Sem Remorso

Subproduto e o "multinacionalismo"

Por Vitor Velloso

Amazon Prime Video

Em exibição na Amazon Prime Video, “Sem Remorso” de Stefano Sollima é um bom termômetro para observarmos como a crítica brasileira está lidando com determinados fenômenos do cinema de gênero da indústria norte-americana. A defesa pela morte da autoria e de uma espécie de “anti-mise-en-scène” (em termo abrasileirado) se tornou uma questão ocasional para obras que convém a defesa de um conservadorismo primário e reativo diante da proposta imperialista na linguagem cinematográfica de Hollywood. Diante deste cenário, uma parcela recorre aos argumentos de dispositivo que remontam a máxima que norteou o faroeste ou a própria desumanização do protagonista como esse gatilho narrativo para a ação acontecer. 

Está claro que o espectador que decidir se aventurar no drama com armas de “Sem Remorso” estará cedendo quase 120 minutos à propaganda internacional de como as instituições mais conservadoras de um protótipo de sociedade estadunidense são verdadeiras pontes para uma unificação da conjuntura democrática liberal em escala global. A cena final, onde a “solução” é a criação de uma força multinacional que unificaria “as pessoas de confiança” da OTAN, CIA e Reino Unido “com suporte dos serviços de inteligência nacionais” é a síntese de como a articulação da “globalização” é o eufemismo do “imperialismo”, aqui, militar, cultural e ideológico. Nada difere da realidade, porém, ver que a defesa de um cinema visto como “dispositivo” por um gênero que aparentemente apenas entretém, em uma realidade como a brasileira, é de uma decadência brutal. 

A crise mundial que afetou a burguesia, que precisou reformular o projeto de “mais-valia cultural” para uma necessidade de “assimilação” dos produtos. Não à toa, vemos tantas categorizações em torno do “como”. Esse processo se dá em torno de frentes do estruturalismo, onde vemos, aqui, a máxima atuando em favor de um conservadorismo que deve ser entendido como “uma negociação do gênero e seus dispositivos”. Ora, está claro que “John Wick” se apropria dos clichês para criar um massacre expositivo, sem que haja algum remorso. Ao menos a atitude é sinceramente reacionária, não se cria paralelos para que a violência possa acontecer, o drama é inexistente, uma mera apresentação de quinze minutos que rendeu, até o momento, uma trilogia. Porém, “Sem Remorso” é como o “Batman V Superman” do cinema de ação, ele quer introduzir todo um universo da burocracia burguesa liberal, onde o multinacionalismo irá combater os “terroristas”, e a tensão entre os EUA e a Rússia está sempre por um triz. Não há nada mais tacanho e mimado que defender os fantasmas de um guerra fomentada pelo imaginário do “progresso” e “liberdade” (absolutamente individual), onde as figuras de representação expõem o caráter decadente de Hollywood. 

O longa de Sollima não é nada diferente do que poderíamos esperar, mas a reação brasileira ao partir em defesa de como a “misancene define a obra” é o estruturalismo capenga cedendo ao criacionismo de quinta. O descobrimento da roda tem um tempo e o fogo não foi Michael B Jordan que criou ao incendiar um carro no aeroporto. Logo, essa atitude de relacionar determinados autores para tentar legitimar determinada obra, é de uma sem vergonhice preguiçosa. Quando o crítico se defende em teorias e paralelismos para dizer que se divertiu horrores com um filme, o processo se inverteu em absoluto e as tiradas de Jairo Ferreira são feridas no academicismo como pilar da dominação burguesa. E não que as citações necessariamente recorrem ao academicismo, isso seria um argumento fajuto, mas a necessidade de legitimar por tais vias são reflexos, ou espasmos, dessa burocracia. 

De toda forma, “Sem Remorso” é lento e desinteressante do início ao fim, desde sua tentativa de criar uma ação com tempos particulares, onde os planos não possuem o frenesi que a indústria comumente propõe. O investimento no drama do protagonista é de cíclico e repetitivo, com os clichês de sempre: choro descompensado com uma pistola na mão, próximo a testa, enquanto ele faz uma expressão de raiva que irá simbolizar o momento de virada para sua vingança desenfreada. É impressionante como o longa funciona em uma esquemática meio clipe de Katy Perry, com seus dramas exacerbados e uma proposta de “fases” para cada etapa da narrativa. Entre essas sequências de ação que contemplam a violência sem tanta interferência da montagem e um “Part of Me”, tudo soa financiado pela CIA, com propagandas escandalosas à moral de sua luta por liberdade e antiterrorista. 

Será que os críticos defensores também recebem os dólares do Pentágono? Quem for pra cabine de carro, é agente. 

 “Sem Remorso” possui algumas ousadias curiosas na sua fórmula e esse tempo que é explorado acaba não funcionando, mas vai na contramão de outros subprodutos imperialistas, ainda que seja um.

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