveria evitar. A trama começa acompanhando o londrino Alec Bailey, que ganha a vida consertando eletrodomésticos e vendendo seu trabalho sob a alcunha de “O Curador”. Depois da morte de seu irmão, que prometia levá-lo à prosperidade, Alec se vê falido e enterrado em dívidas – isto é, até surgir um tio milionário que propõe o seguinte acordo: se Bailey passar um ano morando na Nova Escócia, todas as suas dívidas serão prontamente quitadas. Não lhe sobram muitas alternativas, claro, e Alec aceita a oferta, ganhando a oportunidade de reconstruir sua vida. O que ele não esperava, porém, é que desenvolvesse uma estranha capacidade de curar os problemas dos moradores da cidadezinha, dando um novo significado ao nome artístico de “O Curador”.

Como podem perceber, “O Que de Verdade Importa” traz fortes ligações com a cultura cristã – e não é de se espantar que, ao longo da narrativa, diversas alusões óbvias à iconografia religiosa venham à tona. Trata-se, portanto, de um “filme cristão”; o que certamente não é um problema (afirmar que uma obra está “errada” por seguir uma crença específica é uma atitude intolerante por si só – e não são poucos os exemplos de excelentes longas feitos com base em uma religiosidade). De qualquer forma, não é absurdo supor que até mesmo os cristãos têm motivos para se sentirem ofendidos por este filme, já que, num momento-chave do terceiro ato, o protagonista basicamente soluciona um obstáculo entrando numa igreja e atacando Deus diretamente. Qual a mensagem que fica? Quando estiverem encrencados, entrem num templo e incitem o ódio à vontade, pois isto resolverá seus problemas.

As coisas começam a se complicar, porém, quando o filme demonstra uma intolerância sintomática, como se tivesse certeza de que sua crença é superior às outras. Pensem numa pessoa que faz um comentário preconceituoso onde menospreza as outras religiões e, em seguida, revela que estava apenas brincando, mas sem apagar totalmente a impressão discriminatória que pareceu tão legítima em suas palavras anteriores. É mais ou menos esta a mentalidade de “O Que de Verdade Importa”, que, logo na primeira cena envolvendo o padre vivido por Jorge Garcia (da série “Lost”), põe o personagem para questionar o suposto budismo de Alec como se o cristianismo fosse “mais verdadeiro”. O mais revoltante, no entanto, é quando o roteiro de Paco Arango deixa de desrespeitar a crença alheia e resolve desrespeitar ainda mais a descrença alheia – e isto fica claro graças ao arco do protagonista, que percebe que tudo está dando errado em sua vida porque ele… não acredita em deus (ou Deus, dependendo da interpretação). Ou seja: ser ateu só atrapalhou a jornada de Alec, tanto que, após se aceitar como cristão, o sujeito imediatamente reencontra seu caminho. É preciso dizer mais que isso?

Flertando também com a homofobia ao trazer uma personagem que se diz lésbica, mas que aos poucos revela que sua homossexualidade não passava de uma mentira criada para impedir que Alec se apaixonasse por ela (claro que o filme não toleraria a presença de um único “pecador” – entre fortes aspas – que assim permanecesse até o fim), “O Que de Verdade Importa” é malsucedido até mesmo em abordar a causa que motivou sua própria existência (a luta contra o câncer infantil): depois de jogar en passant a informação de que o irmão de Alec morreu por conta da doença, o roteiro simplesmente esquece este detalhe até chegar o momento em que ele volta a ser importante (leia-se: nos minutos finais do longa).

Mas o pior não é nem isso: quando a projeção já passou de sua metade, o filme atira forçadamente uma garota em estágio terminal de câncer e cria artificialmente uma dinâmica entre ela e o protagonista – e isto gera ainda um problema de estrutura narrativa, já que uma segunda trama se inicia no meio de outra que, naquela altura do campeonato, parecia prestes a se encaminhar para um desfecho (é como se um novo filme resolvesse começar do nada). Por falar nesta menininha, vale dizer que a produção nem se preocupa em fingir que a atriz Kaitlyn Bernand sofre de câncer há quatro anos e está em fase terminal, pois do primeiro instante ao último a criança age… como qualquer criança saudável (o único sinal de que a garota talvez não esteja bem é o fato dela tossir em uma cena, e só). Ela se comporta de modo empolgado e sempre parece perfeitamente estável, como se não carregasse uma doença que está próxima de acabar com sua vida.

Questões morais e éticas à parte, o fato é que “O Que de Verdade Importa” é um filme muito ruim (e a única diferença real que existe entre ele e “The Room”, de Tommy Wiseau, é que pelo menos este longa ainda era capaz de divertir com sua ruindade, algo que Paco Arango jamais chega perto de fazer). Escrito (perdão: “escrito”) por alguém que parece nunca ter ido ao cinema na vida, o roteiro conquista a antipatia do espectador ainda em sua primeira cena, quando uma piadinha imbecil sugere que o protagonista estava tendo um caso com uma cliente comprometida (e que o marido desta havia descoberto a traição). Nas quase duas (intermináveis) horas que vêm depois, são apresentados alguns dos personagens mais lunáticos que o Cinema já inventou e alguns arcos dramáticos que não convencem nem uma criança com o mínimo de senso crítico em desenvolvimento (isto sem contar a estrutura, que, como foi dito no parágrafo anterior, comete o mais básico dos erros ao praticamente reiniciar a história no meio da projeção, como se não houvesse primeiro, segundo e terceiro atos). E há, também, um protagonista que descende de uma família que carrega o poder divino de curar os outros como uma tradição hereditária. Pois é.

Já a direção de Paco Arango se entrega totalmente ao estilo medíocre das produções que costumam lotar a “Sessão da Tarde” dos dias de hoje, tentando combinar o drama à comédia e falhando miseravelmente: quando investe em situações que se pretendem mais pesadas, o filme descamba para a cafonice sem o mínimo de parcimônia (o melhor/pior exemplo disso está num instante onde o protagonista, seu par romântico e a garotinha adoecida resolvem parar numa estrada e dançar ao som de uma música, em câmera lenta); quando decide mergulhar no bom humor, o resultado é um festival de vergonha alheia que faz a parvoíce de “A Praça é Nossa” se transformar na genialidade de “Seinfeld” (há, inclusive, o maior horror de qualquer cinéfilo que se preze: planos que enfocam as reações de animais diante de algum evento constrangedor). E o que dizer da rápida e “eletrizante” cena de ação que acontece ainda no primeiro ato?

De um ponto de vista puramente técnico, “O Que de Verdade Importa” é uma produção retrógrada que simplesmente não parece ter sido feita em pleno ano de 2018 (ou 2017, ok): a abordagem estética adotada por Arango e pelo diretor de fotografia Javier Aguirresarobe é pobre e rústica, como se o filme tivesse sido rodado com equipamentos que se tornaram ultrapassados no começo dos anos 2000 – e o mais estranho é que, em certos diálogos, há um plano que se mantém estável ao passo que seu contra-plano surge instável, como se a câmera fosse tremida sem que houvesse um propósito para isto. Igualmente constrangedora é a montagem de Teresa Font, que não faz esforço algum para conferir coesão ou fluidez à estrutura da narrativa e – o pior de tudo – investe em transições deselegantes, como fades e cortes de fusão pavorosos.

Mas não existe absolutamente nada em “O Que de Verdade Importa” que incomode tanto quanto a trilha musical de Nathan Wang, que deveria ser multado por tentar agredir fisicamente o espectador golpeando seus ouvidos. Fazendo questão de mastigar todo e qualquer sentimento que o público deve ter em cada momento, o sujeito dá um susto sempre que suas composições surgem em cena e cria melodias que saltam do brega ao engraçadinho – e a maneira como o trabalho de Wang é encaixado no meio das sequências só piora o resultado, já que sua trilha jamais soa inserida no momento certo nem atinge a sincronização ideal (em alguns momentos, ela parece interromper certos diálogos).

Depois de tudo o que foi dito até aqui, não há nada particularmente relevante a ser dito sobre o elenco, pois este se mantém preso à inaptidão geral do projeto: Oliver Jackson-Cohen dá vida a um protagonista aborrecido, nada carismático e que toma atitudes que depõem contra sua inteligência; Camila Luddington (de “Grey’s Anatomy”) faz o que pode para conferir o mínimo de simpatia à sua personagem, mas é comprometida pelo péssimo desenvolvimento desta; Kaitlyn Bernand passa bem longe de convencer como uma paciente prestes a ser morta pelo câncer; Jonathan Price está presente apenas para explicar tudo o que está acontecendo na trama; e Jorge Garcia é ridicularizado quando não está oferecendo lições de moral tolas e batidas.
Fracassado em todos os sentidos possíveis e imagináveis, “O Que de Verdade Importa” é um ato falho cuja ruindade só será inteiramente captada por quem assistir ao filme (é o famoso “ver para crer”). Talvez Paco Arango devesse buscar novas maneiras de divulgar sua batalha contra o câncer infantil, pois está mais que comprovado que, no Cinema, o sujeito não tem capacidade alguma.

E olha… conseguir falar sobre este desastre sem dizer um único palavrão é um desafio e tanto.

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