Nũhũ yãg mũ yõg hãm: essa terra é nossa!

Tutano e respiro

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Tiradentes 2021

A Mostra Olhos Livres é, normalmente, a sessão que reserva mais surpresas na Mostra de Tiradentes“Nũhũ yãg mũ yõg hãm: essa terra é nossa!” de Isael Maxakali, Sueli Maxakali, Carolina Canguçu Roberto Romero é um documentário que não possui uma ordem que vai além do registro da realidade indígena brasileira, dos Maxakali. É o enquadramento de um Brasil que não se vê na História, é assassinado pelos brancos, enfrenta a opressão de um liberalismo tacanho e de uma política “democrática” que apenas visa a morte dos nativos e o favorecimento dos latifundiários.

Diversas políticas dos governos visam apenas o extermínio da população nativa, com leis neoliberais que reforçam o poder da propriedade e a gana pelo poder de decidir pela vida dos outros, com armas em punhos etc, ou com a capilarização do reacionarismo genocida que fomenta o ódio através das mídias. Mídias essas que se travestem de pseudo-progressistas neste momento de ascensão de extrema direita no Brasil, mas que geraram cifras a partir da disseminação de notícias com narrativa pela metade, além de assumirem alianças internas com diversos latifundiários, né Roberto Marinho?

“Nũhũ yãg mũ yõg hãm: essa terra é nossa!” é um registro-denúncia que foge às representações padronizadas do documentário brasileiro que visa o agrado da burguesia. A forma cinematográfica aqui é dada a partir da necessidade política de seus personagens, eles discursam e o espectador assiste e lê. É um cinema-verdade que não atravessa a nomenclatura afrancesada e atinge a cultura brasileira a partir de um mosaico distinto da História que nos parece tão corriqueira, agora mapeada em extrato regionalista e com inimigos visíveis. Desde o que reclama do roubo de lâmpada, ao que pergunta se a personagem é cega. É onde o humanismo que a esquerda, autodenominada progressista, prega irremediavelmente, falha.

Existem pontos sem volta de uma situação política, social e econômica do país. Uma situação que está na estrutura, na cultura, que importada ou não, mantém uma unidade reacionária que apenas se fortalece com o atual governo. E é neste ponto que o título, “Nũhũ yãg mũ yõg hãm: essa terra é nossa!” do documentário ganha corpo, a partir uma manifestação que não busca representação, nem intermediários para a fala, além da própria objetiva cinematográfica. O filme organiza os momentos com precisão para que possamos compreender o cenário que deseja registrar em uma escala regional, mas faz isso tendo em vista que o problema enfrentado ali é de cultura e política nacional.

Nesse campo, muitas discussões são possíveis a partir do longa, para além do que explicita, definições de terra, espaço, tempo, sociedade e “brancos”. São questões que deveriam ser debatidas mais veemente na educação nacional, para que haja uma divulgação dos problemas enfrentados pelos indígenas brasileiros, não apenas Maxakali. Digo isso como exposição, por não encontrar tempo hábil para debater tais pontos em uma crítica durante um festival, e pelo documentário conseguir ser dialético-didático, sem precisar recorrer à exposição, há pouco ou quase nada a ser acrescentado após a exibição do filme. Poderíamos discorrer debates infinitos em torno da linguagem de registro e como isso é um posicionamento político fundamental em um momento como esse. Ou como Nũhũ yãg mũ yõg hãm: essa terra é nossa!”, alfinetar outras seleções de festivais por não abrir margem para obras como essa.

Mas está tudo durante a projeção, cada relação antropológica que é construída pela experiência, está direcionada ao vácuo histórico que nos separa do Brasil. Não à toa, o filme precisa amenizar seu ritmo para uma lentidão inevitável, que une a didática ao imagético que contextualiza seus personagens e as histórias que compõem o longa. É uma sólida comunhão que coloca fim nos argumentos criacionistas de determinados críticos de cinema que acreditam em uma secção da forma e do discurso, reacionários que creem apenas na pureza da imagem cinematográfica como algo superior à expressões. É um negócio de dar arrepios nos neurônios.

“Nũhũ yãg mũ yõg hãm: essa terra é nossa!” é uma bela obra que configura parte da temática, da política e da própria Mostra que pertence. A Olhos Livres ainda é tutano da alma.


Assista ao filme de 10 a 14 de março na Mostra de Cinema de Gostoso 2021, clicando no link: https://innsaei.tv/#/

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *