Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu

A Constante de Tiradentes

Por Vitor Velloso

Crítico convidado pela Mostra de Tiradentes 2020

Dando continuidade à Mostra Aurora na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, “Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu” é um caso a ser debatido não só como filme em si, mas sua significação no próprio festival, visto que há uma década o recorte representado por essa mostra em específico não se reinventa. Observa-se uma perpetuação da mesma estética nas obras, de tal forma que é possível afirmar categoricamente ao assistir algumas delas que se trata de “um filme com a cara de Aurora”.

Dirigido por Bruno Risas, o projeto segue a padronagem dos competidores, buscando criar um universo que funcione em um limite da linguagem, sem que haja uma especificação de qual a veracidade daquelas situações ali projetadas, além situar seus planos com a estoicidade de sempre, com diálogos que buscam uma certa naturalidade para a encenação, mas que se tornam absolutamente artificiais pela direção que é dada a tais interpretações. É compreensível que haja algumas limitações nestas relações dramáticas dos personagens, atores e da situação narrativa, já que a proposta da Aurora é revelar a carreira desses cineastas, não apenas premia-los.

Porém, parece haver uma concordância tamanha com todo o cenário contemporâneo do Brasil, que levanta um alerta para a constante repetição dessa forma. Algo exemplar neste cenário atual, a Filmes de Plástico (de obras como Temporada e No Coração do Mundopossui uma consciência muito ampla das limitações e das potências desta linguagem. Não à toa atinge uma característica mais centralizadora de suas ações, tanto com o público quanto com crítica. Como muita coisa no cinema se torna um vício de fragilidades fugazes, a nova leva de cineastas busca referência nessa dominância concreta cinematográfica da produtora mineira para aplicar em seus projetos um estoicismo que, independente de qualquer fator, será utilizado.

“Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu” tenta achar a estranheza de sua narrativa a partir de uma conceituação documental dos dramas familiares ali desenvolvidos. Ainda que seja parcialmente eficiente em seu início, pois consegue retratar as imagens dos familiares com relativa agilidade, essa excitação inicial por aquelas pessoas e suas histórias rapidamente se esvai em uma dilatação burocrática da intencionalidade final do projeto. É como se tentasse deixar suas pistas e migalhas como quem faz joguinho quase paródico com o espectador. Todo esse tom, canhestro, que parece tirar sarro da aparente seriedade das proposições que ali são feitas, é dialético em teoria, mas se torna ineficiente com sua progressão, posto que não apresenta uma solidez que faça jus àquilo que diz ousar fazer.

Essa busca alucinada por um assassinato da cinefilia, da autoria, além de pouco honesta com as próprias investidas contra a ideia, soa tão infantil quanto tentar levar a cabo a discussão do que significa esse conceito em uma sociedade pós-moderna… Chega né.

A ficção científica aqui instalada, não vislumbra um feito realmente maior do que um diálogo com um nicho muito específico, que não se recusa a ver projetos que aparentam negar o tempo como uma construção da montagem em si, mas sim do plano e de sua misancene (como Glauber Rocha entendia por bem chamar), sua colocação em um tempo e espaço que parece guiar muito mais que sustentar uma ideia ou uma narrativa. E esse é o ponto que tanto encanta as pessoas, pois é um constrangimento da realidade que se dá através da realização da mesma enquanto centeio de cotidiano solto na regionalização dos territórios destes personagens. Um cinema geográfico por natureza, mas que pouco se despe, ou desce do salto para buscar novas verves ou histórias que realmente possam vir a debater qualquer um dos pontos que são tocados, muito menos situar o cinema como uma força motora que precisa de suas engrenagens funcionando para que o movimento aconteça. Independente de qual direção, é necessário que haja consciência dessa discordância da inércia, visto que uma estagnação artística é sinônimo de retrocesso político, cultural e social.

“Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu” é vacilante em forma e conteúdo mas consegue interessar parte do público, nicho específico de cinéfilos e críticos, enquanto busca construir as relações familiares que estão sendo desenvolvidas no princípio da obra. Bruno Risas é um diretor consciente de suas intenções e possui o tato para ser eficiente nas cenas que indica sua convicção da fantasia litúrgica que concretiza um ato aleatório com a possibilidade do caos alternativo de uma cinefilia burocrática.

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