Rosebush Pruning

Entre roseiras podadas e dentes brancos

Por Fabricio Duque

Festival de Berlim 2026; Festival do Rio 2026

Rosebush Pruning

Há um cinema performativo, que emula tentativas experimentais de uma intervenção mais teatralizada da realidade, esta que existe na materialidade da imagem metafísica, numa busca de desestabilizar a própria construção cênica do que se vê. Expõe-se mais explicitamente “o que os outros acham que é legal gostar”, em que esse “gostar se confunde com o mostrar que gosta”, já disse Gregório Duvivier, no programa Não Importa, ensaiando assim uma definição do que é na verdade essa arte performativa, que acaba exagerando mais no tom para chamar a atenção. Esse cinema usa uma linguagem mais blasé, de atmosfera pretensiosa, com doses de ingenuidade, quase robótica, que se desenvolve mais no banal, entre fluxos de improvisos do tempo vazio de seres em tédio fútil, em que não há emoções, tampouco sensações. Tudo parece ser um grande espetáculo, mais direto, mais cru, menos sutil, mais engessado e com propósito bem mais distante e anti-naturalista, cuja narrativa é conduzida pela narração racional de sentidos literais, que limitam idiossincrasias excêntricas aos envolvidos. Um desses exemplos é “Saltburn” (2023), de Emerald Fennell; junto com “La Chimera” (2023), de Alice Rohrwacher, e/ou a série “Something Very Bad Is Going to Happen” (esta mais de gênero). E neste ano há um novo integrante nessa safra: o mais recente longa-metragem “Rosebush Pruning”, algo como “Roseiras Podadas”, do cineasta brasileiro Karim Aïnouz, que explora de um tempo para cá novas formas e geografias em seus filmes ao escalar atores internacionais.

“Rosebush Pruning” vem sendo considerada uma noir (e suspensa) sátira contemporânea, psicossexual (em uma inconveniente linguagem chula, mais tarada e canastrona até) e absurda, numa estética fotografia arthouse cinematic, de cores vívidas, e com uma câmera mais explícita nos detalhes filmados, entre diálogos soltos e aleatórios, de Gaudí a Balenciaga, passando por relógios caros, sapatos de moda, lobos, caronas, danças constrangedoras no carro, crises de epilepsia e camisas vermelhas. Aos poucos, nós somos convidados a participar dessas crenças particulares, da dinâmica própria deles: fetiche por sangue e esperma para deixar os dentes brancos. Como disse, tudo aqui, toda a família anormal (e disfuncional) simula o conceito da primeira ideia (sem apuro técnico e/ou aprofundamento sentimental), num enunciado que não se afirma, tampouco nega. O que chega é apenas a aparência, mais artificial, “medíocre” e gratuita. Sim, é um filme que se esquiva do próprio espectador, o fazendo ter que montar o quebra-cabeças sozinho, sem nenhuma ajuda, e inclusive com “novidades” constantes, como por exemplo a quebra da quarta parede. “Rosebush Pruning” busca um psicopata mundo cão, de hipocrisias expostas, de reações passivo-agressivas, de indivíduos em estágio animalesco, sem pudores e sem mais a noção do certo e errado.

Pois é, cada diretor tem todo o diretor de explorar novos universos, mas isso não pode impedir o público do questionamento. Se uma obra é totalmente diferente, então nós realmente precisamos vê-la como algo novo, sem pensar na fama e na credibilidade artística de seu autor. Sim, este é um outro Karim Aïnouz, completamente distinto do anterior de “Madame Satã”, de “Praia do Futuro” e de “Céu de Suely”. Ali, buscava-se a emoção crua, a sensação naturalista dos sentimentos e a reação genuína. Eram filmes de dentro. Mergulhos. Autópsias. Aqui, o interno virou fora. Distante. De efeito. Ensaiado. Não acessível mais. “Rosebush Pruning”, inspirado no filme “De Punhos Cerrados”, do italiano Marco Bellocchio, e exibido na mostra competitiva ao Urso de Ouro do Festival de Berlim 2026, que agora chega ao Festival do Rio deste ano, pincela detalhes do longa de 1965 pelo roteirista Efthymis Filippou (conhecido por escrever os filmes do realizador grego Yorgos Lanthimos). No daqui, o cego agora é o pai, não mais a mãe.

Parece que tudo em “Rosebush Pruning” é aleatório, como o próprio filme se adjetivou em certo ponto. Sim, mas nem tudo também se configura de espinhos. Há momentos bem bons, especialmente quando o filme deixa de hesitar a ação e se entrega totalmente à bizarrice, como a cena que o pai escova o dente; e quando a loucura toma conta e mortes começam a acontecer. É, o filme tinha que ter enlouquecido mais sobre essa patriarcal e branca família americana privilegiada, sob o sol da Catalunha, ainda que decadente em seus conflitos e desejos, num isolamento hedonista e apelando à uma vulnerável validação dos outros. Sim, “Rosebush Pruning” tinha tudo para se tornar um acontecimento, mas racionalizou demais (“Pessoas são rosas, famílias são roseiras”), ainda que com trilha de Pet Shop Boys (“Paninaro“) e cenas pós créditos.

2Nota do Crítico51

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