Draminha tolo e açucarado

Por Pedro Guedes


Em um filme de romance, o mínimo que se espera é que o espectador seja capaz de “comprar” o romance em si. Não, o longa não precisa ser necessariamente uma obra-prima (se for, também é ótimo), mas é importante que a relação entre o casal de protagonistas seja convincente, que a dupla tenha uma química interna e que os motivos pelos quais aquelas duas personalidades se atraem fiquem claros. Assim, não demora mais do que cinco minutos até que “Asako I & II” se revele fracassado neste sentido: ainda no começo, quando a jovem Asako Izumiya simplesmente esbarra com Baku Torii e este diz algo “galanteador” sobre os olhos da garota e os dele, o “amor” entre os dois surge… a partir daí. É difícil “comprar” uma relação que começa deste jeito, não?

Dirigido pelo mesmo Ryūsuke Hamaguchi que comandou “Happy Hour”, em 2015, este “Asako I & II” se passa na cidade japonesa de Osaka e enfoca a jovem Asako Izumiya, que – como foi dito no parágrafo anterior – começa um romance súbito com um rapaz chamado Baku Torii. Depois que o sujeito desaparece sem deixar nenhum indício de que voltará um dia, Asako decide seguir com sua vida e, com isso, acaba conhecendo Ryohei, um homem de negócios bem-sucedido e que tem exatamente a mesma aparência de Baku. Desta forma, Asako e Ryohei obviamente se relacionam – isto considerando, é claro, que não parece haver a menor chance do namorado anterior da protagonista retornar.

Embora conte com um título que talvez sugira alguma grandiosidade narrativa, “Asako I & II” não é muito mais do que um exercício de melodrama tolo e vazio: sim, a premissa da história parece promissora, mas na prática o roteiro escrito pelo próprio Ryūsuke Hamaguchi e por Sachiko Tanaka não parece ter muito para onde ir. Para compensar isso, a narrativa é basicamente composta por um monte de situações quase aleatórias que vão se aglomerando e se estendo, mas sem jamais esconder o fato de que… não há muito conteúdo aqui – e se somarmos isto à abordagem fria e distante que a direção de Hamaguchi resolve adotar, o resultado torna-se chato e aborrecido. Aliás, a projeção se alonga até atingir duas horas, mas a grande verdade é que não há história o suficiente para preencher uma duração como esta; o que só agrava o problema.

Por falar em abordagem fria e distante (uma decisão tomada de propósito, mas que nem por isso deixa de ser problemática), “Asako I & II” falha em levar o espectador a se importar com os personagens e com os dilemas que eles enfrentam: para começo de conversa, todas as relações são estabelecidas de maneira artificial e esquemática, desde o romance entre Asako e Baku até as amizades da protagonista. Além disso, os personagens estão longe de ser dos mais complexos, se limitando a composições inexpressivas e apáticas – Asako, por sinal, é uma figura central desinteressante e sem personalidade: em um momento, ela mantém a expressão neutra e sofre passivamente nas mãos dos homens que estão ao seu redor; em outro, ela passa a defender uma amiga de um namorado babaca (e sem deixar de manter a expressão neutra).

Mas sem jamais deixar de correr atrás de Baku, o macho alfa que a abandona sem qualquer explicação e praticamente define a maneira como ela vive – não, é sério: tudo na jornada de Asako parece ocorrer em prol de Baku (ou dos outros personagens, o que volta a denotar sua falta de personalidade). E quando chega a hora da protagonista tomar uma decisão própria, ela faz uma escolha estúpida demais para ser levada a sério, o que sepulta qualquer chance de conquistar a simpatia do público por ela – e não é à toa que, quando Asako começa a perceber que cometeu um erro crasso, a reação do espectador não é de pena, mas de… sei lá o quê.

Investindo em uma série de momentos cafonas e que não chegam sequer perto de soarem naturais (quando Asako se vê perdidamente apaixonada por Baku, ela se joga no chão e diz uma ou duas frases melosas que parecem ter saído de um roteiro de novela das oito – só faltou completar com um “Ohhhhhhhh…”), “Asako I & II” ao menos conta com um ou outro plano eficiente em sua composição – e mesmo que a cena que estabelece o início da relação entre a personagem-título e Baku seja forçada, é difícil deixar de reconhecer a beleza do plano que mostra os pés de ambos os personagens se aproximando, marcando o começo da interação entre os dois através de um detalhe curioso.

Na maior parte do tempo, porém, “Asako I & II” é uma obra que pode até conter algumas imagens bonitinhas, mas que no fim das contas se resume a uma narrativa inchada, sem razão para existir e que, para manter o espectador sempre atento ao fiapo de história, atira algumas situações que são absurdas demais para funcionarem.

Em outras palavras: não é uma obra que mereça carregar um título grandioso como “Asako I & II”. Em vez disso, poderia se chamar “Dois Clones e Um Melodrama Cafona” ou algo assim.

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