No Coração do Mundo

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No Coração do MundoNo coracao do mundo

Um olhar interessante

Por Pedro Guedes

 

 

O município de Contagem, em Minas Gerais, parece ser um lugar extremamente precioso e importante para  Gabriel e Maurílio Martins (que, de tão amigos, têm até o mesmo sobrenome de irmãos). Quando terminaram a faculdade, os dois fizeram um TCC que consistia em um curta-metragem chamado… bem, “Contagem” – e não é surpresa, portanto, que o mais novo trabalho da dupla volte a se concentrar na mesma locação. Comprovando que os irmãos Martins são dois realizadores que certamente merecem atenção, o longa “No Coração do Mundo” oferece ao espectador uma espécie de viagem para dentro de Contagem, escancarando a realidade dos moradores daquele município ao passo que acompanha uma série de personagens interessantes e que quase sempre ganham um momento de destaque.

Escrito também pelos irmãos Martins (da produtora Filmes de Plástico, que já emplacou “Ela Volta na Quinta“, “Temporada” e outros), “No Coração do Mundo” é um filme que, sim, se propõe a contar uma história, criando uma narrativa coesa que se distribui ao longo de três atos bem definidos. Este, no entanto, não é o foco do projeto: em vez de se preocupar com a trama em si, o principal objetivo do longa enquanto experiência é permitir que o público observe cuidadosamente o dia a dia dos personagens que surgem em cena, servindo quase como uma “janela” para que o espectador contemple a realidade de Contagem. No centro de tudo isso, há três personagens que se destacam mais do que os outros: Selma, uma mulher que gerencia uma pequena produtora, convence o ladrão Marcos a tentar invadir o condomínio luxuoso de um sujeito que mora na região mais rica de Contagem – e, para que o crime dê certo, os dois terão que contar com a ajuda de uma terceira pessoa: Ana, a namorada de Marcos.

Demonstrando controle total acerca do projeto que estão dirigindo, os irmãos Martins sabem conferir a abordagem exigida por cada momento distinto da narrativa: na maior parte do tempo, os cineastas transformam o longa em uma experiência legitimamente contemplativa, apenas deixando o espectador observar o que está acontecendo no cotidiano dos personagens e daquele município; quando chega o terceiro ato, porém, os Martins imediatamente conferem ao filme um sentimento de urgência que difere do que foi mostrado anteriormente, mas que funciona graças ao cuidado que os diretores tiveram ao transitar de uma abordagem à outra. Além disso, a decupagem das cenas sempre fazem o espectador sentir-se dentro das situações que estão sendo retratadas na tela, investindo em tomadas longas e movimentos de câmera sutis que conferem às sequências um ar de… “trivialidade” perfeitamente adequado.

Ainda assim, o que mais chama a atenção em “No Coração do Mundo” é a maneira como os irmãos Martins distribuem o tempo de tela para cada personagem/situação, dedicando-se, na maior parte do tempo, a simplesmente olhar para o que está acontecendo em Contagem – e, neste sentido, os cineastas constroem com eficácia os contrastes socioeconômicos que existem naquela região (e no Brasil em geral): há uma sequência, em especial, que expõe para o espectador o quanto a elite costuma se sentir superior aos “reles mortais” habituados a andar de ônibus, por exemplo (esta cena, inclusive, é chocante e dificilmente sairá da minha memória tão cedo). Aliás, não é coincidência que o terceiro ato gire em torno justamente de um assalto no qual três moradores de uma comunidade invadirão um condomínio de riquinhos, o que é digno de nota.

Infelizmente, “No Coração do Mundo” não chega a ser perfeito – e alguns dos problemas que o longa ocasionalmente exibe também têm a ver com a estrutura que os irmãos Martins adotaram para a narrativa: existem muitos personagens e muitas situações acontecendo ao mesmo tempo, e às vezes isto faz a história perder seu foco, soando dispersa em alguns momentos. Isto, inclusive, cria alguns inchaços que fazem o filme se tornar um pouco mais longo do que precisava, alcançando nada menos que duas horas de projeção quando poderia perfeitamente durar uns 20 minutos a menos. Por outro lado, a força que os cineastas e o elenco exibem em seus melhores momentos compensam a maioria dos probleminhas de ritmo que a obra poderia ter.

Estabelecendo cuidadosamente a personalidade de cada personagem (Grace Passô transforma Selma em uma líder determinada, apesar de suas frustrações eventuais; Leo Pyrata retrata Marcos como um sujeito insatisfeito com o estilo de vida com o qual se acostumou a seguir; e Kelly Crifer encarna bem todas as inseguranças de Ana), “No Coração do Mundo” ainda traz MC Carol em uma performance surpreendente, cheia de naturalidade e verdadeira em suas ações/reações. E que venham novos projetos dos irmãos Martins!

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