Saiba tudo o que está rolando no Festival de Toronto 2021

Seleção foca na contemplativa estética arthouse para traduzir suas obras

Por Fabricio Duque

Culpa, pressão, ansiedade e exaustão rondam a cobertura de todo e qualquer festival de cinema. Há uma urgência, que gera excitação, que gera dormência, que gera o cansaço e no último estágio uma sensação contraditória que os filmes parem de chegar. Sim, isso é exatamente o que passo neste Festival de Cinema de Toronto 2021. Não se sabe explicar os porquês. Pressão, ansiedade e exaustão tudo bem, visto que os prazos são curtos até a exibição expirar. Mas culpa? Será a de não “cumprir” robótica e decentemente a cobertura por causa dos atrasos? De perder algum filme? Por que nos cobramos tanto? Qual a pressa? E se um filme for “perdido”, como já aconteceu (por falta de tempo), o que fazer?

Enquanto a maioria da imprensa focou na cobertura de Veneza (que anunciou hoje seus vencedores ao Leão de Ouro), o Vertentes do Cinema seguiu seu instinto, apostou no Festival de Toronto e não se decepcionou. Na matéria do especial Tudo Sobre (leia aqui), este site já havia sinalizado a importância, relevância e praticidade reinante na maior mostra canadense da sétima arte. Este ano de 2021, ainda se levou em conta a necessidade das perdas, visto que, para os brasileiros, Cannes aconteceu com muitas baixas (praticamente toda a competição oficial).

O Festival de Cinema de Toronto 2021 acontece com formato híbrido. Toda a seleção presencial e uma parte (bem extensa) de sessões online. Mais uma vez, nós daqui do Brasil ainda tivemos um “nível abaixado” com a seguinte frase “Não disponível em seu país”. Mas tudo bem. Até porque é tanta coisa, que mesmo que quisermos assistir a toda seleção liberada, não conseguiríamos. Tirando os percalços técnicos do primeiro dia (que atrasou um pouco nossa programação), e mais que permitido essa adaptação virtual, todas as exibições estão se apresentando com qualidade e sem nenhuma interrupção, e algumas ainda contam com apresentações dos diretores. A lista de opções é tão grande, que não só causa palpitações ansiosas aos que fazem as coberturas, como não se tem tanto para mais nada. Inclusive para escrever sobre os filhos. Assim, nós, em um insight digno de epifania transcendental, descobrimos mais uma benesse-maestria dos festivais de cinema: a percepção de que não se pode assistir tudo. Precisamos abrir mão e tomar decisões. A cada escolha, um jogo “salto no vazio”, em que podemos acertar ou errar. E que nunca devemos inserir o “e se” do passado.

Pois é. Nos festivais de Cannes, Berlim, Roterdã, Locarno, Veneza, entre outros, de uma certa maneira nossas escolhas atingem apenas as mostras paralelas, porque o foco total, absoluto e irrestrito são os filmes da competição oficial. No de Toronto, o prêmio é o de Público, que inclui todos. Soma-se a isso, as apresentações especiais que chegam de Cannes, Berlim, Locarno, Veneza, conjunta com as galas (termômetro às premiações anuais, especialmente o Oscar), premières, documentários e mostras paralelas. Então, resumindo, o número de escolhas aqui é bem maior. Mas o que assistir? A curadoria é quase taxativa.

Neste ano em especial, a ordem se pauta nos exibidos na competição de Cannes (as exibições online limitaram os filmes só presenciais, por exemplo, “Memória”, de Apichatpong Weerasethakul; “Titane”, de Julia Ducournau, a Palma de Ouro; “Ahed’s Knee”, de Nadav Lapid; “Bergman Island”, de Mia Hansen-Løve); “Compartment No. 6”, de Juho Kuosmanen; “A Hero”, de Asghar Farhadi, mas conseguiremos ver “Drive My Car”, de Ryusuke Hamaguchi (já conferido – leia abaixo); “The Story of My Wife”, de Ildikó Enyedi (já conferido – leia abaixo); “France”, de Bruno Dumont (já na lista); “Three Floors, de Nanni Moretti” (já na lista). Do Festival de Veneza, aos brasileiros, somente “America Latina”, de Damiano D’Innocenzo e Fabio D’Innocenzo.

O Festival de Cinema de Toronto 2021 traz ainda o Brasil na bagagem com a repescagem de exibição de “Medusa”, de Anita Rocha da Silveira, de Cannes; e de “Matar a la Bestia”, de Agustina San Martín, uma co-produção, que conta com o ator João Miguel no elenco. É tanta oferta que precisamos voltar à questão inicial deste texto sobre as escolhas. tudo porque devido a quantidade de filmes, há dia que quinze filmes são liberados e com um tempo curto de 48 horas. É impossível e surreal. O que fazer então? Escolher. Sempre com dor no coração. E escrever sobre os filmes? Outra decisão de “confronto-parede”. Assistir ou parar para realizar críticas. Por mais rápida que um texto possa ser, tempo é perdido. E aqui “Precioso”. Portanto, cheguei a uma conclusão meio-termo: listar o que assisti com só com a nota mesmo (por enquanto). Sim, olha a culpa por não cumprir o que me prometi fazer! Mas “todos” os outros estão fazendo mais rápido. E agora? Peraí, mas após farei com calma, não é melhor?

Dito isso e com a informação extra de que o Festival de Toronto deste ano, junto a seus patrocinadores, enaltecem a necessidade de se cuidar da natureza; a luta das mulheres; a importância do Canadá; e o principal, a doação (todo o festival acontece por seus membros doadores – uma iniciativa única e eficaz) para manter a organização deste festival. A vinheta traz um cubo refletor de cores e telas. Um prisma que almejar transpassar infinitivas possibilidades de existir, pensar e/ou apenas continuar sendo. Vamos aos filmes! E nos acompanhe!


OS FILMES E SUAS COTAÇÕES

(até agora – aguarde que vem muito mais por aí)

CINCO CÂMERAS

SILENT LAND

(Cicha Ziemia, 2021, Polônia, Itália, República Tcheca, 113 minutos. de Aga Woszczyńska). Mostra Platform. Primeiro filme da diretora.

QUATRO CÂMERAS

DRIVE MY CAR

(2021, Japão, 179 minutos, de Ryusuke Hamaguchi). Mostra Special Presentations. Exibido na competição oficial do Festival de Cannes, vencendo na categoria de Melhor Roteiro. Mesmo diretor de “Asako I & II”.

MURINA

(2021, Croácia, Eslovênia, Brasil, Estados Unidos, 95 minutos, de Antoneta Alamat Kusijanović). Mostra Contemporary World Cinema e TIFF Mostra New Wave. Vencedor do Câmera de Ouro do Festival de Cannes. Exibido na Quinzena dos Realizadores. Assista aqui ao Q&A. 

ALL MY PUNY SORROWS

(2021, Canadá, 108 minutos, de Michael McGowan). Mostra Special Presentations. Assista aqui ao Q&A. 

DUG DUG

(2021, Índia, 107 minutos, de Ritwik Pareek). Mostra Discovery. Assista aqui ao Q&A. 

TRÊS CÂMERAS

ATTICA

(2021, Estados Unidos, 116 minutos, de Stanley Nelson). Mostra TIFF Docs. Assista aqui ao Q&A. 

TERRORIZERS

(2021, Taiwan, 127 minutos, de Ho Wi Ding). Mostra Contemporary World Cinema. Assista aqui ao Q&A. 

ENCOUNTER

(2021, Estados Unidos, Reino Unido, 108 minutos, de Michael Pearce). Mostra Special Presentations. Assista aqui ao Q&A.

DIONNE WARWICK: DON’T MAKE ME OVER

(2021, Estados Unidos, 95 minutos, de Dave Wooley e David Heilbroner). Mostra Special Presentations.

THE GUILTY

(2021, Estados Unidos, 90 minutos, de Antoine Fuqua). Mostra Special Presentations. Remake do filme dinamarquês “Culpa”, de Gustav Möller. Mesmo diretor de “O Protetor”, “Invasão a Casa Branca”, “Dia de Treinamento”. Produção original Netflix. Assista aqui ao Q&A. 

THE STARLING

(2021, Estados Unidos, 103 minutos, de Theodore Melfi). Mostra Special Presentations. Com Melissa McCarthy, Chris O’Dowd, Kevin Kline. Mesmo diretor de “Um Santo Vizinho”, “Estrelas Além do Tempo”. Assista aqui ao Q&A. 

DUAS CÂMERAS

THE STORY OF MY WIFE

(A feleségem története, 2021, Hungria, Alemanha, Itália, França, 169 minutos, de Ildikó Enyedi. Mostra Special Presentations. Exibido na competição oficial do Festival de Cannes. A diretora dirigiu “Corpo e Alma”.

ALL IS HEAVEN

(Du som er i himlen, 2021, Dinamarca, 86 minutos, de Tea Lindeburg). Mostra Discovery. Assista aqui ao Q&A. 

VIOLET

(2021, Estados Unidos, 92 minutos, de Justine Bateman). Mostra Special Presentations. Assista aqui ao Q&A. 

KICKING BLOOD

(2021, Canadá, 80 minutos, de Blaine Thurier). Mostra Contemporary World Cinema. Assista aqui ao Q&A.

MATAR A LA BESTIA

(2021, Argentina, Brasil, Chile, 79 minutos, de Agustina San Martín). Mostra Discovery. Com a presença do ator brasileiro João Miguel no elenco.

MLUNGU WAN (GOOD MADAM)

(Mlungu Wam, 2021, África do Sul, 92 minutos, de Jenna Cato Bass). Mostra Platform. Assista aqui ao Q&A.

UMA CÂMERA

HELLBOUND

(2021, Coreia do Sul, 150 minutos, série, dos criadores Yeon Sang-ho, Choi Gyu-seok). Mostra Primetime.

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