Quando a Terra Treme

Ancestralidades Interrompidas

Por Jorge Cruz

Recriar momentos que se revelam históricos em seu nascedouro, como o crime ambiental em Mariana, o maior do Brasil até então, dificilmente encontram equilíbrio entre a fidelidade da representação e a atemporalidade. Sob esse aspecto, o curta-metragem “Quando a Terra Treme”, segmento do filme “Em que Tempo Vivemos?” dirigido por Walter Salles e roteirizado por Gabriela Amaral Almeida nos remete diretamente ao equívoco de mexer no delicado atentado terrorista de 11 de setembro de 2001, que Oliver Stone transformou em “As Torres Gêmeas”.

Usando a ficção como fio condutor, Salles registra imagens chocantes de destruição, boa parte delas ainda marcadas na memória do espectador. Animais mortos, carros e casas destruídas contrastando com objetos intactos, como um porta retrato em uma parede. A destruição de Mariana e arredores (além da morte do Rio Doce) ocorreu em 2015 e a equipe se dirigiu ao local dois anos depois. A maneira encontrada para dar à luz ao projeto se configurou em colher depoimentos dos moradores de Paracatu e Bento Rodrigues e reconstituir dramaticamente situações vividas e testemunhadas ao longo dos seis primeiros meses que sucederam o fato.

As vozes das verdadeiras vítimas se tornaram um segundo material, o documentário original da Globo News chamado “Vozes de Paracatu e Bento”. Em “Quando a Terra Treme” há certo incômodo nessa recriação artística de algo muito recente, ainda mais em uma montagem que pinça verdadeiros habitantes da localidade vivendo conformados em um alojamento improvisado à espera das indenizações e reparação de danos. Quase como uma reportagem sensacionalista soft de programas pautados no assistencialismo como “Caldeirão do Huck”. Essa mistura temporal, documentando 2017 e representando o ocorrido no final de 2015 e início de 2016, deixa o curta-metragem flanando entre dois objetivos.

Amaral Almeida aposta em um roteiro cru, limpando qualquer possibilidade de desenvolver a personalidade dos protagonistas. Mãe e filho em processos de amadurecimento forçado, com lama incrustada nos dedos, usando roupas doadas que não lhe servem direito. A vida paralisada, o desenvolvimento da ansiedade, a escola improvisada no chão de uma quadra. A busca pela dignidade das vítimas não precisava de tanta ficcionalidade, sendo possível a emissão de inúmeras mensagens a partir do simbolismo dessas atitudes e constatações elencadas. O sumiço do pai, que dias antes mostra ao filho como o avô o chamava dentro da mata, deixa a sensação de uma ancestralidade interrompida, com potencial extensível a todo aquele verde que vira marrom como num clique. Demandas propostas e abandonadas sob a desculpa de uma montagem que quer criar um arco mais extenso. 

Quando a Terra Treme” ousa retratar no calor da tragédia, mas ao chegar ligeiramente atrasado se vale de expedientes rudimentares, improvisando uma ficção no meio da realidade. Inserido em um longa-metragem que possui a intenção de gerar diálogo entre os cinco países do BRICS, acaba dizendo pouco aos brasileiros que viram à época ser impossível ignorar o que se passava na região. É um exercício de cinema pensado o suficiente para não ser considerado improvisado – mas que pode ser definido como um teatro feito apenas para exportação.

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