Pele de Rinoceronte

Toda a voz e todo o corpo delas 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante a Mostra CineBH 2026

Pele de Rinoceronte

Com título inspirado por Julio Bressane e Augusto dos Anjos, Marcelo Ludwig Maia apresenta sua estreia como diretor depois de longa e bem sucedida carreira como produtor. O primeiro declamou versos do segundo, e isso foi suficiente para que Maia compreendesse que essa é a sina da condição feminina – vagar estendida pela ponte aguentando os horrores de ser. Apesar da significância do título, seu emprego na tela e as reverberações que avançam por 50 anos no tempo, as protagonistas de “Pele de Rinoceronte” demonstram outra energia. Na verdade, acho que todas as figuras que estão em cena do sexo feminino se saem de maneira impositiva às suas ações, mesmo tendo pouquíssimo tempo de tela, como a dona da pousada. Isso talvez parta da gênese de contar essa história.

O centro da discussão é obviamente contemporâneo, e o jogo discursivo que o filme apresenta, trafegando nesse cruzamento de temporalidades, desenha o que o filme tem de melhor. É compreendido que tais figuras não tinham voz à época, mas “Pele de Rinoceronte” se interessa por quem não se importou com a pressão ao seu corpo. Ou melhor, com quem se arriscou para tomá-lo como representação exemplar de outrem; estariam tais figuras na linha de frente de uma batalha que já tinha começado anos antes, e que não cessa, infelizmente. Os números ligados ao feminicídio continuam alarmantes, crescentes e vergonhosos no Brasil, mas como foi dito no debate, essa é uma luta que precisa ser travada inclusive por homens. Como dizem, não basta não ser machista; temos de ser anti-machistas.

Retomando, “Pele de Rinoceronte” carrega símbolos bastante incisivos em seu texto, e na maneira sutil com que seu elenco os mostra. Existe uma guerra dos sexos que não está em primeiro plano nas ações de seus personagens masculinos, mas mesmo o tipo positivado vivido por Daniel Rangel carrega esse estigma da competição. São homens que sempre elaboram as ações de suas parceiras de cena a partir de um ponto de vista desqualificatório, como se, ainda que sob o manto de uma proteção invasiva, tais comportamentos precisassem ser obliterados para o bem – de quem? É um recurso que precisa ser lido nos olhares, nas falas embaçadas e nos argumentos fora da centralidade temática, mas que arranham os propósitos da produção. Lógico, nada disso é não-intencional; não existe pureza e ingenuidade na construção do roteiro. Esse é um trunfo.

A despeito dos termos de ação positivas relacionadas ao roteiro e a abordagem dos mesmos no discurso, “Pele de Rinoceronte” consegue em poucos momentos tentar reproduzir parte dessa força no campo das imagens. Na verdade, por muitas vezes o filme não equivale ao que é dito com o que é mostrado, em construções pouco inspiradas de mise-en-scène. O foco das cenas parece ser no disparo de cada dispositivo, esquecendo as ações propriamente ditas, e isso já na abertura, caso do primeiro encontro entre os personagens de Débora Falabella e Augusto Madeira, cuja elaboração contribui para que seja lida de maneira negativamente ambígua.

O filme lida com suas imagens quase que da maneira oposta com o que o texto tenta corresponder. Se há liberdade nas personagens e em suas intenções, através da lente vemos uma ideia restrita de suas condições. E quando a composição é mais elaborada, o personagem contemplado com ela é um dos homens, no caso, o vivido por Irandhir Santos na cena da demonstração do crime que ele e sua esposa vivida por Naruna Costa estão para assumir a acusação. Mesmo o discurso cheio de potência de Costa, aplaudido em cena aberta, consegue tal comunicação pelo estado das coisas e a impressão da atriz, que deixa valer ali todo o registro de dor ancestral que assolam os crimes através da História do corpo feminino. A cena é o exemplo dessa pontuação, vazando para situações ora constrangedoras (o rosto de sua mãe, como assistindo a um jogo de futebol), ora vazias.

Da parte do elenco, todos tem belos momentos. Do corpo de Falabella, que vai assumindo uma liberdade cada vez mais duradoura, expurgando o medo (que ainda assola) até culminar em uma cena de dança levada muito a sério. Da voz de Costa, que enfrenta com carinho e malemolência o poder de um marido essencial, para chegar no lugar onde merece, com a carga dramática em alta. Do rosto de Irandhir, que se transforma em vítima mesmo estando em time dominante, na cena mais bem preparada esteticamente do filme. Da postura de Madeira, o homem de sempre tendo suas vontades negadas, reagindo com descontrole esperado. Todos entendem seu lugar no micro e no macro de suas ideias, e paralelas ao que não funciona em cena.

2Nota do Crítico51