O Exterminador do Futuro 4: A Salvação

Explosões de Testosterona

Por Jorge Cruz

Há em “O Exterminador do Futuro 4: Salvação” uma clara tentativa de copiar o expediente empregado no longa anterior, “O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas“, tirando qualquer amarra prejudicial às infinitas cenas de ação. Porém, o resultado obtido é totalmente inverso, fazendo a experiência de reassisti-lo, passados dez anos de seu lançamento, em uma fardo do peso da cinefilia inveterada – dada a total falta de frescor e expectativa criada. Quase como se gerasse certo arrependimento de revisitar todas as obras da franquia.

Se em “Rambo 3“, pior filme protagonizado pelo personagem imortalizado por Sylvester Stallone, a falta de qualidade é creditada a flagrantes falhas de representações e uma moral duvidosa no embasamento da aventura, aqui sequer há espaço para identificar gravidades como essa. Sem contar com Arnold Schwarzenegger como líder de elenco, à época exercendo seu segundo mandato como Governador da Califórnia, o longa-metragem opta por se afastar de sua ambientação temporal: sai a viagem de personagens do futuro para o presente e entra o transporte do público para a distopia de 2018.

A única conexão com o tempo do agora (lembrando que falamos de um lançamento de 2009) é a cena constrangedora do prólogo, que mostra Marcus (Sam Worthington), preso condenado à morte, relutando para aceitar uma autorização de uso de seu corpo para pesquisas após a execução da sentença. Ele será um dos responsáveis pela evolução tecnológica que dará formas humanas aos ciborgues. Toda a dinâmica de destrinchar um argumento narrativo nas quebras de sequências de ação (algo que até o filme anterior fez, mesmo que precariamente) é trocada por uma criação de plot desinteressante.

A ausência de James Cameron no projeto anterior, se não inundou de brilhantismo, também não diminuiu a obra, totalmente alinhada com a franquia – alterando-se apenas a abordagem. Para “O Exterminador do Futuro 4: Salvação”, o estúdio sacou o inexplicável McG, que havia lançado até então três longas: o passável “As Panteras” (2000), sua continuação patética de 2003 e o morno “Somos Marshal” (2006). Conhecido na década anterior por dirigir algumas dezenas de bons videoclipes, o cineasta tenta criar uma estética muito similar em um produto de quase duas horas – sendo o resultado, em todas as vezes, catastrófico. A grande expectativa dos produtores se criou com a aceitação de Christian Bale em participar do projeto. Em ascensão à época, ele havia estrelado no ano anterior “Batman: O Cavaleiro das Trevas” e estava no centro das atenções de Hollywood.

Todavia, acaba que o longa-metragem reúne um elenco promissor, bem mais talentoso do que qualquer outra produção dessa saga, mas que flana por uma videoclipe de ação desmedida, de fundamentação falha – mesmos erros crassos identificados no filme que afundou a quase-franquia As Panteras. É possível que nunca mais se consiga um grupo de atores tão carismáticos como o próprio Bale, Bryce Dallas Howard e o saudoso Anton Yelchin. Nem mesmo convença um profissional do calibre de Danny Elfman a trabalhar em uma franquia com trilha pré-existente, o que sempre engessa seu trabalho. Lançado seis anos após “O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas”, essa produção arrecadou sessenta milhões de dólares a menos – mesmo custando os mesmos duzentos milhões.

A representação feminina beira a inexistência e se limita a quase donzelas em perigo. Naquela que talvez seja a pior cena da saga, Blair (Moon Bloodgood) é salva de um estupro pelo “zumbi” Marcus. Ao agradecê-lo e meio que questionar sua “bondade” em não tentar assediá-la ele se justifica dizendo que não é humano, como se ser homem o autorizasse a tentar ir a fundo em nova violência. Outro incômodo em “O Exterminador do Futuro 4: Salvação” fica por conta da tecnologia em CGI ainda em desenvolvimento, tornando esse o filme que pior envelheceu na saga, mesmo não sendo o mais antigo. Lembra um pouco a estética ofensivamente falsa de “Capitão Sky e o Mundo do Amanhã“, lançado cinco anos antes.

Do pouco que se pode conectar no subtexto do longa-metragem o que chama a atenção é a consciência de sua existência e destino representada em John Connor. Ao contrário de Sarah, em “O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final“, não há tanto uma busca de mudança do futuro e sim da consolidação do presente, mantendo em segurança o próprio pai, Kyle Reese. Todavia, o roteiro não trabalha essa visão antagônica da maneira do filho tocar a vida em oposição à mãe, nem resgata o vírus do pacifismo que ele parecia portar na obra clássica dirigida por James Cameron em 1992.

Um filme que se revela uma carcaça dura de ação, que não anseia por vínculos de qualquer natureza – ou seja, uma criação totalmente dissonante com a pegada parabolesca do criador do personagem Terminator e tudo que ele arrasta. Não desperta interesse, parecendo um amontoado de cenas colocadas ali apenas para existir – uma típica obra de McG. Uma trama que se apresenta de maneira relativamente complexa, mas que se perde em diálogos sofríveis e explosões de testosterona.

 

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